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Organizações Globo:
Um império na República
Victor Drummond
O livro História do Brasil, de Elza Nadai e Joana Neves, afirma que durante a regência de Dom Pedro, verificou-se a impossibilidade de Brasil e Portugal continuarem juntos. Portugal encontrava-se em uma situação caótica, cercado por compromissos econômicos com a Inglaterra por todos os lados. Já o Brasil encontrava-se em uma situação de euforia, provocada pelas novas medidas econômicas, como a abertura dos portos adotada pelo governo, instalado na colônia. Isso beneficiava a elite econômica que estava sedenta pela liberdade e, conseqüentemente, pelo controle do mercado interno.
A historiadora Emília Viotti da Costa escreveu em seu livro Da monarquia à República: "Assim, a 7 de setembro de 1822, quando a independência foi proclamada, seus autores, os representantes da elite social brasileira, haviam atingido o objetivo fundamental: libertar o país das restrições impostas pelo estatuto colonial, assegurar a liberdade de comércio e garantir a autonomia administrativa."
Por trás desse objetivo havia segundas intenções. O alvo da aristocracia brasileira era dominar e subjugar as demais classes com suas idéias e formas de trabalho. Esta ideologia foi herdada pelas elites dominantes posteriores.
Atualmente, a elite que controla os meios de comunicação está da mesma maneira buscando "assegurar a liberdade de comércio", para manipular a grande massa e buscar o controle do mercado. Essa elite se intitula Organizações Globo.
Em 1822, ocorreu uma pseudo-independência para o povo brasileiro. Ela veio somente para a elite, que quis se ver livre das relações coloniais com a metrópole (apesar de que a independência não significou a eliminação das relações colônia-metrópole). A grande população continuou dominada, como ainda o é pelos veículos de comunicação.
A organização do império brasileiro
Após a independência, ocorre a organização do Império Brasileiro. Estabelece-se o Primeiro Reinado. Vem em seguida o Período Regencial e a Primeira fase do Segundo Reinado, com o governo de Dom Pedro II.
Em 1824, é promulgada a Constituição que estabeleceu os poderes Legislativo, Executivo e Judiciário, controlados pelo poder moderador. Este último era dominado pelo imperador, a quem competia a escolha dos ministros, presidentes de províncias, senadores, membros do Conselho de Estado e juízes. O imperador também possuía o direito de indicar e demitir os ministros e de dissolver a câmara dos Deputados. Enfim, o controle total da situação estava em suas mãos.
É assim que acontece com as Organizações Globo, que também possuem um grande poder em mãos, capaz de ditar diversos comportamentos sociais e até políticos. Posso afirmar que elas são o nosso "imperador da mídia" (mais especificamente o empresário Roberto Marinho e seu clã).
Exemplo claro pode ser encontrado durante os anos da ditadura militar. As redes de televisão eram os meios mais controlados pelos militares; eles acreditaram que a TV era o veículo fundamental para a implantação de suas idéias.
O jornalista Flávio Prado, em seu livro Ponto Eletrônico, afirma que nesse processo da ditadura militar, as "televisões educativas" (as aspas são minhas) foram as principais beneficiadas e receberam grande volume de recursos governamentais.
Segundo Prado, em 1967, a Globo comprou a TV Paulista da família Vítor Costa, entrando no principal mercado comercial do País. Mas isso só foi possível graças a um acordo com a empresa norte-americana Time-Life, que facilitou o investimento em novos equipamentos importados dos Estados Unidos.
Essa associação não era permitida pela Constituição Brasileira, que proibia a participação de capital estrangeiro em empresas nacionais de comunicação. Mas o governo militar foi tolerante, pois tinha em troca forte apoio da emissora, que com essa injeção de recursos internacionais ia se transformando na voz mais forte do País. Com certeza, ela atingiu os seus objetivos, criando um poderoso império de mídia.
A consolidação da República
Voltando às páginas da história, sabemos que o Brasil passou por inúmeras transformações socioeconômicas, tais como a ruptura na ordem escravocrata e por componentes como a imigração e a industrialização. Elas levaram posteriormente à queda da monarquia.
Elza e Joana, autoras da obra já citada, defendem que a república era a única solução para os problemas do País. "A idéia republicana era a que mais correspondia às tradições políticas brasileiras, pois ela esteve presente desde as primeiras manifestações libertárias, ainda na fase colonial."
Surgem as propagandas republicanas, que eram veiculadas pela imprensa (note o papel de influência). Elas culminaram com o famoso 15 de novembro, quando os republicanos reuniram-se na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro e proclamaram a República.
A República brasileira conheceu etapas bem distintas, passando pela República Velha, Estado Novo, redemocratização do regime, ditadura militar e transição democrática, chamada de Nova República, até atingir os dias atuais. Mas que dias são esses se analisarmos pelo aspecto da mídia? A República foi proclamada, porém o regime imperial continuou pleno, por meio dos ditames da mídia global.
O deputado Flávio Koutzii, em sua obra Nova República, assim a define a situação política do Brasil: "É o que veio depois da ditadura militar (...) O povo retomou o seu hino, sua bandeira, sua vontade de sonhar. A televisão glamourizou tudo isso e repetiu sem cessar a boa nova, até convencer a quase todos que tudo ia dar certo."
