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Humor
para os desinformados
Vanessa Candia
Primeira página de O Pasquim, época da temida ditadura e sua abominável censura. Mas o que será aquilo no jornal? Bem, parecem historinhas em quadrinhos para crianças.
Olhando bem, dá para notar uma ironia ao governo militar. Vai ver cansaram de colocar receitas de bolos e resolveram inovar um pouco. Já estava na hora!
As charges sempre causaram impacto - e dúvidas - nas pessoas. Quando durante o golpe de 1964 começaram a ser utilizadas, muitos se perguntavam qual o motivo de um jornal de esquerdistas estampar "tirinhas" nas primeiras páginas dos impressos. Poucos desconfiavam que por trás de inocentes desenhos escondia-se uma dura e irônica crítica ao governo.
Mas essa "arte" vem de longa data. A Campainha e o Cujo, de Manuel Araújo é considerada a primeira charge do Brasil. Os responsáveis pela introdução da sátira em quadrinhos no País foram o ítalo-brasileiro Angelo Agostini e o português Raphael Bordallo Pinheiro.
No início, poucos eram os veículos que asseguravam um "lugarzinho que fosse" para charges. Com o passar do tempo isso foi mudando e elas foram crescendo e cada vez mais sendo aceitas e pedidas pelos seus leitores.
Na Folha, o espaço cedido é considerável, comparado com o Estadão
- ressaltando que a
Folha é um jornal de esquerda, é compreensível. Pois como disse Ziraldo, ícone do
cartoon, "todo cartunista é esquerdista. Nunca conheci um de direita". Assim tudo se explica!
O alvo principal desses "humorchargistas" é tudo o que se passa nos bastidores da política. Sempre atentos não perdem um deslize, pois justamente dali que surge quadrinhos "dos bons". As charges são o pesadelo dos políticos. Vez ou outra, mesmo depois de tanto tempo e da "liberdade" que dispõem, o tempo e a adormecida ditadura - cansada de não ter o que fazer - embarga algumas tirinhas. Afinal, a liberdade termina onde começa o interesse, ops, a liberdade do político, quer dizer, do outro!
O tempo foi passando e as charges foram criando força e ocupando cada vez mais espaço. Das colunas dos jornais, passaram a ocupar páginas inteiras. Invadiram a internet e chegaram a televisão, ocupando diariamente cerca de quarenta segundos no jornal de maior audiência do Brasil, o
Jornal Nacional. Quem diria?!
Inútil para a massa
Mas, além de ser utilizada como forma de criticar e satirizar o governo, que utilidade a charge tem para a população? Uma população composta, em sua maioria, de desinformados e isentos de qualquer senso crítico. É somente mais uma forma de distração para vender e atrair ibope. O povo como sempre, coitado comendo pão, enquanto o circo se apresenta.
Apesar de as charges terem seu lado positivo, é raro encontrar alguém na
massa que entenda o humor - que muitas vezes de engraçado não tem nada. São dirigidas a um público restrito, praticamente um grupo fechado. Charadas. E que o restante da população olha, acha legal, engraçado e pronto!
Mesmo fazendo de tudo para transformar as charges em algo para a massa, a
maioria delas não alcança seu objetivo. Pra que a massa compreenda esse humor, seus autores
teriam que torná-las ainda mais depreciativas, o que não é
recomendável. Ironizando muitas vezes de modo ofensivo o que era satirizado com uma "classe" admirável.
Não é nivelando por baixo que vão despertar algum senso crítico no povo. Este que inocentemente - ou ignorantemente se preferir - fica todo feliz ao ver as caricaturas dos políticos na TV ou nos jornais. Dá risada nem pela sátira, mas porque acha engraçado ver o presidente da
República transformado em desenho.
O mais engraçado para quem faz charges deve ser o momento que pessoas da massa lêem ou assistem e quase se matam de tanto rir. Aí depois um olha pro outro e
pergunta: "Você entendeu alguma coisa?"; "Não.";
"Ah! Nem eu!".
Para quem produz, uma prova de sua sensibilidade e inteligência. Para quem não entende,
frustração e vergonha. Parece que fazem isso para classificar um grupo. Como já foi dito,
assemelham-se a charadas que poucos e somente os "intelectuais" conseguem desvendar.
criação: lisandro staut |
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