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A face de Cristo

Fabiana Amaral

É sempre assim. Vai chegando uma data de feriado religioso ou que remonta a algo relativo à Bíblia e começam a ser vistas algumas (muitas) bizarrices nos meios de comunicação. O engraçado é que já se espera este tipo de coisa, muito embora raramente se dê importância a este fato. Talvez porque seja até cansativo analisar todos os erros grotescos de gênero e sentido das coisas que a mídia despeja no espectador.

Contudo, quando falamos de Páscoa esse fenômeno toma proporções um tanto quanto retumbantes. Mesmo que seja utópico pensar numa mudança nesta altura do campeonato, é no mínimo ultrajante ver a forma como Jesus é tratado na mídia em geral. Chega a soar desrespeitoso - se é que os midiáticos entendem esse termo - os comentários feitos sobre Ele e os ângulos sob os quais o analisam.

Uma coisa é verdade. Para a mídia em geral, Jesus Cristo é só mais um no partenon de figuras ilustres endeusadas. Para a maioria, Buda, Gandhi, Mandela e Jesus são figuras de uma mesma classe, de um mesmo nível. Pessoas boas que fizeram alguma coisa boa e marcaram uma época no seu determinado contexto social.

O pecado se dá pela ignorância. Mensagens do cânon sagrado já previam o atual desvirtuamento da imagem de Cristo, como o capítulo 4, verso 6, do livro profético de Oséias: "O meu povo perece por falta de conhecimento".

É fácil, no entanto, entender uma certa liberalidade em mostrar abundantemente a imagem de Jesus na mídia, mesmo que de forma errônea. Por muito tempo a Igreja Católica reprimiu a veiculação de assuntos que falassem de Jesus com uma espécie de censura. Mesmo nos recentes anos da ditadura brasileira, o que saía na mídia sobre Cristo tinha que ter o aval de entidades católicas, filiadas ao Estado.

Como tudo que se espreme acaba saindo pelos dedos, não foi de outra forma que se deu esse assunto. Sentindo a atual "liberdade" da imprensa, o povo descambou a colocar Jesus de tudo quanto é jeito e em tudo quanto é lugar. A banalização é evidente. A figura de Cristo aparece desde cuecas e biquínis até filmes que insinuam sua sexualidade aguçada.

Tornaram-se comuns expressões como "o cara lá de cima", "Jesus camarada", entre outras. O lamentável é que não se mostra respeito por Deus, o que, segundo os Evangelhos, efetivamente Cristo é.

Não vamos esperar, entretanto, que haja, de uma hora para outra, uma conscientização da santidade deste assunto. Também não é de se esperar que a partir de agora todos os veículos comecem a falar dos feriados religiosos com a seriedade ideal. Mas daí a continuar uma descambação freqüente dá para se esperar um meio termo.

Imagem física

Existem vários meios pelos quais se poderia ver mudanças. Um desses meios seria evitar o abusivo uso da imagem de Jesus. Não vamos cair numa exegese sobre o assunto, mas é plausível a consideração dos erros na transcrição do rosto e da figura de Cristo na mídia, mesmo a cristã.

Normalmente se vê um rosto com traços anglo-saxões. Enquanto se observa a face clara com olhos verdes ou azuis e cabelos compridos, levemente ondulados, perde-se de vista a realidade de que Cristo nasceu em Belém e viveu toda sua vida no Oriente Médio, devendo, pela lógica, ter os traços característicos daquele povo. Com pele bem morena, inclusive.

Noutras aparições, Jesus assemelha-se a um galã de novela das oito. Os desenhos e caricaturas desfiguram um Jesus que está cada vez mais - juntando com as especulações e comentários a seu respeito - distante da realidade descrita nas Escrituras Sagradas.

É de se pensar na decepção daqueles que acreditam numa segunda vinda de Cristo ao mundo ao se deparar com um Jesus - que, segundo a Bíblia, carrega suas características físicas de quando esteve na Terra - nada parecido com o que conheceram pela mídia.

Não sejamos ingênuos também em pensar que uma marca poderosa como Jesus ficaria isenta das investidas do mercado da comunicação. Exploram tanta coisa insignificante e esgotam o assunto para obter audiência e, conseqüentemente obter lucro, que não há nada que faça pensar sair o fator religião isento.

Também, pudera. Deus vindo ao mundo em forma humana. Na verdade nem precisa ser esta a crença, mas numa abordagem mais humanística ou publicitária teríamos o seguinte: um homem que foi perfeito em atitudes, mesmo sendo totalmente ao avesso das tradições e burocracias da época e, mesmo sem ter viajado o mundo ou freqüentado uma universidade, morreu numa cruz e deixou um sem número de discípulos - além dos doze habitualmente citados.

Nada há de mais excitante para a imprensa do que um homem que sem deixar vestígios visíveis, no que tange a registros arqueológicos ou escritos próprios, mudou todo o mundo. A despeito de morrer numa rude e degradante cruz, Jesus marcou a história do mundo antes e depois dEle. Nada mais viável para uma boa venda do que alguém assim. E dessa forma, na ânsia por audiência, passa-se uma imagem de Jesus Cristo que nem mesmo Ele seria capaz de reconhecer.

                                        

criação: lisandro staut