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O show da informação
Ana Paula Ramos
O mix entre jornalismo e entretenimento é um fato inegável. Do jornal impresso à internet,
podem ser vistos os reflexos da sociedade do espetáculo. O jornalismo cada vez mais faz uso das ferramentas de persuasão, do sensacional, pois sem público o show não pode continuar. Uma certeza os veículos possuem: de uma forma ou de outra estão presentes em milhões de lares.
Neste novo período da comunicação, os produtores de mídia tentam renovar o jornalismo mesclando-o ao entretenimento. São muitas as facetas que o gênero abrange: histórias escabrosas e policiais - a exploração do velho sensacionalismo -, conteúdo esportivo, turismo, fofocas e mexericos, estrelas substituindo jornalistas, predomínio das imagens, renovação da diagramação e a inserção sutil de
merchandisings.
Parece coisa nova, mas não é. O entretenimento de longa data começou a fazer parte do jornalismo e até a se confundir com ele. A fusão iniciou-se com a população americana no começo do século XIX, por meio da imprensa de tostão
(pennypress).
Mais precisamente nos Estados Unidos, no formato tablóide, o entretenimento conquistou seu primeiro espaço no jornal
New York Sun, que em 1833 explorou os primeiros recursos de diversão de massa. O
Sun destruiu os moldes do jornalismo da época ao falar sobre crimes, assassinatos, curiosidades e mortes que causavam sensacionalismo.
Com esta mudança, a maioria dos jornais, que eram escritos para as classes mais favorecidas, passou a atingir o público em geral. Um terço dos maiores jornais apostavam no entretenimento.
À época, o mundo não contava com a telinha. Dessa forma, os jornais tinham circulações imensas. Alguns chegaram a alcançar tiragens de até um milhão de exemplares por dia. Durante o período de 1880 e 1890 a circulação dos jornais chegou a aumentar 135%, graças ao entretenimento proporcionado pelos rivais
New York Journal e World, de William Hearst e Joseph Pulitzer.
Como não podia deixar de ser, o gênero veio para o Brasil e fez a festa. Começou com o sensacionalismo do
Notícias Populares, passou pela futilidade da Contigo! e terminou com a diagramação requintada do
Correio Braziliense.
Erva daninha
A forma "entretenimentada" do jornalismo sempre foi recriminada por apelar aos instintos mais baixos dos leitores e ainda exaltar a imprensa "séria" por se preocupar com os mais altos. Nela, as informações que tratam de questões mundiais são substituídas por artigos com fotos estouradas e manchetes escandalosas ou por cenas fortes e chocantes para atrair e entreter o público com apelo ao emocional.
Ao mesmo tempo em que os números de tiragem e a audiência aumentam, a indústria do entretenimento torna-se uma capa para esconder as falhas e os casos mal explicados do jornalismo. Converteu-se em uma erva daninha.
A competição entre os veículos de comunicação faz crescer a busca por ferramentas e técnicas diferentes de trabalho. Todo o serviço prestado hoje tem como foco central o cliente. Realmente a frase "o cliente sempre tem razão" faz muito sentido. A preocupação com a ética cai para segundo plano: "Primeiro temos que alcançar o público; depois...".
Declarações de um artista famoso ou de um criminoso procurado pela polícia parecem ser os principais assuntos dos meios de comunicação, tornando a informação condicionada ao show. As formas apresentadas pela mídia, interessantes e persuasivas,
transformam o receptor passivo ao seu mundo. As ferramentas do entretenimento que trazem boas sensações e satisfação são menos ainda questionadas.
Éticas diferentes
A confusão entre jornalismo e entretenimento se dá pela fusão de duas éticas diferentes. Pense nas diferenças que um programa totalmente voltado ao entretenimento possui e um telejornal sério. São duas posturas e dois campos diferentes a serem explorados.
Quando estas duas realidades se fundem podem acontecer algumas distorções. No entretenimento, a fantasia e a ficção são permitidas e necessárias, enquanto no jornalismo a busca da verdade, sua comprovação e compromisso com ela são a base do trabalho.
Há cerca de dez anos, o entretenimento ganhou força no jornalismo brasileiro. Na TV, o telejornal
Aqui Agora (SBT), de 1991, abriu as portas para a indústria do jornalismo e entretenimento - se bem que o
Fantástico, lançado em 1973 já havia inaugurado o gênero. O programa lançou, por assim dizer, algumas minisséries policiais, com atores e figurantes - detalhe: tudo era real.
Dali para aberrações como o Canal Aberto (Rede TV!), apresentado por João Kleber, foi só um passo. O programa combina reportagens com dramas pessoais e histórias absurdas.
O mesmo pode ser dito da nova fase do telejornalismo da Bandeirantes, em especial o
Brasil Urgente. O próprio diretor de criação da emissora, Rogério
Gallo, fala que esta foi uma aposta conjunta de jornalismo e entretenimento. Junto com as mudanças de cenário e programação, a emissora contratou os artistas Marcos Mion e Otávio Mesquita para compor a grade
jornalística.
Podemos realmente notar algumas deficiências no jornalismo atual: a ausência de pautas sobre economia, política ou cultura reflete o caráter diversificado do chamado jornalismo de entretenimento.
