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Democracia
mascarada
Andréia Moura
Abaixo à ditadura. Sangue, suor e lágrimas. Pela liberdade da nação, pela liberdade de expressão, por uma pretensa democracia. Democracia sonhada, chorada, alcançada. Alcançada mesmo? Durante toda a história brasileira a luta pela liberdade de pensar, dizer e escolher foi fator presente, constante. Mais constante ainda foi a posição que o jornalismo sempre defendeu nessa briga. Posição que sempre estampou orgulhosamente em suas trincheiras.
O período da ditadura foi longo e sofrido, principalmente para a imprensa. Não ter o direito, nem o prazer, de escrever livremente sobre qualquer assunto foi frustrante e, analisando em extensão temporal, atrofiador. Quantas receitas de bolo, quantas poesias de Camões ou histórias da carochinha ocuparam os espaços que, por direito, pertenciam à informação? Que pertencia a democracia, a liberdade e ao povo? Não foram um ou dois espaços, foram décadas de tarjas pretas que vergonhosamente ficaram grafadas no legado da história. O que vale de fato lembrar é que as barricadas editoriais, as crônicas-metralhadoras, os sutis contos-bomba atravessaram a repressão tão odiada.
No entanto, depois de vinte anos de democracia conquistada é relevante que paremos para pensar. Pensar sobre a veracidade de uma democracia tão sonhada, mas na realidade tão inalcançável quanto descreve Thomas More em
A Utopia. Será que agora realmente dominamos o vetor-mestre na imprensa? Será que nossas pautas são puramente imparciais e livres como na teoria deveriam ser? Será que falamos de seriedade, verdade, justiça e liberdade como nossos ideais apregoam? Será que os censores realmente abandonaram nossas redações?
Infelizmente não. Apesar da luta ter imposto nova organização social, não conseguiu impor uma imprensa menos partidária. Nem apagar a crua verdade de que sempre viveremos um coronelismo mascarado que submete por meio de sutilezas e decide o que "queremos" pensar, ler ou escrever. A ironia de nossa democracia surpreende, e a imprensa surpreende ainda mais pelo descaramento. O descaramento de se deixar censurar pelo medo, pela conveniência, pela ambição, e pior ainda, por pura corrupção.
Estamos corrompidos. Sujos da lama fétida que vem de uma aristocracia forjada, e isso nos impõem o pior tipo de censura que pode existir: a autocensura. Deixar de abordar aquilo que compromete os interesses da sociedade protegendo aos poderosos e quebrando o "voto" de servir ao povo. Pisando no conceito da democracia: forma de governo em que o poder emana do povo. É por isso que veículos como a
Folha de S. Paulo e Rede Globo prestam "cultos" ao norte-americanismo e muitas vezes jogam pra debaixo do tapete as falcatruas de nosso "democrático" governo.
Em campanhas eleitorais, esse "fenômeno" pode ser observado com muita nitidez. A imprensa só mostra aquilo que lhe convém, e conduz vergonhosamente o gosto popular para o governo que atenderá mais de perto aos interesses do veículo naquele momento. Que democracia é essa em que a imparcialidade inexiste e o poder emana de uns poucos capazes de induzir o povão? Que grandes mudanças conseguimos alcançar se ainda escolhemos a opção já escolhida? Se ainda lemos a informação já "filtrada". Se ainda pensamos o que nos "ensinam" a pensar.
Foi nos usurpado o que, por direito, por mérito e por vitória é nosso. O conceito da Democracia. Enquanto não recuperarmos esse conceito, continuaremos a participar de um grande baile de máscaras. Enquanto o relógio não bater a meia-noite e as máscaras não forem retiradas, continuaremos valsando com a repressão sem nos dar conta de que a verdadeira democracia mora ao lado.
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