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Reality neurose

Fabiana Amaral

A moça, bonita, cheia de curvas suntuosas, com um diminuto intelecto, resolve aceitar a aposta e se inscrever no tal concurso para participar de um programa de televisão. No início não estava tão animada, mas, com a insistência dos amigos e incredulidade de que ela participaria, não deixou por menos. Dirigiu-se ao posto de inscrição e se cadastrou. Já conhecia as regras, de ouvir falar, geralmente nas revistas de fofoca.

Na verdade, Renata nem estava achando tão ruim aquela história. Sempre quis ser modelo, mas seus atributos avantajados a impediram de se encaixar no padrão. Os marmanjos, claro, não se incomodavam nem um pouco com a desclassificação métrica, muito pelo contrário.

Tinha fama de ser a "gostosa" do colégio, que havia terminado havia dois anos e do qual sentia saudade. Faculdade mesmo até chegou a pensar, mas desistiu de Medicina ao saber que tinha que usar branco - afinal, a cor engordava. Talvez atriz, beijar os galãs, ser famosa, dar autógrafos ser observada por tudo e por todos, todo o tempo, ah!

- É isso! - gritava resoluta e com largo sorriso. 

Era isso que queria, atenção de todos os lados, ser musa. Para que mais?

Passados dez dias, uma correspondência chega em sua casa endereçada a ela, pelo timbre conhecido da emissora. Ao começar a suspeitar do que se tratava deu pulos de alegrias, alertando, simultaneamente, a vizinhança que, lógico, já estava de sobreaviso. 

O tão esperado dia chega. A mala, pronta há dias - com tudo que poderia precisar: biquínis variados, chapinha, maquiagem, culta literatura (Brida, de Paulo Coelho), protetor solar, para as várias horas em que ficaria na piscina, e mais algumas coisas de "emergência" - é colocada no carro.

Chegando na tão falada mansão, antes de arrumar suas coisas, escuta as instruções do diretor do programa, que os prepara para a nova realidade, um show de realidade. Todos são apresentados, um metido a cantor, outro se achando o dono da casa, uma outra que não para de chorar de saudades do namorado. Uma é intelectual e não desgruda de A Era dos Extremos; outra é maníaca por remédios para emagrecer e já arrumou encrenca com um defensor do naturalismo, sarado, aliás.

No sorteio para ver quem teria o primeiro privilégio: ir para a suíte na primeira noite, Renata leva a melhor. Mas antes de desfrutar o prêmio, termina de ouvir as tais regras, como nunca tirar o microfone do corpo, etc. Normal.

Banho tomado, refeição feita, e louças do jantar já lavadas, vai enfim conhecer melhor sua suíte. Embasbacada com tamanha ostentação, a moça simples do subúrbio dá um gritinho, beirando a histeria, e se joga na cama, só de roupão, que não se demora a escancarar. Lembrando das câmeras encena uma alternativa para não parecer desvairada e de maneira "casual":

- Ah, que cansaço! Acho que vou ler um pouco agora. Que saudade da família. Como está triste a situação econômica do nosso país...

Acorda com a sirene e a voz do produtor chamando todos para o novo dia que começava. Sem lembrar-se direito do que estava acontecendo, levanta, tira a roupa e, nua, vai ao banheiro. De lá sai correndo depois de fazer pose na frente do espelho e se lembrar que atrás dele provavelmente haveria um cinegrafista.

Acertou na mosca. A edição daquela cena, com poucos cortes, foi a primeira de grandes picos de audiência.

Vergonha? Que nada! Não queria ser artista por um acaso? Não queria todo mundo lhe admirando as curvas? Então! Agora tinha. Só precisava parecer o mais normal possível.

Como se nada tivesse acontecido, trocou de roupa, mínima é claro, e junto com os participantes foi para o desjejum, ouvir mais instruções.

A rotina agora não mais a preocupava, pelo menos de início. Usava maquiagem e roupas justas, sempre falando frases prontas, pré-encenadas. Na primeira semana funcionou direitinho, mas depois...

Estava se cansando, aquele marombeiro que não parava de lhe atazanar, a neurótica da hipocondríaca lhe oferecia uma pílula a cada meia hora, enquanto o naturalista tentava fazê-la parar de comer carne, dizendo que era um homicídio. Tentava se esconder do "grande irmão", mas não tinha controle de nada, não sabia onde estavam as câmeras. Às vezes desconfiava, mas como ter certeza?

Fugia do pessoal da casa, que já lhe causava ojeriza. Tinha vontade de chorar e falar palavrão. Tentava falar sozinha, mas desistia, com o correto pensamento de que haveria milhões lhe assistindo.

Queria sair dali, mas não podia rescindir o contrato. O público que por ela se encantara, nem pensava na possibilidade de tirar sua musa do jogo.

Solitária, vista por milhões de pessoas, sem poder ir ao banheiro com tranqüilidade e privacidade, Renata não poderia se queixar de não ter realizado o sonho. Era vista por todos, principalmente nos momentos em que não queria ser vista.

Estava perto do final do jogo, mas sentia-se no final da vida. A idéia de "perseguição" não lhe saía da cabeça. A "modernidade" fazia parte da sua vida, do seu show de realidade. 

Neurótica, ganhou o jogo. Levou milhões, que deu para os pais. Vendeu o aparelho de TV em casa e por muito tempo, trancada em seu quarto, não sabia o real sentido do termo realidade.

O público que fez dela uma estrela, depois de algumas semanas, já estava hipnotizado por outra deusa televisiva e vibrando com suas mazelas. Consumindo avidamente a rotina alheia.

Mas não importava. De uma maneira ou outra, no etéreo palco do espetáculo, qualquer um é show à parte. Ela foi a da vez.

                    

criação: lisandro staut