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"O
que esperar da imprensa"
Vanessa
Candia
Morte do papa.
Enterro do papa. Substituto do papa. Estes foram, são, e vão continuar
sendo os assuntos mais abordados na imprensa, até o dia em que a
fumacinha branca - ou preta - sair das janelas da Capela Sistina
anunciando a escolha do próximo pontífice. Até lá, a imprensa ainda irá
por muitos caminhos desconhecidos. E tomará também rumos e posições
intrigantes e contraditórios, como foi o caso da cobertura sobre a morte
de João Paulo II.
Enquanto esteve no comando da igreja, o papa conseguiu cultivar o respeito
da imprensa como nenhum outro. Por isso, entre outros motivos, ficou
conhecido como o "papa pop". Nunca por parte da imprensa houve
desrespeito para com o papa. Mesmo porque, além de ser uma autoridade
religiosa, não deixava de ser uma autoridade política - função que,
dado os devidos méritos, exercia muito bem.
Entretanto, o que aconteceu com a imprensa, frente ao falecimento de
Wojtyla foi algo estarrecedor. Parece que o êxtase pelo fato cegou os
jornalistas e, principalmente, os editores e diretores de redação. Nunca
se ouviu tanto o nome do Pai, do Filho e, sobretudo, do Espírito Santo.
E, claro, mencionados com o devido respeito que se deve atribuir, ainda
mais agora que o finado João Paulo foi entronizado nos últimos dias
"junto ao Pai" pelos jornais e revistas.
Dentre todos, o que mais impressionou foi a Folha de S.Paulo. Só
para contextualizar, há um tempo, no caderno de Ciência, a Folha
ridicularizou um encontro de criacionistas em São Paulo. Ao ler o
especial, percebia-se que a referência à Trindade soava pejorativa.
Entretanto, essa "ironia" foi esquecida quando o assunto foi o
papa. Nas matérias feitas sobre a morte do pontífice, o respeito era
tamanho que converteria até Mahatma Gandhi.
Edições santificadas
A edição de 4/4 relata, comoventemente, a emoção do bispo Leonardo
Sandri em saudar a imensa multidão que esperava notícias: "'Jesus,
confio em ti, tenha piedade de nós e do mundo inteiro.' Os aplausos são
prolongados. A missa termina. Mas pouca gente se move." A legenda de
uma foto de João Paulo reflete essa reverência adquirida em tão pouco
tempo, quando dizia que "o papa João Paulo II tem sua veste
levantada pelo vento durante audiência em setembro de 2002, na Praça de
São Pedro, em Roma". A ligação com o sopro do Espírito Santo é
quase automática.
Na mesma semana, foi publicado o testamento espiritual do papa. Na introdução
da matéria, o jornalista esclarece que as partes negritadas foram
escolhidas pela reportagem. Eis o trecho: "O atentado contra a minha
vida em 13/5/1981 confirmou, de muitas maneiras, a exatidão das palavras
escritas no período de exercício espiritual de 1980 (24/2 a 1/3). Sinto
tão profundamente que me encontro nas mãos de Deus - e continuo à
disposição de meu Senhor, confiando-me a ele por intermédio de sua
Imaculada Mãe." "Espero que o Senhor me ajude a reconhecer até
quando devo continuar esse serviço." "Agradeço em especial à
Divina Providência por o período da dita 'guerra fria' se ter encerrado
sem um violento conflito nuclear, um perigo que pesava sobre o mundo no
período precedente." Para finalizar, só faltou a Folha fazer
uma convocação pedindo para que todos seus leitores orassem em favor do
papa e da escolha de seu sucessor.
Implicâncias de lado, o Estadão também retrocedeu na cartilha
"endeusada" por quase cem por cento da classe jornalística: o Manual
de Redação. Títulos como "Esta noite, Cristo abre a porta para
o papa" (2/4); e declarações exaltando a santidade do papa, que
"já vê e toca o Senhor, já se reuniu com o nosso único
Salvador". "Pedimos a Deus que o receba junto de si e lhe dê a
recompensa pelo bem que ele procurou fazer com tanto amor durante a sua
vida", são provas dessa amnésia temporária.
Mas tanta bajulação e falta de ética jornalística também contaminou
as revistas. A Época (4/4) colocou o papa num patamar acima de
Deus: "As evidências disponíveis mostram que Deus pode não ter
contribuído, mas é impossível dissociar a atuação do papa, tanto pública
quanto nos bastidores, da crise que levou o Sindicato Solidariedade ao
poder, pondo fim a 40 anos de comunismo." Já a IstoÉ
resolveu deixar "nas mãos do Espírito Santo" (13/4) a decisão
do novo papa. Ela e todo o resto da imprensa.
Mas, o que dizer em meio a tanta contrariedade? A Constituição
Brasileira defende o direito de todo cidadão professar uma religião,
seita, costume, enfim. Mas, se por uma semana só foi possível ouvir, ver
e ler sobre uma autoridade eclesiástica católica, onde fica o respeito
às pessoas de outros credos? A imprensa tem a função - para não dizer
obrigação - de levar a notícia à população. Notícia que interesse a
toda a população. Claro que a morte de uma personalidade como João
Paulo II merecia, e merece, um maior destaque na mídia, num âmbito
geral. Agora, quando isso ultrapassa o exagero, definitivamente a imprensa
descumpre seu papel social.
Muito aconteceu enquanto a imprensa velava o corpo do papa. Mas, nada que
merecesse destaque. Chacinas, mais corrupção, formação de quadrilha,
novos vírus se manifestando, assassinato em família, enfim, e ela
continuava velando. Mas o que dizer sobre uma imprensa onde os interesses
vigentes são os próprios interesses. Marinilda Carvalho, editora do Observatório
da Imprensa, questiona se o "império à prova de escândalos de
qualquer natureza, dos financeiros aos sexuais, esta poderosa igreja
resiste a tudo, enfrenta a todos, coopta até líderes teoricamente ateus.
Em resumo, atrai as luzes. Então, o que esperar da imprensa?".
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