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Imprensa devota 

Wendel Lima  

Muito foi comentado sobre a cobertura da morte do papa. Em circunstâncias como essa, o falecimento de uma celebridade, sobretudo religiosa, é inevitável o debate acerca das falhas e acertos da imprensa. Parece muito tênue a linha divisória entre a cobertura jornalística, "isenta", e o viés ideológico de apologia à religião. Até onde a abordagem da imprensa brasileira foi jornalística? Ou até onde foi de bajulação religiosa ou oportunismo econômico?

Tal reflexão nos leva, invariavelmente, à discussão iniciada na universidade: o princípio ético da imparcialidade. Creio que a imparcialidade é um ideal a ser perseguido, mas nunca alcançado. Haja vista ser impossível qualquer ser humano esvaziar-se - um bonito termo teológico - da sua cosmovisão. A própria incapacidade humana de ver o todo, acrescida da bagagem genética e cultural adquirida ao longo da vida, tornam utópica a imparcialidade. Se isto não é possível no campo das ciências exatas, quanto mais na área de humanas, e numa profissão tão interpretativa como o jornalismo.

Valores religiosos

O "esvaziamento" ideológico de um jornalista ou de um veículo na cobertura de um fato se torna ainda mais difícil quando envolve a fé. A antropologia mostra que a busca e a crença do sobrenatural é encontrada em todas as culturas. Ao se falar de fé, lida-se com aquilo que é mais íntimo no ser humano, mais intrínseco. Pois até mesmo os algozes combatentes da religião fazem apologia a um sistema de crença, o ateísmo. Portanto, exigir que um jornalista se desvencilhe dos seus princípios religiosos é esperar que ele viole a própria consciência.

Ademais, a maioria das religiões prega valores morais universalmente aceitos. Aliás, o que é a nossa ética, senão uma releitura dos princípios que herdamos dos mais variados matizes religiosos? Logo, um empresário da comunicação bem-intencionado, pode ver nisso um fator legitimador da interferência de interesses religiosos na linha editorial do veículo. Afinal, defenderia a paz e a solidariedade. 

Uma visão menos romântica quanto à abordagem proselitista da imprensa é a do oportunismo econômico. Talvez, no caso da cobertura da maior parte dos veículos brasileiros, ambos os interesses se fundiram: o dogmático e o financeiro. O econômico é mais do que lógico. Todo veículo midiático é uma empresa cujo fim é o lucro. E quando se fala nesse bendito, a religião é pauta de retorno garantido.

Misticismo científico

O homem pós-moderno é místico por excelência. Prova disso é que até a ciência, antes moldada no modelo positivista, valorizando as áreas de exatas e biológicas, agora se abre para o estudo do homem e do sobrenatural. Se o indivíduo contemporâneo é religioso, quanto mais o brasileiro, que vive num sincretismo cristão de influências africanas, indígenas e orientais. 

Vale lembrar também, que a morte do papa é um assunto de interesse público. Para um público não formado apenas dos significativos 85% de brasileiros professamente católicos, mas também dos demais 15% que se simpatizam ou não com o bispo de Roma. Pensar em papado hoje, por incrível que pareça, é ainda falar de política, sociologia, ética e de mais de um bilhão de fiéis.

É verdade que a grande falha da imprensa não foi o espaço que concedeu ao papa, nesta última semana, mas a superficialidade com que abordou o tema. Vários vieses foram olvidados. Não seria esse o momento, ao invés de falar sobre quantos já viram o caixão do papa, de analisar o impacto do catolicismo no mundo? No Brasil? Na política? Falar sobre como seria o Ocidente sem a igreja de Roma? Dar voz, ainda que baixinha, para aqueles que discordam da igreja? Deixar que os protestantes, além dos judeus, árabes e afros também comentem o incidente?

A verdade é que, explícita ou implicitamente, a linha editorial de um veículo sempre será afetada, em maior ou menor grau, pelos valores culturais, filosóficos e religiosos dos seus dirigentes. Se este é um caminho inevitável, é melhor que os veículos optem pela transparência. É mais ético se legitimar por meio de um posicionamento claro a enganar o receptor pelas entrelinhas. Tal postura, talvez segmentaria o mercado, pois cada indivíduo optaria por um veículo já sabendo qual viés seria abordado. Isso dispensaria em grande parte os trabalhos de pós-graduação em análise do discurso e análise semiótica da mídia. Afinal, saberíamos de qual ideologia cada veículo é devoto.