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Sem falsa modéstia

Allan Novaes

Se há um dia em que o jornalista está com os nervos à flor da pele, esse é o dia do fechamento. A ocorrência precisa desse momento é indispensável para que o jornal ou a revista sejam publicadas (ou entrem online, no caso do Canal da Imprensa). Por ocasião do fechamento, é muito mais fácil conhecer de verdade com quem se trabalha: os temperamentos evidenciam-se sob intensa pressão.

Também é nessa hora que os valores se manifestam: o sucesso do planejamento editorial, o orgulho de um texto bem escrito e o prazer de um design atraente e bem escolhido. Tudo isso, obviamente, ocorre em poucas horas - o clímax ocorre no período noturno, sendo os minutos próximos à meia-noite os mais expectantes. Esse quadro, vívido e intenso, repete-se semana sim, semana não no Canal.

Após o fechamento, é hora de receber as reações dos leitores. Saber desfrutar os elogios sem falsa modéstia e também engolir os (gordos) batráquios das críticas. Das memoráveis cartas que o Canal recebeu, algumas dão orgulho de ler, como os incentivos de jornalistas do jornal O Estado do Paraná e de professores que utilizam os artigos para fomentar discussões em sala-de-aula. Outras, não são tão prazerosas: as críticas duras, mas precisas da editora do Observatório da Imprensa

Ainda há outras que escapam a classificação simplória de elogios e críticas por sua peculiaridade. Entre essas, destaca-se a mensagem de "gratidão" de Inri Cristo a um dos articulistas e declarações com teor de indignação contra um artigo que afirmava ser o caderno de Cultura o lugar mais adequado para as mulheres com alguma pretensão ao jornalismo.

Mas por que os universitários que compõem a equipe do Canal se submetem a essa pressão quinzenal e antecipam a cruel realidade do ofício? Por que dar a cara à tapa sem qualquer remuneração monetária? Cumprimento de matéria? Talvez sim. Horas de estágio? Também. Anseio por desenvolvimento e experiência? Provavelmente.

Mas, para aqueles que mergulham de cabeça no mundo da análise midiática, o principal motivo para essa empreitada é a certeza de colaborar para a reflexão da práxis jornalística em todo o País. Criticando o papel dos jornalistas na sociedade, o Canal forma profissionais com a mais aguda percepção da realidade midiática nacional. E dá um pontapé no mau exemplo de universidades que não oferecem aos estudantes um espaço livre para o debate de idéias.

Com o Canal, há uma resposta fácil e rápida para a pergunta: "Se o jornalismo vigia o poder constituído, quem vigia aqueles que vigiam?"

Nem os universitários que escreverem e pesquisaram, tampouco os leitores. Já pedindo escusas pela falta de decoro normalmente usadas nos discursos e artigos de edições de aniversário, quem ganhou com a consolidação do Canal foi o jornalismo de todo o Brasil. Sem falsa modéstia.

                    

criação: lisandro staut