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Retratos da imprensa

Fernando Torres

O trabalho realizado pela revista Canal da Imprensa durante este primeiro ano de existência assemelha-se mais a um trabalho cinematográfico do que fotográfico. O periódico não se preocupou apenas em exibir uma cena estática e maquiada, típica das fotografias. Ao contrário, procurou contar a história do retrato, explicar o porquê daquela pose, explorar vários ângulos dos fatos. Tampouco se importou se o retratado era ou não fotogênico. Interessou-se em delinear rugas e expressões carrancudas, mas também covinhas e colos bem torneados.

No entanto, a película apresentada a cada edição não permaneceu imóvel. Em alguns aspectos, ela evoluiu; noutros, retrocedeu. Nalguns casos, surpreendeu.

Chegou a hora do retrato. Os tópicos abaixo buscam mostrar no que se transformaram os temas debatidos pelo Canal no decorrer deste ano. Alguns se retratam por si só, como a morte de Roberto Marinho, dono das Organizações Globo, ou o retorno da censura. Outros, porém, exigem mais perspicácia do fotógrafo, um toque de introspecção, como o resgate da feminilidade e o desprezo ao lead.

Vale ressaltar que as imagens abaixo são estáticas, mas sem efeito de computador. São naturalmente subjetivas, frutos do olhar do retratista. Confira. (Clique nos títulos para visitar as respectivas edições.)

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:: Imprensa sob censura

A primeira edição do Canal alertou os leitores quanto à volta da censura. Chegou a apontar alguns casos recentes, bem como a tendência encontrada pelos censores: a censura prévia. Foram três os casos denunciados, em mídias diferentes. A primeira vítima foi o jornal Correio Braziliense, em 24 de outubro de 2002, sob a ordem do governador do Distrito Federal, Joaquim Roriz, então candidato à reeleição. Depois veio a revista Você S/A, da Editora Abril, censurada em fevereiro de 2003 por não submeter determinada matéria (sobre a indústria da recolocação profissional) a uma das firmas interessadas. Por fim, em julho, a Comissão de Direitos Humanos da ONU suspendeu a organização não-governamental Repórteres Sem Fronteiras - com voto brasileiro, aliás. Isso ocorreu devido aos protestos da ONG contra a inclusão de Cuba e da Líbia na Comissão.

Saudades da ditadura? Na verdade, não. A imprensa brasileira sempre esteve sob censura, a começar do período colonial, quando até os livros eram proibidos. Tal atitude prejudica não apenas a população, que se vê privada do acesso à informação, mas todo o País, que já colhe os maus frutos de não possuir uma cultura tipográfica. O Brasil caminha para uma era democrática, mas com denúncias assim, tem-se a impressão de retrocesso. Sem liberdade de imprensa não há real democracia.
(Brasil 500 anos... de censura - 21/8/02)

:: Mídia democrática

Mesma com o retorno da censura, pode-se afirmar que nenhuma cobertura presidencial no Brasil foi tão democrática quanto a de 2002 (leia-se versões diferentes sobre o mesmo fato). O Canal pôde checar isso em duas edições. Todavia, percebeu que enquanto a mídia crescia, o eleitor continuava estacionado. A prova de tal raciocínio é que venceu o candidato que mais entreteve o povo.

Empossado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem recebido tratamento coerente da imprensa. É cobrado, mas também elogiado. Tome-se como exemplo o jornal O Estado de S. Paulo e a revista Veja. A ideologia conservadora de ambos não impediu os aplausos para as decisões do presidente quanto à reforma da Previdência e sua passagem por Davos. A cobertura, porém, vem envolta em críticas condizentes ao perfil ideológico dos veículos. Ressalte-se, democracia na mídia não significa ser ideologicamente de esquerda. Basta dar espaço a discursos divergentes na mesma edição.
(Mídia e política - Amor e ódio entre dois poderes - 4/9/02; Urna dos artistas - 30/10/02) 

:: Pauta para o cafezinho

A tão comentada reportagem de capa da revista Contigo! (15/7/03) sobre a "morte" de Silvio Santos é o exemplo mais recente de sensacionalismo. Dessa vez, a culpa não foi da imprensa. Por incrível que pareça, o periódico seguiu as regras do bom jornalismo, transcrevendo o tom de voz do empresário, consultando as pessoas citadas na entrevista e dando a entender que tudo não passava de uma brincadeira. O pecado deve-se a Sílvio Santos, que procurou fazer uso do jornalismo (ainda que não tão sério assim) um marketing pessoal, e ao destaque dado pela televisão à matéria da Contigo!. Deu no que deu. Um "inocente" gracejo tornou-se assunto para a hora do cafezinho de milhares de brasileiros.
(Sensacionalismo - O grande pecado da imprensa - 18/9/02)

:: Novos padrões textuais

Parece que o lead realmente definha. A revista Época, acusada de cultivar um texto meramente informativo, desloca-se a cada edição para a interpretação, abandonando a pirâmide invertida. O Jornal do Brasil substituiu as aspas por travessões para a fala de seus entrevistados, no melhor estilo literário. Até mesmo os telejornais começam a sair do padrão e investem em um texto mais descontraído. A tendência exigirá cada vez mais do jornalista, que será obrigado a fazer matéria de revista no ritmo de jornal.
(
Era pós-lead - É tempo de inovar - 2/10/03)

