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Nota deformativa

Alex Gonsalves

Jornalismo deve ser a arte de informar as pessoas com responsabilidade, credibilidade, clareza e qualidade de texto, de forma que além de captar informação o receptor sinta prazer no contato com a notícia.

O jornalista sabe disto, mas acaba se atrapalhando quando relaciona o necessário com o prazeroso. Deveria utilizar-se dos elementos atrativos para levar o receptor a uma melhor compreensão do que precisa saber. Mas o que faz é exatamente o inverso. Prioriza o prazer, e para isso usa qualquer informação que se encaixe no sistema, quase sempre a de menos relevância.

O que dizer dos ditos "noticiários das tardes" da TV, que se dividem em dois grupos: o de fofocas e o de sangue. A máscara faz realmente parecer que é noticiário, mas ao se irritar com o conteúdo ausente, o receptor desliga o televisor numa intensa sensação de perda de tempo.

Há os "noticiários jovens" das rádios, que inserem uma notícia ou outra num emaranhado de brincadeiras e "papos jovens". Por que ninguém avisa pra os companheiros que produzem estes programas que há muito se sabe que jovens não são cabeças ocas, por mais que as mídias esperem isso deles? Eles gostam de informação, mas ao invés disso só lhes desinformam e deformam.

Das revistas semanais, até mesmo as que se dizem sérias, basta olhar na diagramação das capas para perceber que os cérebros dessas revistas acham que as pessoas só gostam de fofoca e sexo, pois quase sempre é o que utilizam nas manchetes e fotos.

Na internet, quase não se consegue entrar num site de notícias sem se deparar com banners de publicidade de entretenimentos ou com aqueles que convidam para admirar as fotos de prostitutas, disfarçadas de arte.

A geração do século XXI precisa tomar cuidado para não se tornar na sociedade emburrecedora. Numa era em que não se consegue mais mensurar a quantidade de informações, não adianta ter informações e não utilizá-las. É como ter uma biblioteca cheia de livros e não ler, ter vários carros e não saber dirigir. Tudo isso só serve para se gabar da ignorância inerente.

Talvez o temor dos barões mídia seja que se a notícia for priorizada, as pessoas não se atraem. Isso é uma grande mentira. Na verdade, a dinâmica está como está por comodidade aliada a incompetência dos produtores de notícias. Acham muito mais fácil ficar no padrão instituído do que inovar, buscando alternativas para informar. Não querem realmente ser profissionais que informam, mas vendedores de deformações.

Suponhamos que o jornalismo desperte para sua função e passe a seguir o ideal, enquanto todos os programas que o cercam estão em dissonância com ele. Será fácil? É claro que não. Mas assim como qualquer vício mata se não for vencido, a desinformação é extremamente letal. E para vencê-la é preciso passar por uma crise, pois o organismo está habituado com a droga.

Cada um deve escolher se prefere continuar viciado e morrer adiante, ou enfrentar a crise para viver.

                                        

criação: lisandro staut