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Império roto

Fabiana Siqueira

"Quem se torna senhor de uma cidade habituada a viver livre, e não a destrói, pode estar certo de que por ela será destruído. Os seus habitantes encontram sempre, como incentivo à revolta, a idéia da liberdade e das antigas instituições, instituições que nunca se esquecem nem com o perpassar do tempo, nem com os benefícios acaso trazidos pelo conquistador. Por mais esforços que este empregue, se não lograr desunir ou dispersar os seus novos súditos, não lhes extirpará da memória aquela idéia, à qual se hão de socorrer em qualquer oportunidade."

Este trecho do livro O Príncipe, de Nicolau Maquiavel, talvez esteja emoldurado na cabeceira da cama de Roberto Marinho. Aliás, por meio da dominação massiva e escancarada, o que as Organizações Globo têm feito de melhor é seguir à risca este conselho maquiavélico.

Mas será que a crise financeira que abate a GloboCabo pode comprometer a organização como um todo? Em 2001, a dívida era de um bilhão e 600 mil, com uma rolagem de 500 milhões por ano. O sistema GloboCabo tem capacidade para seis milhões de assinantes, porém, registra apenas um milhão e 500 mil pagantes. Já em 2002, o prejuízo ultrapassou os 600 milhões de reais.

Isto não é problema para a "todo-poderosa", já que o buraco negro parece não atormentá-la. Mesmo com todos estes problemas, as Organizações Globo continuam destilando arrogância e onipotência. Nas palavras do próprio dono:

"Hoje podemos falar das Organizações Globo com o orgulho de vê-las inclusas entre as maiores do mundo no campo da comunicação de massa. O jornal O Globo é o maior do país; a Rádio Globo transformou-se no Sistema Globo de Rádio enquanto a TV Globo do Rio de Janeiro foi o primeiro passo para que se formasse a Rede Globo de Televisão, hoje cobrindo todo o território brasileiro com o melhor padrão de produção."

O Grupo Globo montou seu império sobre a ruína de outras instituições, por meio de mentiras e abusos. Antes da ditadura militar, as Organizações Globo se resumiam a um jornal, duas emissoras de rádio e uma tímida emissora de TV no Rio de Janeiro. Durante o regime militar, sua expansão foi meteórica. O sórdido governo militar precisava de um veículo para credibilizar suas ações. Lá estava a Globo/Time Life. Acordos feitos, concessões liberadas.

Por ora, a Rede Globo pode se considerar salva. Afinal, liderou o mais poderoso lobby na Câmara Federal para a aprovação da lei que permite capital estrangeiro nos veículos de comunicação. Conseguida esta vitória, pode ficar tranqüila por algum tempo. Mas não muito, por isso ainda estão tentando vender a GloboCabo.

Embora as Organizações Globo tenham seus méritos na comunicação brasileira, o ditado "os fins justificam os meios" não funciona quando se trata de uma sociedade. O grupo manipula, dirige e constrói a história da forma que lhe aprouver. Mas se esquece de que dinheiro é passageiro como qualquer valor distorcido.

                                        

criação: lisandro staut