:: Nem só a prática forma profissionais

Por trás do embate entre teoria e prática, escondia-se a polêmica da obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo. Só em 23 de julho de 2003 a novela criada pela liminar da juíza Carla Rister chegou ao fim. As academias voltaram a fazer parte dos planos dos aspirantes a jornalista. A volta da imposição é benéfica, tanto pelo ponto de vista do mercado, como pela ótica conceitual. O jornalista de hoje não pode ter apenas a formação prática cultivada no passado. Norteiam-se por esta linha de pensamento a maioria dos estudantes de Jornalismo do Unasp. Como um todo, passamos a compreender que, sim, a bagagem teórica, histórica e filosófica faz parte dos pré-requisitos do jornalista do século XXI. De fato, nem só a prática forma profissionais.
(
Só a prática forma profissionais - 16/10/02)

:: O quinto poder

Que a mídia era o quarto poder, todos já sabiam. Novidade foi o lançamento do quinto poder, instaurado com o lançamento do livro Por Que Estudar a Mídia?, no início de fevereiro. O autor, Roger Silverstone, é professor titular da cadeira de Mídia e Comunicações da Escola de Economia de Londres. Segundo ele, os meios de comunicação se tornaram tão poderosos e influentes, que a população precisa obrigatoriamente entender seu funcionamento. Dessa forma, surgiria o quinto poder, responsável por vigiar o quarto. Proposta interessante e de grandes chances de vingar na Inglaterra. Mas no Brasil?...
(
Comunicação e poder - 13/11/02)

:: Invasão de privacidade

É notável a proliferação - e o sucesso - de programas de TV preocupados com a vida alheia. Eles dividem-se em dois segmentos. Há aqueles preocupados apenas com o respirar das celebridades, como A Casa é Sua e TV Fama (Rede TV!) ou Falando Francamente (SBT) e Vídeo Show (Globo). Com o mesmo princípio, mas noutra direção, catalogam-se os policiais Cidade Alerta, Brasil Urgente e Linha Direta, mais preocupados com o dia-a-dia dos anônimos. Nesse um ano de Canal, os programas exploraram o caso Suzane von Richthofen, o término do seqüestro de Pedrinho, o esquartejamento cometido pelo cirurgião Farah Jorge Farah e o atentado do casal de cantores Alexandre e Sara Maria Alvarenga contra os próprios filhos. Em todos esses casos, os telejornais invadiram descarada e grosseiramente a intimidade dos envolvidos. Pelo visto, continuará por muito tempo a discussão entre o que é privativo e o que é público. O Canal já deu a resposta.
(
Liberdade Vigiada - Vampiros de plantão - 27/11/02)

:: De volta às Cruzadas

Expandem-se as mídias religiosas no Brasil. Destaque para a Igreja Católica que, além de criar novas emissoras de TV em ritmo diário, estreará em outubro o filme Maria, A Mãe do Filho de Deus, com Giovanna Antonelli e o padre Marcelo Rossi. Evangélicos não ficam atrás. CDs de música gospel, igrejas eletrônicas, literatura distribuída em livrarias seculares e campanhas políticas fazem parte da aposta desse segmento religioso. A mídia secular, por sua vez, também dá voz a temas de cunho religioso, porém com muito preconceito. Como foi abordado nessa edição pelo Canal, as revistas Superinteressante e Galileu são campeãs nesse quesito. Suas edições são recheadas de questionamentos religiosos, como o criacionismo e a veracidade bíblica. Seguem-se a elas as semanais de informação e as telenovelas que sempre reservam um espaço para falar sobre as "curiosidades da fé" e delinear personagens estereotipadas. Em vez de trazer benefícios, a guerra santa complica ainda mais o cenário religioso brasileiro.

Dentro desse contexto, Allan Novaes, articulista desta revista, em parceria com o editor da revista Eclésia, Carlos Fernandes, produziu artigo falando sobre como a mídia discrimina os religiosos, em especial os evangélicos. O texto foi publicado na edição de julho da Eclésia. O Canal promete veicular este artigo em futura edição, quando voltará a falar sobre a comunicação religiosa. Enquanto isso, aproveite para reler as edições anteriores.
(
Mídia e religião - Proselitismo disfarçado - 11/12/02)

:: De feministas a femininas

Pouco ou nada se alterou no espaço conquistado pelo sexo feminino no jornalismo brasileiro. Contudo, série de reportagens do Jornal da Globo (28/7 a 1.º/8) revelou que a mulher não sabe o que fazer com a liberdade conquistada na década de 80. Do estereótipo feminista (leia-se "machona"), ela desloca-se para a feminilidade, um resgate das qualidades indissociáveis que a natureza lhe concedeu. Não se entenda tal fenômeno como um retrocesso. As mulheres apenas perceberam que podem ser felizes sem descer do salto.
(
A imprensa de salto alto - 6/3/03)

