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Pago para criticar
Fabiana Amaral
É engraçado pensar em alguém muito importante num jornal. Ainda mais quando nem
jornalista, em alguns casos, é. E não se trata de cargo financeiro ou administrativo.
É alguém pago para criticar, construtivamente ou não, o próprio chefe, ou melhor, o que ele faz. Essa é mais ou menos a função de um
ombudsman.
A despeito de ser desconhecido da maioria, o que acaba denotando certa irrelevância, esse sujeito já tem algum tempo de vida. Muito tempo, aliás. Nasceu na Suécia, no início do século XIX, como uma espécie de reivindicação pública contra o Estado. Depois disso começou a ser adotado pelas empresas privadas, que viam a possibilidade de adotar o modelo de representante, tradução mais fidedigna do termo, para se aproximar dos clientes e ganhar credibilidade.
Ombudsman na imprensa, como conhecemos hoje, surgiu nos Estados Unidos na década de 1960, quando começou a representar dentro do jornal a opinião do leitor, além de fazer sua própria crítica interna. Mas no Brasil, como a maioria das coisas, essa novidade chegou depois da maioridade, em 1989, no jornal
Folha de S. Paulo. Fato inédito para o jornalismo latino-americano. Mas a intenção começou um pouco antes, em 1986. No site do periódico, é explicado o motivo: "o sucesso das experiências do diário espanhol
El País e do norte-americano Washington Post.
Todavia, não era o caso de apenas criar um cargo a mais, do contrário soaria como mais uma editoria e o
ombudsman, para dar certo, na essência em que foi concebido, não poderia ser mais um funcionário do jornal.
Pensando em dar maior credibilidade e "poderes" ao ouvidor, foram criadas algumas regras trabalhistas. Uma delas é que, no exercício da função, o
ombudsman não poderia sofrer retaliações, nem tão pouco ser mandado embora. E seu mandato, normalmente de um ano, poderia ser renovado. Isso sem falar nas organizações sindicais e todos esses aparatos burocráticos dos quais poderiam requerer.
A importância do ombudsman chega a retratar de maneira simplificada uma
mudança na relação do leitor com o jornal. Ao contrário do que aconteceu com a religião, quando a reforma aboliu a figura do mediador entre a humanidade e Deus - o que fez com que as pessoas ficassem mais "displicentes" com a instituição religiosa -, foi o surgimento dessa figura que causou tal efeito. Não que os leitores fossem mais acanhados, nunca foram, mas ganharam alguém que, na teoria, fosse representá-los perante os deuses jornalísticos.
Não se pode ingenuamente pensar que essa figura é escolhida somente "pela capacidade". O fato ter garantido seu emprego e ter "liberdade" para apontar as falhas do jornal faz com que essa figura seja antes de tudo um bom e pudente agregado.
No entanto, nem só de desconfiança e reclamações vive o ouvidor. Seu surgimento na imprensa representa muito mais do que a vontade de ouvir críticas e o público. A importância do
ombudsman também é mostrar que alguns padrões mudaram. Queiram ou não, ele representa uma empresa jornalística, que não pode mais sobreviver de suas próprias opiniões. Mas que essas têm, em alguns momentos, que ser adequada aos olhos dos que a consomem. É uma forma de manter pelo menos um dos pés no chão.
Um dos vieses do ombudsman, então, é o de avaliar internamente ou generalizadamente a comunicação, em benefício da informação popular. Por essa ótica, o Canal da Imprensa se faz um
ombudsman na ampla concepção da palavra, que é mostrar ao leitor aquilo que poucos souberam, mas se faz necessário conhecer. É dar uma olhadela crítica no que a mídia despeja na sociedade, oferecendo vários ângulos de abordagem para quem não tem pretensão de se alienar ignorantemente.
E cá para nós, partidarismos e politicagem à parte, a função do ombudsman chega a ser desejo de muitos jornalistas. Afinal, quem é que não gostaria de ser pago para criticar o chefe? Com salário fixo e sem ser demitido?
criação: lisandro staut
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