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Um olhar de peso

Fabiana Siqueira

Conjurados a uma sociedade pobre de opinião, os cidadãos brasileiros perderam (ou será que nem mesmo adquiriram?) o hábito de julgar com criticidade. Logo, a própria mídia criou o seu expurgo, o quartinho da roupa suja, o esgoto, ou qualquer nome preferido pelo leitor. Ali, comenta-se o que nem de longe é possível falar nas redações comuns, sem medo do que possa acontecer na próxima segunda-feira. Afinal, quem está neste reduto é pago justamente para isso.

A importância destes meios de comunicação - uma espécie de ombudsman ou media criticism, há controvérsias - reside exatamente na questão do outro lado da moeda. A mídia, por si só, é bastante parcial e limitada ao patronato, precisa de alguém que mostre o lado oculto das questões sociais mais e menos polêmicas. Assim, menos velados, tornam-se os olhos do público que, vez ou outra, passa da platéia para o palco.

O Observatório da Imprensa talvez seja o mais conhecido detetive da mídia. Com uma linguagem carregada de ironia inteligente, os jornalistas e articulistas do Observatório bombardeiam sem temor os meios de comunicação da vitrine nacional, sem ressentimentos. Não há quem não tema a próxima edição, principalmente aqueles que têm o "rabo preso".

Mas há outros meios também que embora não sejam tão visíveis, têm o seu público e desempenham um papel fundamental na crítica á mídia. A revista Caros Amigos, principalmente em sua versão eletrônica é um deles. Considerada uma revista de esquerda, a Caros Amigos não costuma poupar a imagem de figurões midiáticos, como reza o terço da resignação entre os meios. Até porque esquerda e direita são bastante relativas nesta sociedade de convicções maleáveis.

Já a revista Imprensa possui linguagem mais acessível, adaptável a diversos públicos e de crítica mais tênue. Dá espaço à interpretação do leitor, ao passo que formula hipóteses sobre determinados acontecimentos da imprensa. Já foi bastante criticada pela própria mídia por não ter tanta preocupação com a linguagem, tanto estética quanto ortograficamente. Possui, porém, valor inestimável, no que diz respeito ao olhar de peso sobre os meios de comunicação.

Nesta linha, surgiu o Canal da Imprensa, com uma proposta totalmente revolucionária. O Canal forma os formadores de opinião. Incita a criticidade desde o intra-uterino da profissão. Não busca a imparcialidade, considerada utópica, mas visa apresentar discursos pluralistas, a fim de que o leitor possa ter sua própria opinião. Trabalha exclusivamente com aqueles que serão profissionais da comunicação, a dirigir ou atuar nos meios. A cada edição, o Canal busca desenvolver amplamente a capacidade crítica dos alunos que o produzem, gerando também a possibilidade de pensamento para o leitor que interage, participa e pode, inclusive, discordar ou apenas comentar.

Há uma espécie de religião oriental que acredita na tartaruga como observadora das práticas humanas. Todos os seus seguidores possuem pequenas tartarugas de pedra espalhadas pelos ambientes da casa e do local de trabalho, com os olhos voltados para onde as pessoas possam ver. Assim deveriam ser consideradas as mídias ombudsman. Não corujas, mas tartarugas.

                                        

criação: lisandro staut