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O fantástico mundo de
Walt Disney World
Victor Drummond
Se você parar para analisar alguns veículos de comunicação, vai perceber que muitos lembram um parque de diversões, como
Hopi Hari ou Disney World. Isso para não dizer um verdadeiro picadeiro, onde articulistas, editores ou âncoras parecem bons palhaços de luxo. A única intenção é entreter o público, estando ele no conforto do seu lar.
Essa premissa não está longe do jornalismo. Entretenimento é fenômeno que anda muito próximo da imprensa atual. Não vou condenar programas que têm o formato de entreter e trazer, até diria, alguma opção cultural para o leitor ou telespectador.
É o caso, por exemplo, do Fantástico, da Rede Globo. Muita gente critica o programa dizendo que ali não se faz mais jornalismo sério. Usam argumentos equivocados. O
Fantástico, para quem não sabe, não é um telejornal, mas, como eles mesmo dizem, trata-se de uma revista eletrônica semanal. E numa revista há absolutamente de tudo, desde reportagens sérias, bom jornalismo investigativo, comicidade com as cenas do cotidiano, curiosidades, tendências, enfim. Analisando por essa óptica, diria que é um programa que cumpre o seu papel muito bem.
Em contrapartida, existem mídias que produzem um prato um tanto quanto amargo: o sensacionalismo. O problema está justamente aí. Ele é resultado da mistura do jornalismo com o entretenimento, dois ingredientes que jamais deveriam se misturar.
Informações banais
É triste diagnosticar isso no jornalismo. Ele acaba perdendo seu real valor de informar, banalizando a informação. Publicado no livro
Rede Imaginária: Televisão e Democracia, organizado por Adauto Novaes, o artigo "A desordem do mundo e a ordem do jornal", de Ricardo Arnt, ex-editor de notícias internacionais do
Jornal Nacional, diz que "se a imprensa não existisse, seria preciso inventá-la. É preciso assegurar para todos os cidadãos, ou para o maior número possível, as informações necessárias à vida social. Não só as leis, mas a normalidades de trânsito, de higiene, de conduta, o funcionamento dos serviços públicos, os costumes e as virtudes".
Virtudes. Por onde andam no jornalismo sensacionalista? Acaba faltando um pouco de tudo; normas, ética, bom senso, bom gosto, qualidade. A imprensa acaba se tornando mero parque de diversão. Arnt ainda acrescenta que "a mídia é esse elemento geral de certeza que reforça a eficácia do sistema em diferentes domínios. A sociedade é seu assunto. Que as leis e os costumes sejam claros a fim de que cada membro da sociedade possa distinguir o certo do errado, o vício e o crime. A mídia deposita em cada indivíduo o respeito à norma, assegurando
a introjeção da moral pública."
Parece acontecer uma divergência entre as definições de Arnt e o que acontece na prática. Está certo que a sociedade é o assunto da mídia. Mas não há necessidade de expor seus problemas de trás para frente e vice-versa.
A ex-ministra Dorothea Werneck, em palestra no 6.º Congresso Brasileiro de Jornalismo Empresarial, Assessoria de Imprensa e Relações Públicas, confirma essa idéia. Para ela, o papel dos comunicadores é mostrar o que há de bom por trás de cada coisa ruim e não sensacionalisar os fatos. O jornalista não pode transformar os criminosos em heróis, como faz o jornalismo barato.
Ainda questionando o papel da mídia de acordo com Arnt, que leis e costumes ficam claros se o próprio jornalismo sensacionalista quebra todas as regras de conduta e moral? Como o cidadão saberá distinguir entre o certo e errado, quando os jornalistas cometem inúmeros erros ao falar de um crime?
Em geral, o jornalismo é utilizado mais como entretenimento, em detrimento da informação. Arnt ainda acrescenta que, "no Brasil, efetivamente, a hegemonia da imprensa, em especial da televisão, tem uma potência especial. Este é um País onde a audiência do
Xou da Xuxa é maior do que a circulação diária total dos jornais". Infelizmente. E percebendo essa realidade, o jornalismo acabou tendo que se adaptar a ela, se transformando em "Showrnalismo".
Dissociação impossível
Há, porém, o outro lado da questão. Para o jornalista Lima de Amorim, que já trabalhou em veículos como Rádio Tupi,
Jornal do Brasil, O Globo, revista IstoÉ e TV
Globo, é impossível dissociar o jornalismo da indústria do entretenimento. Ambos estão caminhando de mãos dadas. Para ele, é impossível ao âncora de um telejornal deixar de se transformar em um
pop-star, coisa que muitos deles não gostam. Percebe-se mais uma vez a fusão do jornalismo e do
entretenimento (leia
a entrevista na íntegra)
Estamos vivendo essa cultura do "espreme que sai sangue", nos jornais, nas revistas, na internet, na TV. Exemplo claro disso é o homicídio monstruoso cometidos pelo cirurgião plástico Farah Jorge Farah contra sua paciente. Os jornais e revistas exploraram o esquartejamento o máximo que pôde. Publicaram fotos indevidas, imagens do corpo da vítima, enfim, sensacionalizaram o fato.
Esse excesso de imagens, a supervalorização das mesmas, acaba gerando uma sociedade doente, que passar a admirar essa espécie de lixo cultural. Cabe à nova geração de jornalistas, tentar reverter esse quadro duro de mudar. Ou pelo menos, não contribuir para que ele se prolifere. Basta que se lembrem que eles estão mexendo com vidas, com sonhos, com famílias, quando contam uma história.
No trabalho jornalístico, a ética deve estar acima de tudo, para que as histórias narradas sejam o mais próximo do real possível. Para que se mostre a verdade, não é preciso expô-la ao ridículo. O público não compra o ticket para a informação, mas sim para um parque de diversão. E a única atração
parece ser a Casa dos Horrores.
criação: lisandro staut |
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