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A menina virou mulher 

Sandro Heringer 

"Como é difícil acordar calado, se na calada da noite eu me dano. Quero lançar um grito desumano que é uma maneira de ser escutado. Esse silêncio todo me atordoa. Atordoado, eu permaneço atento. Na arquibancada para em qualquer momento ver emergir o monstro da lagoa."

O pavor se transformou em poesia nas mãos atadas de Chico Buarque, conhecido por compor canções sobre a alma feminina. As palavras do cantor, reprimidas pela ditadura, foram substituídas por versos que dizem tudo sobre o nada que se formou. E em coro, o Brasil cantou o desejo de ser livre. O "monstro da lagoa" não mete mais medo. A rejeitada democracia foi devolvida aos braços de quem lhe pertence de direito, o povo brasileiro.

A menina virou mulher, e hoje debuta duas décadas de uma vida cheia de percalços. Muitas vezes violada, ela insiste em querer aparecer. Alguns até dão mais do que os 15 minutinhos de fama, enquanto outros fingem levantar a bandeira da soberania popular. Aqueles mesmos que mamam nas tetas transbordantes da liberdade de informação para manipular os donos da democracia. 

Grande parte dos meios de comunicação lutou e luta por ela. Mas uma imprensa democrática se faz com veículos que trabalham a favor da transparência da informação, pela imparcialidade e igualdade dos fatos expostos e dando prioridade aos interesses relevantes dos seus leitores. 

A imprensa imaculável, não é utópica, mas o caminho que se percorre ao seu encontro é cheio de pedágios. Como ser democrática quando se vê dinheiro público ajudando a sanar dívidas de veículos privados. Ou quando fica explícito o apoio a determinado candidato, rendendo-lhe espaço infinitamente maior do que seu concorrente. 

Uma nação ciente dos seus direitos e deveres se faz com uma imprensa que toma para si a responsabilidade de proteger a integridade física dessa "menina" que é de todos, mas não se vende para ninguém. 

O ex-presidente dos Estados Unidos, James Madison, disse que seria um prelúdio à farsa criar uma sociedade democrática sem uma imprensa democrática. O reflexo do que pensamos vem desse gigante chamado mídia.

Na teoria todos os meios são democráticos. São livres para dizer o que pensam. Embora, já se tenta violentá-la com ações fiscalizadoras e punitivas. Na época da ditadura, poucos foram os veículos que se posicionaram explicitamente contrários ao regime ditatorial imposto no País. A Folha de S. Paulo vestiu a camisa do movimento de libertação da nossa democracia, apoiando uma das grandes manifestações de cidadania da nação tupiniquim: as Diretas Já.

Apesar do que vemos e ouvimos não ser de todo democrático, hoje, temos a liberdade de escolher a fonte de informação fidedigna - ou mais perto disso - que queremos partilhar. Um casamento imposto pelo Estado nos fez sentir o gosto amargo do beijo da invejosa ditadura, querendo roubar a cena da menina que, hoje mulher, vive a nos paquerar. 

Saber escolher é saber ser cidadão. Isso um dia há de acontecer plenamente. E como dizia o velho Chico, em uma das canções que se tornou símbolo da luta contra os dias de chumbo: "Apesar de você, amanhã há de ser outro dia. Você vai ter que ver a manhã renascer e esbanjar poesia."