:: Olhar tardio

Até que se prove o contrário, a imprensa brasileira cobriu relativamente bem a Guerra do Iraque. Discursos pluralistas quanto aos motivos do conflito mostraram-se presentes em quase todas as mídias e ficou evidente que o embate decorria de forma sangrenta, e não cirúrgica, como os Estados Unidos alardeavam. Até mesmo o crítico contumaz José Arbex Jr., em artigo para a revista Caros Amigos, admitiu que a capacidade de manipulação da mídia foi bem menor do que se esperava. Destaque para a cobertura da Folha de S. Paulo, correspondente única do Brasil no Iraque, representada pelo repórter Sérgio Dávila e o fotógrafo Juca Varella. (As reportagens deram origem ao livro Diário de Bagdá, recém-lançado pela Cia. das Letras - R$ 59.)

A imprensa pecou, porém, na cobertura do pós-guerra. Poucos dias após a queda do regime de Saddam Hussein, o Iraque saiu das manchetes. Só voltou há poucas semanas, quando o presidente George Bush confessou ter mentido quanto à existência de armas químicas e ao verificar-se que o conflito ainda não havia terminado de fato. Olhar tardio demais para ser ignorado.
(
Imprensa - Artilharia onipresente - 20/3/03)

:: Escândalo em aramaico

Jesus Cristo parece ter saído dos holofotes da mídia por uns tempos. Mas logo ele estará de volta. Desta vez, o escândalo fica por conta da película A Paixão, dirigida por Mel Gibson e estrelada por Jim Caviezel. As cenas estão sendo filmadas em latim e aramaico e exploram detalhes da crucifixão. O filme inclui passagens "apócrifas", como a da construção da cruz dentro de uma sinagoga. É polêmica na certa, desta vez em aramaico.
(
O escândalo da cruz - 17/4/03)

:: Manipulação até na morte

Não se cometerá aqui o clichê de reconstruir nostalgicamente a biografia de Roberto Marinho, nem de listar as personagens ilustres (e curiosamente controversas) que compareceram ao seu velório e enterro. Mais interessante que tudo isso, é notar que até em sua morte Roberto Marinho desviou as atenções de assuntos que realmente interessam ao País. Na mesma noite em que o dono das Organizações Globo padecia, a Câmara dos Deputados votava a reforma da Previdência. Todavia, o processo foi ofuscado com a morte do dono das Organizações Globo. Inclui-se aí a vitória dos juízes, que conseguiram limitar o salário dos magistrados estaduais. Nada contra o senhor Roberto Marinho, homem empreendedor, mecenas e revolucionário do mundo da comunicação, vale ressaltar. Mas depois de tudo o que foi dito a seu respeito nas últimas semanas, só falta a barba para confundi-lo com Papai Noel.
(
Organizações Globo: Um império na República - 1.º/5/03)

:: Pioneirismo do futuro

Apontada como uma das tendências da comunicação pelo Canal, a tevê online tomou corpo no Brasil com o canal All TV. No ar desde maio de 2002, a emissora tornou-se mais conhecida apenas em junho deste ano, quando a filha de Silvio Santos, Sílvia Abravanel, passou a apresentar o programa Sobretudo. Quem procura observar, conclui que All TV ainda engatinha, tanto em programação, quanto em qualidade. Mas é a pioneira da comunicação do futuro.
(
Admirável comunicação do mundo novo - 15/5/03)

:: Chega!

O jornalismo tem novo mártir. E ele não é necessariamente filhote da investigação. O fotógrafo da revista Época, Antonio da Costa (conhecido como La Costa), foi assassinado por um integrante do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto durante ocupação do grupo em terreno da Volkswagen, em São Bernardo do Campo. Ao contrário de Tim Lopes, estrela da edição do Canal, La Costa não cultivava complexo de Clark Kent; apenas cumpria seu trabalho. Coerente a chamada de capa de Época de 28/7/03 ("Chega!"). A violência contra os jornalistas realmente se tornou insustentável.
(
Mártires do jornalismo investigativo - 29/5/03)

:: Na medida certa

A massa é desatenta. Por isso, muitas vezes, a melhor opção do comunicador é informar como se estivesse entretendo. O problema é quando se carrega na dose. A fusão sadia entre jornalismo e entretenimento compreende o uso de técnicas de esfriamento da mensagem, a fim de que ela seja melhor compreendida pelo receptor. Abundam, porém, veículos que fazem exatamente o contrário: mexem no conteúdo. Só no mês de julho, foram criadas duas revistas deste nicho: Flash, da Editora Escala, e Revista da FM O Dia, do Grupo O Dia. São apenas dois filhotes da imensa família do entretenimento. Banal, para piorar.
(
O show da informação - 12/6/03)

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Os retratos acima exibidos não pretendem colocar um ponto final nas histórias contadas pelo Canal. Pelo contrário. Ao focar apenas um momento, o atual, as imagens abrem espaço para o desenrolar dos fatos. O desfecho do filme, porém, estaremos acompanhando juntos, quinzena após quinzena. Na verdade, o trabalho feito por este periódico no decorrer deste ano não passou do trailler. O melhor está por vir.

                                        

criação: lisandro staut