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E
viva a falta
de compromisso!
Andréia Moura
"Morre um liberal, mas não morre a liberdade", ou pelo menos, o que nos sobrou dela. Quase dois séculos depois a frase de Líbero Badaró ainda emociona, empolga, dita comportamentos, simplesmente ecoa. A "voz do morto", como cantava Caetano, ainda exige, encara, defende - ainda fala de idealismo. Mas, quer saber, há mais demagogia nesse jargão do que ratos nos esgotos de São Paulo. O jornalismo que vivemos carece de veracidade, de compromisso, carece da essência com a qual foi criado e que sustentou tantos mártires da liberdade de expressão. Carece da única coisa que julga ter, liberdade.
O papel de vítima que o jornalismo assume lhe cabe como uma luva. Assenta perfeitamente como pele de cordeiro no lobo. Porém, convenhamos, o jornalismo não vive apenas recebendo socos e pontapés. Muitas vezes, na maioria delas, ele é a mão que bate, a boca que engana, a mente que induz. O "quarto poder" é provavelmente culpado e, definitivamente, não é livre. Analisando friamente a questão é uma grande ironia pregar liberdade quando se vive com o "rabo preso". Mas o jornalismo brasileiro, com exceção de poucos, é assim mesmo. Muita pressão, pouca ação.
Isso não é extremismo, é realismo. Quando o governo ameaça cercear a liberdade de imprensa, como no caso do Conselho Federal de Jornalismo,
essa mostra suas afiadas garras. Discute, ataca, ironiza. Tira o máximo de proveito do poder com as palavras. Entretanto, os jornalistas
não vivem abdicando da liberdade em nome da diplomacia e da conveniência? Os meios de comunicação que dominam este País escolhem cuidadosamente as palavras; cuidam no modo de agir; na maneira de responder; o que publicar; o que omitir,
a fim de que possam obter melhores benefícios na situação.
O caso da eleição do ex-presidente Fernando Collor de Mello. Em 1989, o País
emergia de uma terrível era de repressão e censura. A democracia alcançada era um bálsamo para
a estima ferida do brasileiro. Um momento histórico em que o povo voltava
às urnas. Então, entra em cena a Rede Globo. O descaramento com que conduziu o voto popular dispensa comentários. A simples idéia de que um partido de esquerda poderia assumir o governo bastou para que nossa imprensa, recém-"liberta", usasse as velhas táticas de manipulação. Táticas que trouxeram resultados benéficos apenas aos poderosos. E o povo? Recebeu uma punhalada pela mão daquela que deveria ser o escudo, e não a espada.
Algumas
dificuldades
O jornalismo há muito tem dificuldade em exercer seu verdadeiro papel. Está sempre falhando em servir ao povo da maneira que promete fazer. Mas isso é fácil de explicar. Uma questão básica de vocação. O jornalismo perdeu, quase que totalmente, o idealismo que o transforma em arma. Está cheio de profissionais incapazes de enxergar pela
óptica límpida da justiça, da verdade. Onde está o muro de separação entre o jornalismo esperado pela sociedade e o praticado em benefício de poucos? Esse limite tênue se encontra na palavra "comprometimento".
Jornalista sem idealismo se cansa de receber paulada. Cansa de receber tapa na
cara. Cansa de tanta censura. É por isso que capitula perante o sistema e se vende a quem não paga bem. Jornalista sem idealismo não compreende as implicações da palavra compromisso e transforma
a profissão criada para servir em podridão, que serve a si mesma. Foi-se a época em que um jornalista morria por uma causa, ou melhor, que doava a vida para preservar o direito do povo
à informação.
É muito próprio lembrar de Cipriano Barata nesta passagem. Ele foi um dos
mais combativos jornalistas da época imperial. Em 1823 criou o jornal A Sentinela da Liberdade na Guarita de
Pernambuco. Por denunciar os desmandos do imperador foi preso, mas ainda na prisão editava seu jornal clandestinamente. O periódico passou a se chamar
A Sentinela da Liberdade na Guarita de Pernambuco Atacada e Presa na Fortaleza do Brum por Ordem da Força Armada e
Reunida. A ironia da situação é que, para qualquer lugar que o enviassem, Barata sempre arrumava uma maneira de publicar o periódico adaptando os títulos conforme a situação em que se encontrava.
Aos 64 anos, quando foi libertado, Barata ainda tinha idealismo suficiente para continuar publicando seu jornal, para continuar servindo ao compromisso feito com o povo. Para escolher a liberdade de não ficar de "rabo preso" com ninguém. Para honrar as últimas palavras de alguém que morreu por essa causa.
Jornalismo verdadeiro tem sede de justiça, tem faro de cão, gosta mesmo é de enfrentar uma boa briga em nome daquilo que representa a liberdade. Para concluir, nada melhor do
que citar a frase de Fernando Jorge no livro
Cale a Boca Jornalista: "Não sacrificarás teu dever ao poder." Nosso dever é lutar por mais comprometimento na profissão. Compromisso que trará, conseqüentemente, a tão sonhada liberdade. "Morre um liberal, mas não morre a
liberdade."
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