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No intervalo... jornalismo

Fabiana Amaral

É comum ouvir pessoas reclamando que a Veja está com muita publicidade, que o Jornal Nacional vive fazendo propaganda do Big Brother Brasil ou que os programas de rádio estão repletos de anunciantes. Todas essas reclamações se resumem no fato de que o receptor se cansa de ver publicidade no jornalismo, ou que isso não está sendo feito de forma sutil, que convença ao invés de cansar.

Para os que pensam ser isto um fenômeno atual e moderno, lamento informar que a coisa vem de longa data. A prática já era comum no início do império de Assis Chateaubriand. Chatô, inovando sempre, começou a investir pesado nos anúncios publicitários de seus jornais, passando depois para rádio e em seguida para TV, visando aumentar a receita dos veículos.

Tanto deu certo que, além de perdurar, logo foi acatada a fórmula por seus concorrentes. É provável que, a partir daí tenham começado as picuinhas entre jornalistas e publicitários. Já que os longos textos jornalísticos, praticamente sem qualquer ilustração, reinavam absolutos nos impressos. Agora, no entanto, o espaço visto por todos teria que ser divido com "artistas" dos comerciais e gênios da publicidade.

Braços do mesmo corpo

Essa rivalidade, se oficial ou não, desponta já nos bancos universitários. Neles, os jornalistas torcem o nariz para os publicitários e vice-versa. Tanto o publicitário como o jornalista acham seu trabalho mais importante do que o outro. Besteira!

Na verdade o que precisa entrar em cena é o bom senso, que há muito sumiu de circulação. O problema começa quando misturam jornalismo com publicidade sem critério algum ou fazem de veículos jornalísticos - que de jornalismo só tem a fachada - estandarte para propagandear. Um caso típico foram as propagandas do BBB no Jornal Nacional.

À época - até escrevi um artigo a respeito - os críticos caíram de banda em cima do JN, pois diziam que tinha se vendido ao puro e simples cunho apologético da grade global. Mas levantou-se o questionamento sobre a validade do que tinha sido feito, levando em conta que o reality show havia mudado alguns padrões da televisão e, conseqüentemente, da sociedade. Sendo assim era notícia, digna de nota, como outra. Com a facilidade, se tratando de exposição, de ser da mesma emissora (
leia o artigo).

Também vale ressaltar que as publicidades são a fonte mais rentável dos veículos de comunicação. Com a constante e crescente necessidade de lucros, é compreensível que o seu espaço nos veículos cresça. O que se vê, no entanto, é um certo desrespeito ao público que paga para obter informação e jornalismo e no lugar recebe coação publicitária para comprar determinados produtos. 

Não se pode, é claro, cair na ingenuidade de afirmar ser o jornalismo puro e isento dessas coações. Que não se faça a mesma coisa nos editoriais e outras matérias, bem como reportagens pagas.

Mas na publicidade é mais ostensivo e isso, de certa forma, diz para o leitor que estão tentando manipulá-lo. Fica evidente num comercial superproduzido, durante o telejornal, ou nos anúncios em papel finíssimo encartado na revista semanal, que um grupo de pessoas, bem pagas especialmente para aquilo, elaborou aquela mensagem para convencê-lo de alguma coisa. Só que você não ligou a TV ou comprou a revista para este propósito.

Por esse viés, chega a ser uma séria lesão ao consumidor, se partimos do princípio de que ele paga por algo e recebe outra coisa. 

Não obstante, vale ressaltar que esse mesmo ponto pode ser tido como benefício se considerarmos como um "serviço" oferecido pelo jornalismo. É como se a publicidade fosse mais uma informação de como obter tal produto ou serviço, sem que você tenha muito trabalho para descobrir aquilo. É um extra. Só que este extra tem um precinho considerável no final das contas.

Publicidade e jornalismo são dois membros que, queiram ou não, se complementam e interdependem. O que deveria ficar melhor explicado, sobretudo ao público, é onde estão os limites de um e de outro. A necessidade é de honestidade, requisito ausente em ambos.

                    

criação: lisandro staut