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Entre a cruz e o controle remoto
Elmer Guzman
A religião e a política disputam nos livros de História quem ocupa mais espaço. Vê-se que ambos, em quase todos os momentos, possuíram algum grau de parentesco. Na antiga sociedade judaica, o regime político adotado era o teocrático, ou seja, Deus controlava seu povo através de seus representantes aqui na Terra. Na Idade Média, a igreja romana possuía poder absoluto fazendo o Estado de móbile. Papas mandavam em reis como se fossem escravos ou servos.
E hoje, qual é a realidade? O sistema da sociedade pós-moderna não é teocrático, mas mesmo assim, muitos pseudo-representantes da verdade religiosa utilizam-se da credulidade da nação para venderem suas idéias e manipularem as pessoas.
A palavra religião procede do latim religare, expressando a idéia de religar um relacionamento que outrora fora quebrado. No entanto, com o surgimento da indústria cultural, os líderes religiosos mudaram o foco, introduzindo programas evangélicos em tevê comercial, tornando, sem dúvida, um campo fértil para a difusão e expansão da igreja eletrônica. Principalmente se for considerado que, por
trás desta iniciativa, há todo um aspecto empresarial que transforma a fé em um produto.
Padres, pastores e bispos transformam-se em verdadeiros popstars. Tudo em nome do espetáculo. José Arbex Jr, critica em seu livro
Showrnalismo - A notícia como espetáculo, como a sociedade inverteu os valores, sobrepondo a forma ao conteúdo. A lógica deste grupo molda o religioso de tal maneira, que suas doutrinas ou dogmas já não são o mais importante - tanto para eles quanto para seu público. Ela faz a "imagem-carisma" do religioso ser a doutrina principal.
Imagine esta cena: um lugar humilde, com uma mesa posta ao centro do recinto. Ao redor dela, estão assentados Jesus e seus doze discípulos, em espírito de gratidão. Em contrapartida, analise esta segunda ocasião. O local é o autódromo de Interlagos, São Paulo. Ao invés de 13 pessoas sóbrias, meio milhão de pessoas eufóricas reunidas aparentemente com o mesmo objetivo: louvar a Deus.
A religião sensacionalista está intimamente ligada à mídia e, conseqüentemente, ao capitalismo e à política. Capitalismo, porque os apelos quanto ao dízimo são inúmeros. Ligada à política, por que em nossa sociedade a visibilidade social é a moeda que gera tráfico de influência. Por exemplo, o bispo Crivella já é candidato ao governo do Estado ou à Presidência da República em 2006, e o bispo Rodrigues à prefeitura do Rio em 2004.
Há dois meses, elegeu-se uma governadora que um dia após a posse utilizava uma camiseta grafada que agredia muitos de seus eleitores: "Jesus é o Senhor". Tudo graças à mídia. Afinal de contas, deveria ela vestir a camiseta de uma religião ou a do povo? A igreja eletrônica elegeu um dos dois senadores, além de sete deputados estaduais e cinco federais. Será que os socialistas do PSB estão contentes? O grupo dos chamados pastores e bispos tem um líder no Congresso Nacional que, inclusive, agregou, a exemplo de todos os que foram eleitos, ao seu nome a função: bispo Rodrigues. A religião quer dominar a política no Brasil do ateu FHC.
Os meios de comunicação estão atrelados às religiões, multiplicando o impacto de influência destas. Substituiu-se a prática da fé pelo simples fato de colocar um copo d´água sobre a televisão. O movimento carismático transformou a mensagem em espetáculo, esquecendo-se do conteúdo. Perdeu-se o foco. A mesma tv, supostamente religiosa, que transmite cultos e programações religiosas de dia passa filmes pornôs e de violência à noite. O problema não é da mídia, e sim da religião.
criação: lisandro staut |
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