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Representação de classe 

Rômulo Gomes 


Repressão, abuso de poder, autoritarismo, cerceamento de liberdade. As mídias de massa, principalmente as jornalísticas, faziam uso freqüente deste discurso para caracterizar o governo autoritário. Em se tratando de ditadura militar estes termos eram tão comuns e não obstante podem ser considerados como clichês. Discursar desta forma na imprensa hoje pode parecer não fazer muito sentido. Contudo, isso acontece e a dúvida sistemática é saber se esse tom editorial voltou a ocorrer ou sempre existiu. Bastou a iniciativa, quase embrionária, do governo, em criar um órgão representativo para os jornalistas, que aqueles clichês retornassem.

O jornalismo como se conhece hoje parece um meio de utilidade pública, uma ferramenta da democracia. E realmente é. Mas, em seu âmago, reflete ações de um adolescente mimado e egocêntrico. Parece estar amadurecido, e consegue realizar feitos inimagináveis em prol do bem-estar social e da manutenção da ordem desejável. Porém, a unilateralidade de sua postura e massificação de alguns conceitos já cristalizados revelam esta característica de jovialidade inconseqüente. É como o discurso inicial deste parágrafo: altamente incisivo e contundente, e é nesse âmbito que os dois se separam agora.

Uma crítica, por mais válida que possa ser, é personalista e não revela a veracidade de um fato. Deve ser compreendida num contexto que consiga abranger o máximo de posturas possíveis. Deve relatar o óbvio negativo, e ressaltar o positivismo fluente, ou pelo menos admitir as divergências e explicá-las, dando ao interlocutor a possibilidade de julgamento e não a passividade entre escolher ou não uma verdade ditada. Neste caso, o discurso deste artigo já se separa do aspecto jornalístico citado anteriormente. 

Ao tratar de um assunto, o jornalismo não pode ditar as notícias conforme sua vontade. Exemplificando, o jornalismo do período ditatorial foi fundamental para que este se dissolvesse, mas não fomentou a discussão de seus tópicos positivos como a viabilização rodoviária, os avanços econômicos, a implantação de infra-estrutura para as indústrias, entre outras. A imprensa creditava a importância de sua função em destacar somente o caráter primário da ditadura que era basicamente negativo. Alguns como a supressão intelectual e artística, a falta de zelo na condução econômica, as barbáries cometidas aos seus opositores ideológicos, entre tantos. Contudo, o período mais significativo da música brasileira, a abertura econômica, os altos índices de crescimento anual não eram destacados pela imprensa da época. 

De acordo com o jornalista e professor de Comunicação da Universidade de Brasília, Luiz Gonzaga Motta, em publicação no Observatório da Imprensa, a produção jornalística referendava iniciativas marxistas de dependências e lutas de classe no período de 1960 a 1970. Isso no campo teórico, mas suas implicações apareceram no plano profissional. Segundo Motta, "os estudos de caráter marxista estavam por demais vinculados às posturas político-ideológicas não necessariamente científicas". Se até mesmo o cientificismo jornalístico estava comprometido, a aplicação destes conceitos já tinha se afirmado. 

O subjetivismo sempre foi a base para uma produção jornalística. A imparcialidade é uma falácia. O que deve permear a ética jornalística é a busca pelo maior número de possibilidades e versões daquilo que se definiu como notícia. Motta afirma ainda que "todo enunciado sobre o mundo é uma elaboração subjetiva e intersubjetiva que interpreta a realidade de modo particular e incompleto, onde intervêm necessariamente concepções particulares de alguém (o jornalista) sobre o que acontece".

A ditadura foi só mais uma interpretação pessoal motivada, é claro, por extremos da brutalidade que realmente aconteceu, como a morte de Vladimir Herzog e outros que foram torturados e mortos nos porões do Destacamento de Operações e Informações e do Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi). Neste caso, a objetividade cedeu lugar à pressão momentânea de expurgar qualquer otimismo frente à ditadura quando a classe jornalística fora maculada.

Ferramenta social

Contudo, a imprensa nunca deixou de ser um meio para relatar a realidade. Mas, fazê-lo com base em idéias de luta de classe com motivações massivas de uma filosofia corrente, denegriram certos aspectos relevantes e importantes para a construção histórica do País. O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro crescia a uma taxa de quase 12% naquele período. Atualmente, o índice de quatro a seis por cento é comemorado com pulos pelo governo. Poucos entendem o que aconteceu economicamente naquela época. Talvez se a imprensa tivesse apurado com mais afinco certos elementos da política militar, algo interessante pudesse ser apreendido. 

Vale ressaltar que a inflação beirava os 20%, e o índice de crescimento do País era idêntico ao da China hoje. Imaginar o que o Brasil perdeu nestes 20 anos pode deixar qualquer um perplexo, apesar de se basear numa condição momentânea e dependente da situação internacional. Para entender o crescimento do Brasil no período da ditadura é só imaginar a progressão atual da China e da Coréia do Sul. Só que no Brasil, isso acontecia há duas décadas!

Os paradigmas culturais foram também muito expressivos. O movimento Tropicalista iconizado por Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil - atual ministro da Cultura -, entre outros, representou a principal referência em criatividade cultural do País. Afinal de contas, falar sobre a ditadura em música de modo implícito não é muito fácil, principalmente com agências fiscalizadoras do governo por todo o lado.

Retomando as práticas da inconseqüência juvenil, parece falho para o jornalismo aparecer novamente e sempre se sentir afligido a questionar a liberdade e a expressão intelectual minimizando um contexto maior. O fato de o Conselho Federal de Jornalismo ter parecido como uma imposição do governo não merecia ser tratado como um dos Atos Institucionais do governo Costa e Silva. Notificar o assunto da forma como é feita hoje, é desmerecer as lutas dos jornalistas que tentaram derrubar o governo militar. Se é que a imprensa da época o fazia com interesses nobres, e não motivada com interesses internos da classe.