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Desinformando, entretendo e alienando
Fabiana Amaral
A mistura entre jornalismo e entretenimento dá cabo a horas de discussão, com acalorados defensores de ambas as partes. Tudo por causa da linha divisória que alguns tentam traçar para definir o que é um e o que é outro, ou onde começa um e acaba o outro.
Mas antes de pensar em jornalismo propriamente dito, pelo menos no que tange à atualidade, é crucial analisar as conseqüências que os homens da farda trouxeram para o País em termos de alienação, no tempo de sua ditadura. Sim, porque discutir que hoje existe uma mistura e que não se sabe direito o que é informação ou pensar que parece existir uma descarga de entretenimento para fazer olvidar certas coisas é muito fácil. Difícil mesmo - talvez, mais complicado, seria o termo - é enxergar as raízes disto que vemos hoje.
Na mídia atual existe um debate constante sobre a qualidade do que é veiculado e várias teses saindo quentinhas dos bancos universitários sobre o que seria a informação verdadeira. Há alguns acadêmicos, inclusive, que alegam usar o Governo, de medidas pouco ortodoxas para controlar a população.
Quando se fala em termos mundiais não é tão difícil citar alguns exemplos, levando em conta as ditaduras de alguns países islâmicos ou a alta tecnologia empregada em países do primeiro mundo. Todavia, procurar esse controle num País que se diz laico e não dispõe de tanta tecnologia, como o Brasil, é mais excitante.
É interessante pensar nos negros - ou nem tão negros assim, conforme alguns - anos da ditadura militar brasileira. Os generais utilizavam métodos concordantes com o regime para burlar a imprensa e fazer com que ela veiculasse só o que fosse conivente. Usavam de instrumentos como o DIP, DOI-Codi ou a pura e simples tortura para calar a boca de inconvenientes.
Mas além destes meios mais oficiais, por assim dizer, existiam outros que davam mais resultados. Sim, pois o povo pensava que não existia nada de errado, que aquilo nem havia passado pelos olhos do poder. Essa ferramenta era o entretenimento, muitas vezes constituído de artistas de tevê, melhor falando, cantores (em grupos, preferencialmente) em programas badalados pelo povo.
Não é desconhecido que o povo endeusa seus artistas, vistos como elixir para sublimar as labutas diárias. Também é sabido que suas vozes e seus dizeres têm alcance muito maior do que o círculo que freqüentam ou acreditam dominar. É aí que, ao mesmo tempo que surge um benefício, vem junto um problema.
No período militar mesmo, os festivais de música, que se tornavam cada vez mais populares, faziam vociferar os ditos de pessoas em nada dentro dos padrões da nova ordem. Artistas como Geraldo Vandré, Chico Buarque e até os mais amenos como Tom Jobim e Vinícius de Moraes tomavam vulto levando a sociedade a uma reflexão do que acontecia nos porões militares.
Geraldo Vandré, com suas músicas que cutucavam a ditadura e as injustiças militares, como "Disparada", interpretada por Jair Rodrigues ou "Caminhando" ("Para não dizer que não falei de flores") são típicos exemplos de que o entretenimento musical precisaria ser podado. A primeira empatou em primeiro lugar com "A Banda" de Chico Buarque no Festival da TV Record de 1966 e a segunda conquistou o segundo lugar no festival da TV Globo, apesar de ser favorita do público, perdendo para "Sabiá" (Chico Buarque/Tom Jobim).
Alienação camuflada
O problema, no entanto, é que, consolidados e queridos pelo público, esses artistas não poderiam, como queriam os militares, simplesmente "desaparecer" da cena. Era necessário, então, uma estratégia mais sutil para que o povo não sentisse falta do "pão e circo" a que estava acostumado. E a proliferação da tevê contribuiu para essa necessidade.
Conversando com um senhor chamado Marcos Sant'Anna, falecido há três anos, consegui entender um pouco mais sobre o que pensavam aqueles que haviam vivido nesse período de tiros, música e boemia. Contemporâneo, apreciador e amigo de Vinícius e outros tantos da bossa nova, Marcos se indignava ao ouvir falar da Jovem Guarda que, segundo ele e seus amigos, eram fantoches dos militares para entreter o povo enquanto tiravam de cena aqueles que falavam demais.
Segundo Sant'Anna, para que o povo não sentisse falta dos músicos na tevê o Governo "facilitava" a ascensão e popularidade de outro gênero musical. Este não dizia coisa com coisa e alegrava o povo com o vazio iê-iê-iê. Era a maneira de "idiotizar" o povo, levando-o a venerar cantores que não traziam nada de perigoso ou reflexivo e enchiam a cabeça das pessoas com asneiras. Deu certo.
Se totalmente verídico ou exatamente como meu amigo conta, as coisas aconteceram, não posso afirmar, mas acredito na alta probabilidade. Com essa onda de descobertas e livros sobre o período militar, de repente daqui alguns anos teremos alguma obra que testifique isso. Por enquanto, cabe pensar no que existe hoje para entretenimento.
Esses programas imbecis das TVs abertas, esses artistas com suas "artes" - ou melhor, essas músicas que quase não têm classificação, além de lixo -, tudo isso, baseado no que conhecemos da recente história tupiniquim permite a dúvida. Dá vazão à pergunta: não será esse meio de entretenimento, sem informação pertinente, que se usa atualmente para a alienação? Do que "ditadura" nossa atenção precisa ser desviada?
Enquanto não se sabe a resposta vive-se alegremente, assistindo ao Jornal Nacional
e pulando ao som de pocotó.
criação: lisandro staut |
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