Ao dar uma olhada no índice da revista Veja, nota-se como o entretenimento invadiu todos os tipos de veículos de informação. Só a média de publicidade da revista chega aos 40%; o restante do conteúdo é distribuído entre testes, frases de artistas e personalidades da semana, fotos, muitas fotos, matérias sobre shows, turismo (propaganda de agências e hotéis), cinema (estréia de filmes), indicação de livros lidos por
personalidades.
Praticamente o mesmo pode ser dito das outras semanais de informação, a IstoÉ e a
Época. Carta Capital ainda é exceção - não se sabe por quanto
tempo resistirá ao mercado.
Na mídia impressa, os textos informativos acabam sendo preenchidos por colunas sociais, horóscopo e passatempos. A estética é muito enfatizada ao observarmos as fotografias, cores, crônicas, charges e quadrinhos.
As manchetes passam a ser previsíveis, mesmo sendo inéditas. É só a Xuxa arrumar um novo namorado que sabemos qual será a capa do jornal popular, da revista feminina e a matéria de entrada do
Fantástico.
Internet, o mundo do entretenimento
Se isso ocorre na mídia impressa e na TV, tente imaginar agora o impacto causado pela internet no jornalismo de entretenimento.
Algumas ferramentas da internet causam um grande impacto sobre o jornalismo. No chamado jornalismo online, tem-se a disposição o hipertexto, a multimídia, a atualização contínua, a personalização do jornalismo, a interatividade e a capacidade de memória de um computador ou site.
Parece estranho apontarmos as perdas do jornalismo e decadência de sua ética por causa de sua fusão com o entretenimento. E assim o é. Mesmo sendo uma fábrica de entretenimento, a internet trouxe ao jornalismo algumas vantagens. Não contamos apenas com conexões de um texto para o outro (hiperlink). Além disso, o jornalismo ganhou alguns suportes da linguagem escrita, como os trechos em áudio e vídeo (hipermídias).
O jornalismo em rede não só é uma forma de publicação, mas é automaticamente um meio de distribuição e pesquisa. Seu conteúdo pode ser constantemente atualizado, um marco na história da comunicação, onde um texto informativo impresso alcança a velocidade anteriormente só alcançada pelo rádio ou TV.
O leitor do jornal virtual pode escolher o que gostaria de ler, selecionando sites e notícias que lhe interessam, assim como o ouvinte de uma rádio virtual pode montar sua própria programação e ouvir as músicas escolhidas por ele mesmo. Pode também interagir com o veículo, ou com o próprio autor das notícias, artigos ou reportagens por meio do e-mail, o que amplia o debate e a
crítica sobre o assunto.
Para completar, o jornalismo online pode apostar também na diversidade de linguagens, trabalhando com as notícias periódicas abrindo espaço para a cultura, falando de filmes, peças de teatro e shows, sem prejudicar o espaço destinados às matérias 'sérias'. São alguns aspectos positivos da mistura entre jornalismo e entretenimento.
As rádios online atualmente investem muito no entretenimento. A Rádio Jovem Pan,
point do público jovem, mantém-se como uma das maiores no segmento de jornalismo e entretenimento. Seu programa em AM é comentado e transmitido via internet.
Sua grade de programação inclui noticiários, entrevistas, temas sobre política, economia, consumo, medicina, esportes, cinema, música e as principais notícias dos jornais norte-americanos - mas também traz diversão. Por meio da internet, o internauta vê, ouve e interage. O entretenimento chama a atenção para o jornalismo na Jovem Pan.
Pitadas de entretenimento
Como foi visto, a mistura entre jornalismo e entretenimento trouxe algumas vantagens, principalmente no ramo virtual. Mas também encerra aspectos negativos, também listados acima.
Se analisarmos o ideal do jornalismo, podemos chegar a pensar que ele é incompatível com
o objetivo da indústria cultural, que só se preocupa com o lucro e vive a serviço do espetáculo. Quando o jornalismo passa a depender do
show, a busca pela verdade cai para segundo plano e a ilusão, marca do entretenimento, transfere-se à informação.
Desta forma, é difícil confiar na seriedade e autenticidade de alguns veículos, principalmente no telejornalismo. As emissoras de TV ainda transmitem algumas coberturas dignas de um telejornal, mas sua principal atração tem sido persuadir a massa e depois
vendê-la aos anunciantes.
Parece que quando se fala em um jornalismo sério, ideal, sem esta mistura com o entretenimento, rema-se contra a maré, contra tudo o que o mundo da tecnologia oferece às pessoas. No entanto, a tradição da televisão pública e não comercial mostrou-se forte, como a rede britânica BBC, que vem de uma sólida tradição e em vários episódios da guerra movida pelos Estados Unidos com o apoio das tropas britânicas contra o Afeganistão, sua maestria na independência editorial conquistada, deixando a CNN para trás.
No Brasil, infelizmente, vemos a TV Cultura - paralela a BBC, guardadas as devidas proporções - capengar. Esta se mantém forte e não admite a fusão entre jornalismo e entretenimento. Talvez, por
culpa de seu jornalismo sisudo vem perdendo espectadores.
O jornalismo deve continuar ocupando a função mediadora da sociedade, valendo-se de seu compromisso com a verdade e objetividade. Uma pitada de entretenimento até é permitida, mas sem deixar-se levar pelo estrelato, que é passageiro. O filme, o teatro, a poesia, a piada, enfim, o show sempre acaba. Somente a verdade e a credibilidade permanecem.
criação: lisandro staut |
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