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Jornalismo científico amarelo 

Wendel Lima 

Estamos acompanhando as mudanças de paradigma da ciência e da divulgação científica. A primeira sofreu forte impacto da corrente ideológica pós-moderna, que acabou com a hegemonia das áreas de exatas e biológicas, e promoveu as ciências humanas - leia-se psicologia, antropologia, sociologia e outras "logias" - ao status de ciência.

A divulgação da ciência, por sua vez, também está em franca transição. As pesquisas que ficavam restritas às universidades e laboratórios, e que eram escritas só para cientista ler, agora ganham inteligibilidade e alcançam a grande massa. 

Analisar a mudança do primeiro paradigma é tarefa para os filósofos da ciência. O segundo, no entanto, compete principalmente aos jornalistas. A popularização do conhecimento é uma das funções mais nobres da imprensa, todavia, o modo como se faz merece sempre ser reavaliado.

O sensacionalismo já é praticado de longa data. Desde então, é utilizado por muitos, e crucificado por outros. Segundo Alessandra Pinto de Carvalho, em sua dissertação A Ciência em Revista: Um Estudo dos casos de Globo Ciência e Superinteressante, o jornalismo científico também apresenta um matiz de sensacionalismo: o almanaquismo. De acordo com ela, é a informação científica que é reduzida ao inusitado ou espetacular. Tal característica é encontrada principalmente nas revistas Superinteressante, Mundo Estranho (da família Super) e a concorrente Galileu, antiga Globo Ciência.

Seria um equívoco desconsiderar a contribuição que esses veículos dão para a popularização da ciência. Afinal, é com muita competência gráfica e editorial que revistas como a Superinteressante estão entre as mais lidas no País. Na opinião de Adriano Silva, ex-diretor de redação da revista, a ciência tem que ser divulgada de maneira atraente: "a gente não deixa essa seriedade atrapalhar o bom-humor, a (auto) ironia, a leveza que uma boa leitura requer", enfatiza Adriano em entrevista ao site da Associação Brasileira de Jornalismo Científico. 

Sensacionalismo científico

No entanto, até que ponto o almanaquismo comprometeria a função social do jornalismo científico? Primeiramente, é importante lembrar que disponibilizar informações não é, necessariamente, oferecer conhecimento. Ainda mais se essas informações são espetacularizadas. O almanaquismo também incorre no risco de deturpar o conceito de ciência. Sendo que o leitor desses periódicos pode associar ciência às bizarrices, ao propagandismo de bens de consumo, aos "micos da tecnologia" ou as curiosidades sobre os dinossauros.

Tal política editorial pode resultar num interesse apenas momentâneo e superficial com pouco apelo a reflexão e ao aprendizado dos leitores. Portanto, um público que já tem uma significativa defasagem escolar, derivada da ineficiência do sistema educacional, também ficaria a ver navios diante do oportunismo econômico da imprensa.

É verdade que o sensacional sempre chamou a atenção. Ainda mais no contexto atual de monopólio visual e hegemonia da sensação. Logo, fazer jornalismo sem esse apelo, parece inviável economicamente. No entanto, nivelar por baixo nunca foi a postura de um jornalismo ético e duradouro. É função do periódico, sobretudo de linha científica, refinar o gosto do público. Afinal, o jornalismo científico serve exatamente para isso: tornar atraente aquilo que a massa não vê graça. 

Por fim, o almanaquismo pode também representar um prejuízo econômico indireto para o Brasil. Para Marcelo Leite, editor de ciência da Folha de S.Paulo, o jornalismo científico deve democratizar o conhecimento não apenas com fins educativos, mas de desenvolvimento financeiro. Marcelo vê nas pautas de ciência uma grande oportunidade de construir uma ponte entre as universidades e a iniciativa privada, atraindo, assim, investimentos para a pesquisa científica. Isso resultaria, a médio ou curto prazo, em produtos e tecnologia consumíveis pelo grande público. Portanto, a espetacularização da ciência roubaria espaço e credibilidade das pesquisas vendáveis.

É certo que breves considerações a respeito de uma especialização tão desafiadora como o jornalismo de ciência não se esgotam com um artigo. Infelizmente, o capitalismo selvagem que assedia as editorias e segmentos mais veteranos do jornalismo, não tem perdoado a novata seção de ciência. Novamente, o conhecimento científico corre o risco de ter seu impacto social minimizado, devido aos interesses econômicos. Corre o risco de se tornar um jornalismo amarelo.