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A maldição do paraíso virtual
Fabiana Siqueira
Não é pequena a relação entre mídia e religião. E esta afirmação não se baseia apenas na existência da emissora de TV da Igreja Universal, nem na presença em massa da Igreja Católica na internet ou na Rede Globo, nem das rádios de gênero gospel, nem do controle que os judeus exercem em muitos grupos de comunicação multinacionais. O problema tem dimensões maiores e sua extinção se faz tão necessária quanto a separação entre Igreja e Estado no passado.
O produto da comunicação está carregado da filosofia de vida do patronato, de religião relativista e do ópio condenado por Marx. Um padre cantando faz apresentadores chorarem, um pastor aos gritos realiza curas misteriosas, uma novela de grande audiência aborda temas religiosos sem critério algum. Aplicado à comunicação, o célebre dito "todos os caminhos levam a Deus" institui paulatinamente a religião como entretenimento ou dominação outra vez.
Levando em consideração a atual conjuntura social, é natural que as pessoas se voltem para alguma forma de religião como válvula de escape. É praticamente impossível entender apenas à luz da psicologia e sociologia, os fenômenos da violência social e do caos cotidiano. Logo, buscar no transcendente um alívio ou uma explicação é até mesmo óbvio. Mas aproveitar-se da fragilidade instaurada pela dúvida para exercer controle social ou preencher bancos vazios é crueldade.
Como a tecnologia evoluiu também na comunicação, o paraíso agora é virtual. A banalização de crenças como a existência do Jardim do Éden ou de céu e inferno abre espaço para o relativismo, e o pragmatismo pós-moderno cria um oásis de alívio imediato. A religião veiculada pela mídia ou ridiculariza conceitos ou promete paz e prosperidade instantâneas.
Deveria haver critérios para a inserção de assuntos religiosos na mídia. Com o poder que exerce, a comunicação deveria ser mais cuidadosa com o que veicula, já que certamente sua influência leva a ações que, na maioria das vezes, não são boas. Mas o objetivo é este mesmo. Sem um divórcio, litigioso, mídia e religião continuarão na vitrine. Uma bênção para quem passa as salvas.
criação: lisandro staut |
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