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Imprensa violada  

Lêda Maria


Fiscalização, investigação, denuncismo e reivindicação: estas são as tarefas do jornalista. Fiscalizar poderes, denunciar desmandos, revelar abusos e violações dos direitos do cidadão. Contudo, eis uma questão: como pode o jornalismo cumprir seu papel se é constantemente cerceado e reprimido pela classe política? Como pode a sociedade se manter bem-informada se nas redações ainda existe censura e repressão por parte dos poderes dominantes?

Designada como o elo entre governo e o cidadão, a imprensa é a forma como pessoas comuns ocupadas na rotina diária podem acompanhar as ações daqueles que governam a nação. Logo, é dever do jornalista fiscalizar as ações políticas e manter a sociedade bem-informada. Mas o que se vê são jornalistas censurados e a liberdade de imprensa comprometida. Isso porque o governo sempre vê o jornalista como uma ameaça aos seus interesses e assim, quer sejam reis, imperadores ou presidentes, todos se empenham em diversas artimanhas e ferramentas na tentativa de prejudicar o trabalho do jornalista e fazê-lo cair em descrédito.

A censura existia antes mesmo da imprensa, e, embora algumas vezes visível e outras discretas, sempre esteve presente. Enquanto houver governantes corruptos e incompetentes, sempre vai existir censura. O império assassinou Líbero Badaró. A ditadura "calou" Vladimir Herzog. O governo Collor, em 1990, invadiu a redação da Folha de S. Paulo sob pretextos econômicos, quando se tratava de repressão política por críticas à candidatura de Collor. Em 2002, uma ordem judicial proibiu qualquer referência na imprensa às denúncias de abuso sexual envolvendo o juiz do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo. Essa é a República que se incumbiu de assassinar paulatinamente a consciência dos profissionais da comunicação e encontra, com isso, um meio de facilitar a manipulação do povo, afinal, sociedade mal-informada é presa fácil.

A última grande investida contra a liberdade de imprensa foi a proposta do Conselho Federal de Jornalismo que previa fiscalização para a classe jornalística; controle sobre a produção artística brasileira e uma série de medidas abusivas e vergonhosas num sistema "democrático" como o nosso. "Os que tentam cercear nossa voz agora, antes se valeram muito dela para atingir o poder. A verdade é que estão com medo. Medo de que a imprensa abale as já apodrecidas estruturas do partido. O medo sempre é fator impulsionante de medidas drásticas e perigosas. Desde a ditadura, a imprensa não sofria ameaça tão descarada em sua liberdade, que, por sinal, foi alcançada por meio de duras lutas", desabafa Andréia Moura em artigo para o Canal da Imprensa.

Hoje, o jornalismo é criticado, apresentado como deficiente e incapaz de cumprir seu papel social que é informar de maneira ética, responsável e correta. Mas como pode a imprensa alcançar suas metas se os que dominam as instituições vêem o jornalismo como um instrumento lesivo aos seus objetivos e buscam de todas a formas impedir a publicação de reportagens, artigos ou matérias que comprometem os seus interesses?

Censura interna

Quando se fala em censura, muitos se reportam à ditadura ou períodos negros da história relembrando torturas, prisões, mortes e destruição de inúmeras redações. Esquecem que hoje, de forma sigilosa, repórteres são impedidos de publicar matérias, algumas fruto de intensa investigação. Veículos são acuados por ameaças financeiras - afinal, coagindo o chefe, pode-se controlar os empregados e para atender aos desejos de uma minoria. A imprensa é violada, os jornalistas desrespeitados e a comunidade prejudicada. Quem ganha nessa história? Isso está bem claro. 

O Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina lamentou em artigo ao Observatório da Imprensa a demissão do jornalista Claudio Prisco Paraíso do Estado e do SBT, que foi denominada como cerceamento da liberdade de expressão. O motivo alegado pelas empresas foi confrontação com as linhas editoriais dos veículos. Mais um exemplo de chefes com "rabo preso" que comprometem a veracidade e honestidade dos repórteres. O sindicato definiu a liberdade de imprensa como a "pedra de toque nas sociedades modernas" e acrescentou: "O exercício da crítica é imprescindível para o jornalismo... jornalistas precisam relatar os fatos, analisar conjunturas e dividi-los com o público." 

Os detentores do poder encontraram uma nova forma de controlar as redações. Estabelecem relações cordiais com os donos dos veículos que, em sua maioria, só injetam dinheiro e nada sabem ou valorizam do jornalismo e com isso garantem que nada pernicioso seja veiculado a seu respeito. Quanta esperteza! A vergonha fica a encargo desses chefes que colocam à venda a consciência de seus funcionários. O sindicato, no mesmo artigo, argumenta que essas empresas "julgam-se proprietárias não apenas da informação que difundem, mas também das consciências dos jornalistas que empregam... transformam o profissional num simples joguete de seus interesses". 

Liberdade de expressão não é só um projeto da sociedade democrática, mas uma condição para sua existência. Os governantes deveriam reconhecer esse fato e deixar o jornalismo cumprir seu papel de órgão fiscalizador das ações públicas. Esses "coronéis" precisam entender que sempre vão existir profissionais comprometidos com a missão de informar, dispostos a ultrapassar barreiras para obterem informações e levá-la ao público. 

Sem imprensa livre não há jornalismo competente. O elemento-chave é a liberdade. Liberdade na hora de apurar as informações, de redigir o texto e escolher a abordagem que desejar numa matéria. Tudo depende da tal liberdade que, segundo Cecília Meireles, "é uma palavra que o sonho humano alimenta, não há ninguém que explique e ninguém que não entenda".