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E
agora, José?
Allan Novaes
Não pude resistir de associar a penetrante pergunta, "Sou formando, e agora?", com o famoso poema do imortal Carlos Drummond de Andrade. Já dizia ele, como que adivinhando a angústia que pertence a todos os formandos: "E agora, José?"
Curiosamente, essa pergunta só poderá ter uma resposta satisfatória quando estivermos capacitados a responder outra: "Como definimos a
mídia?" Para muitos profissionais, a mídia é apenas um meio cujo fim é informar. E diante
deste conceito da mídia, discussões e mais discussões acontecem sobre o universo do fazer jornalístico: a ética na prática jornalística, o uso de determinadas técnicas da profissão, entre outros temas.
No entanto, no meio de todo esse discurso "metajornalístico", parece que "uma verdade sobre as mídias escorre entre nossos dedos". É o que diz o professor de
Jornalismo e Sociologia da Universidade de Nova York, Todd Gitlin, no livro
Mídia Sem Limites - como a torrente de imagens e sons domina nossas vidas.
Para ele, "a verdade óbvia, mas difícil de perceber" é que, na atualidade, conviver com as mídias é a coisa que os seres humanos mais fazem. Na verdade, ela quase que se torna, mesmo que inconscientemente, o motor que impulsiona a existência da sociedade. A essência da vida moderna - ou pós-moderna, se preferir - é, segundo Gitlin, viver por, pela e para a mídia:
Em presença das mídias, podemos estar atentos ou desatentos, estimulados ou amortecidos, mas é numa relação simbiótica com elas, suas figuras, textos e sons, no tempo em que passamos com elas, no esforço que fazemos para obtê-las, absorvê-las, repeli-las e discuti-las, que boa parte do mundo acontece pra nós. As mídias são ocasiões para experiências - experiências que são, em si, os principais produtos, as principais transições, os principais "efeitos" das mídias. Isto é que é importante; o resto é detalhe.
Mas o que isto tudo tem que ver com as perspectivas e o futuro profissional de um punhado de formandos de um centro de ensino do interior paulista? Mais do que se imagina. A grande questão é que o grau de nossa conscientização do poder e da influência da mídia na sociedade atual define, sem sombra de dúvidas, nossa postura profissional - as lentes pelas quais vemos as mídias são as mesmas que determinam qual caminho seguiremos no mundo da comunicação.
Estilos
Gitlin faz definições muito interessantes e excêntricas de como as pessoas - e no nosso caso, os profissionais - agem e reagem sobre a mídia. Ele denomina os vieses que assumimos dos
media como "estilos de navegação", uma vez que, para ele, a mídia funciona como uma "torrente" de imagens e sons que "inunda" a vida do homem moderno. Vamos aos "navegadores" e seus estilos.
O fã da mídia é, paradoxalmente, o tipo mais ingênuo e perspicaz de profissional. Sem preocupar-se com reflexões sobre o fazer midiático, e muito menos os seus efeitos sobre o público, o fã é um verdadeiro entusiasta dos meios de comunicação. Ele não só trabalha para trazer experiências e sensações ao público como acredita piamente que a mídia é a ferramenta mais adequada para isso. Aqueles que se relacionam com a mídia, como fãs, são
- ou serão! - profissionais que desviam sua responsabilidade ética para a satisfação do gosto do consumidor ou para a divulgação de modismos e tendências. Sem muitos problemas poderíamos associar tais "navegadores da torrente" com jornalistas e comunicadores que exploram o ridículo para garantir a audiência, os defensores do sensacionalismo e do jornalismo das celebridades e futilidades.
Já o crítico de conteúdo é o grande algoz do fã da mídia. O crítico trabalha por aversão - ele é o típico pessimista.
Estes "navegadores" criticam a mídia por definir como as coisas são e como deveriam ser. Fáceis de identificar, os críticos de conteúdo são aqueles que nunca se cansam de esquadrinhar os passos da mídia - comentaristas,
ombudsman, críticos dos mais variados veículos, entre os quais se incluem você e eu, só pelo fato de participarmos
deste
site, de uma forma ou de outra. O risco do trabalho do crítico de conteúdo é reduzir, como define Gitlin, "a vida toda a uma sombra projetada pela luz brilhante das mídias". Ao denunciar o exagero dos meios de comunicação, o crítico acaba por responsabilizar a mídia por quase tudo o que é falso, indesejável ou corrupto.
E é quando ocorre uma radicalização dos críticos de conteúdo que se evidencia a atuação do paranóico. Este navegador "demoniza" a mídia e crê que nós estamos sendo programados, hipnotizados e dominados por "eles". "Eles" podem ser o
governo, a Globo, os grandes conglomerados das mídias, os Estados Unidos, ou mesmo o
governo de ocupação sionista (!). O olhar do paranóico dissipa a escuridão da grande mentira enxergando por meio das trevas "a grande verdade para a qual as criaturas engambeladas estão cegas". Para os profissionais que enxergam a mídia como paranóicos não restam outras alternativas a não ser empregar lutas e mais lutas em prol do poder das "mensagens subliminares", ou mesmo famosos documentários sobre relações auspiciosas entre presidentes estadunidenses, famílias de nobres árabes e planos terroristas maquiavélicos.