Entra mais uma vez aí o papel social às avessas das Organizações Globo. Refiro-me aqui não apenas à TV Globo, como é de praxe pensar quando é citada a palavra "Globo". Falo aqui de todos os veículos de mídia desta organização: rádio, TV, mídia impressa, portal, editora, enfim. Sempre em busca da doce ilusão, do encobrimento da verdade, buscando favoritismo governamental para garantir suas receitas.
Depois do governo Sarney, quando vieram as eleições diretas para presidente, a grande imprensa - ou melhor, as Organizações Globo - fez campanha a favor de Collor, ou pelo menos, fez campanha contra Lula, apresentando-o como ignorante e despreparado. Collor foi apresentado como uma jovem liderança, não pertencente aos quadros da política partidária tradicional e, por isso, capaz de realizar a modernização do Brasil, colocando-o no Primeiro Mundo.
Ilusões como essas, só um veículo de grande influência pode incutir na mente do mass
media. Por isso afirmo que as Organizações Globo, em todas as suas vertentes, compõem um Império na República, impondo aquilo que o "Imperado acha" conveniente, como matérias jornalísticas superficiais, transformando assuntos sérios no "show do espetáculo" e produzindo programas que comprometem a estrutura familiar.
A democracia, uma das idéias primárias da República, fica comprometida. Onde está a liberdade tão defendida na independência brasileira se a mente das pessoas é manipulada e a informação maquilada?
O jornalista Argemiro Ferreira, no artigo "As redes de TV e os senhores da aldeia global", publicado no livro
Rede Imaginária, embasa a minha idéia ao dissertar que "apesar de todas as queixas acumuladas contra o modelo atual da televisão brasileira como um todo e a Rede Globo de Televisão em particular, existe pouca consciência para o fato de que o fenômeno, mesmo sendo brasileiro, não contraria, mas apenas confirma, uma tendência internacional".
Ele continua dizendo que o Brasil precisa abrir os olhos para o problema; caso contrário, corre o risco de "ao invés de realizar o sonho da democratização no campo da informação e da comunicação, ver o modelo ser levado ao extremo, caindo no pesadelo do controle da mídia por grandes corporações transnacionais". Vê-se aí o Império Global na em plena República Federativa Brasileira.
Em seu estudo, Argemiro apresenta uma organização dos Estados Unidos dedicada à crítica da mídia (Project Censored), que elege todos os anos as dez histórias mais censuradas pelos meios de comunicação. O resultado de 1989, que foi divulgado há pouco tempo, mostra que o assunto mais censurado pela mídia diz respeito a ela própria: o controle crescente dos meios de comunicação de massa por um número cada vez menor de corporações gigantescas, como é o caso das Organizações Globo.
Mas o que o Império tem de bom?
Não posso negar que por ser um império tão poderoso, que sobrepuja inclusive as próprias rédeas da República, sua influência também pode ser usada para o bem. O presidente do Instituto Ethos de Responsabilidade Social, Oded Grajew, discutiu, durante o evento Maximidia 2002, o papel do Governo, da Mídia e da Sociedade.
Segundo ele, a mídia tem um poder extraordinário de mudar a realidade. "Na primeira vez que encontrei Roberto Marinho, disse a ele que no dia que as Organizações Globo decidissem que todas as crianças brasileiras deveriam estudar em uma escola de qualidade, isso iria acontecer", afirmou Grajew.
Estão vendo como o imperador pode ser bonzinho? É só querer. Seu poder de influência para o bem é incalculável. Para Grajew, diferentemente do tradicional discurso de isenção, feito pelas empresas jornalísticas, o que se deve defender é um jornalismo comprometido com o bem-estar social.
A jornalista Maria da Pensa Vieira, no artigo "Quanto custa dar a cara ao tapa?", do site
Domínio Feminino, ajuda o leitor a ver o lado bom das Organizações Globo. "Em que pese o lado oligárquico e nocivo do Império Globo, assim como acontece em todo grande conglomerado empresarial, há que se reconhecer na figura do empresário Roberto Marinho, um homem de muita audácia, persistência, competência e visão empresarial. E por que não um homem com direito a sonhos?"
Ela acrescenta ainda que "nossa televisão apresenta níveis de qualidades técnicas superiores às maiores e melhores redes de TV do mundo inteiro, bem como altíssimo profissionalismo. A crítica é importante para a seleção, mas não é construtiva pelo destruir".
O Jornal da Globo, por exemplo, ancorado por Ana Paula Padrão, não deixa Maria Vieira mentir. Um telejornal não apenas de informação, mas de análise e interpretação dos acontecimentos (se bem que a jornalista diga que evita emitir sua opinião para não subestimar a do telespectador). Muitos do meio acadêmico na área de comunicação afirmam que é o melhor telejornal que há hoje no Brasil. Realmente, Ana Paula é um padrão de profissional.
Apesar de todos os pesares - afinal, quem não tem defeitos? - o Império na República não está no poder apenas para comprometer a democratização da mídia no Brasil. Ela também possui algum compromisso com a verdade. Mesmo que seja na hora em que seus súditos já estejam em sono profundo. Afinal, eles precisam acordar bem cedo para fazer tudo o que o imperador global mandar.
criação: lisandro staut |
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