Por outro lado, a "medusa-mídia", com seus milhões de tentáculos pegajosos e mortais, não assusta o
exibicionista. Ele é uma espécie de "paranóico positivo". Gitlin assim o descreve:
"Na forte torrente das mídias o exibicionista finge relaxar (...) ele não está se afogando, apenas
acenando." O exibicionista, na verdade, está consciente do poder da torrente, mas conformou-se diante de tal conhecimento. Entre
estes profissionais podemos incluir aqueles que, julgando impossível reformar certas pressões do ofício, vendem princípios e valores em prol da sobrevivência no mercado.
Estes profissionais acabam, muitas vezes, tornando-se produtos e ícones da mídia - apresentadores de
talk shows enquadram-se muito bem nesta definição.
Em reação à postura exibicionista de muitos profissionais, é que o "navegador" do tipo
bloqueador se manifesta. Para ele, o ataque é a melhor defesa: sabendo do poderio da mídia, o bloqueador acredita que de algum modo pode mudar ou impedir os meios de comunicação de agirem. As publicidades contra o tabagismo do Ministério da Saúde e outros tipos de anticomunicação podem ser consideradas como uma atividade bloqueadora.
Para o profissional secessionista, "a mídia é intolerável, não roubando apenas seu tempo como também minando as capacidades humanas". Por isso, o secessionista acredita que as mídias não podem ser mais reformadas - não há mais esperança, "até porque interesses econômicos que lucram com a atenção coletiva da humanidade não vão aceitar de bom grado qualquer perda de controle".
Desta feita, este profissional muitas vezes acaba agindo de maneira pessoal contra
a mídia: "Vira as costas, ou pelo menos a cabeça, e tapa os ouvidos." Estão incluídos dentro
desta lista jornalistas de peso que adotam mídias independentes ou radicais como válvula de escape em resposta a uma frustração contra as grandes mídias ou a grande imprensa, ou mesmo profissionais que desistem da carreira na comunicação e engajam-se em outra área, mas continuam a dar seus "pitacos midiáticos".
Querendo ou não, a ação do secessionista dá origem ao navegador tipo abolicionista. Considerando as mídias politicamente alienadoras, danosas à mente e até mesmo fisicamente prejudiciais, o abolicionista "recusa-se a aceitar sua existência como bom argumento para explicar por que devem continuar a existir". O pensamento do abolicionista é, como a famosa frase de Rousseau, que a sociedade como um todo deve ser "forçada a ser livre". O abolicionista é o secessionista que tenta impor suas idéias à sociedade. Entre
estes navegadores, por exemplo, podemos incluir os profissionais ousados que fazem apologia contra a TV ou pregam a morte de uma ou outra mídia.
Por fim, encontra-se o irônico. Este profissional mostra-se muitas vezes, como o secessionista e o abolicionista, ciente dos efeitos da mídia sobre a coletividade, mas ri-se desse fato. Embora saiba que irá se afogar na "torrente midiática", tenta relaxar e flutuar pela corrente. A maneira mais freqüente pela qual os profissionais irônicos atuam são as charges e caricaturas, entre outros - é o jornalismo de humor. "Ironicamente", Glitlin relembra nesse contexto uma campanha publicitária da rede estadunidense de televisão ABC: "Se televisão faz mal,
por que é usada em quartos de hospital?"
Depois de usar diversas lentes para enxergar a mídia, a pergunta "o que isso tem que ver com os formandos em comunicação do interior
paulista?" fica bem mais fácil de ser respondida. No entanto, diante de paranóicos, exibicionistas, bloqueadores, irônicos e tantos outros, difícil é criar uma identidade em meio
às fortes ondas provocadas pela "torrente de imagens e sons". Qual é o seu viés da mídia? Com quais estilos de navegação você mais se identifica?
Mais importante do que decidir qual especialidade seguir, em que área investir ou mesmo em que veículo trabalhar, é responder à interrogação: o que é a mídia para você? Sua carreira e postura profissional dependem dessa resposta. E agora,
José?
Nome:
Allan Novaes
Nascimento: 20/07/83.
Experiência profissional:
Allan participou de semanas e cursos de comunicação, teve destaque como
vencedor do Prêmio Unasp de Comunicação em 2003 na categoria "Vídeo", e
recebeu o Prêmio Unasp de Comunicação em 2004 na categoria "Mídia Impressa". Foi repórter, revisor, webmaster, articulista, editorialista e secretário
de redação na Agência Brasileira de Jornalismo (ABJ), dos veículos do campus e outros,
como
Paraná Online e Observatório da Imprensa. Na televisão
fez reportagens para o telejornal
Semana em Foco, veiculado no canal fechado da TV Novo Tempo, produzido pelo curso de Jornalismo do Unasp. Sua marca impressa foi deixada
na revisão e sugestões de pauta para o livro
Liberdade Vigiada - Questão de Opinião, de Ruben Holdorf. Foi revisor
no
Jornal de Limeira (novembro/2002) e diagramou o Jornal do
Campus, edição comemorativa dos 20 anos do Unasp. Também participou das revistas
Acta Científica - Ciências Humanas, do Unasp, Eclésia (2003-2004),
Revista Adventista, Sinais dos Tempos, da Casa Publicadora Brasileira (2001-2004), e na
revista
Escola Adventista (2004).
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