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Ciência
latino-ianque
Delton Unglaub
"Nós oferecemos o que o público deseja". Esta é a "frase-defesa" de um típico poderoso da comunicação que tenta justificar a baixa qualidade cultural de sua programação. Seu objetivo é dizer que o público tem interesse em aprender. Assim, ao ligar a televisão, surfar pela internet e
ao viajar pelas páginas de um jornal, o leitor encontra uma cultura quase
sempre inútil que vende entretenimento em vez de conhecimento. O ser humano nasce com um instinto natural de cientista e pesquisador. Basta observar uma criança encantada com as estrelas. Ou perguntando incessantemente aos pais de onde vieram - a famosa fase dos por quês? Logo, a falta de investimentos na ciência é uma desculpa para gastar menos e ganhar mais.
Em função deste pensamento retrógrado e dominador, o jornalismo científico recebe pouco investimento. A parte triste da história é que ele pode estar em todas as editorias e despertar interesse para assuntos ricos e com grande potencial de popularidade. Quem perde é uma sociedade que, reprimida, deixa de entender o que poderia reivindicar. Por exemplo: ao noticiar e explicar as pesquisas sobre o efeito dos transgênicos no corpo humano, um consumidor ganha a capacidade de escolher o que é melhor para ele.
A ciência se tornou um estereótipo nerd e a intelectualidade virou sinônimo de linguagem rebuscada, complicada e redundante. Por isso, a linguagem se tornou "difícil". Religiosos ao lerem os escritos científicos temeram perder seu poder com as verdades contraditórias.
Curiosamente, a editoria de C&T (Ciência e Tecnologia) adotou uma espécie de código, uma linguagem que somente os cientistas podem entender. Mas isto é outra história!
Cabe ao jornalista científico traduzir trabalhos de interesse público para uma linguagem que este possa entender. Entretanto, encontram-se na atividade jornalística textos, artigos e materiais sobre temas de ciência e tecnologia que não são considerados jornalismo científico, por não possuir princípios jornalísticos. O jornalismo científico não se difere das demais editorias, e, portanto, requer apuração, verificação de dados e compromisso com a verdade.
Desta maneira, a tendência dos veículos é preencher esse espaço com materiais estrangeiros que requerem pouca editoração e são ricos em fotos e dados.
A divulgação científica foi uma das primeiras formas de jornalismo especializado nos Estados Unidos e Europa, e não demorou a chegar no Brasil. Por isso, a influência norte-americana na comunicação pública de ciência e tecnologia se incorporou, provavelmente, mais do que em outros lugares.
Potencial ignorado
Existe um grande potencial na ciência brasileira que poderia ser revertido em lucros. Um exemplo - não-jornalístico - de sucesso foi o programa infantil,
O mundo de Beakman. O programa esclarecia dúvidas sobre temas relacionados com a ciência de maneira descontraída, e, assim, ensinava as crianças - e também os adultos - sobre o "mundo" em que vivem. Um sucesso de audiência que morreu por falta de investimentos. O mesmo acontece com o jornalismo científico. Os avanços conquistados pela ciência no
Brasil ainda não são conhecidos. E a popularização da ciência é descartada porque demandaria um extenso trabalho de divulgação.
O real problema é que falta conhecimento científico por parte dos jornalistas. São poucos os formandos que têm oportunidade de ver no jornalismo científico uma boa possibilidade de desenvolvimento profissional e intelectual. Uma análise mais apurada revela que o jornalismo científico, mais atento à pesquisa produzida no Brasil, necessita no mínimo de uma melhor circulação de informações sobre pesquisas realizadas no território nacional.
Vinte anos atrás as editorias dependiam quase que completamente das agências de notícias para a divulgação de matéria sobre ciência. As revistas internacionais foram a porta de acesso do jornalismo científico do Brasil à pesquisa de qualidade internacional. No entanto, o acesso regular às revistas gerou uma acomodação e distorção desse material, deixando de lado a pesquisa brasileira. A imposição da cultura americana acontece sutilmente no investimento não só de tecnologia e ciência - que muitas vezes é adquirida em países como o Brasil e transformada em ianque - mas, também, por modismos que se inserem por meio de uma forte comunicação mundial. Pouco se fala da pesquisa brasileira por causa do baixo número de fontes de informação profissionais que divulguem a pesquisa nacional. Porém, essa é uma explicação e não uma justificativa.
Para o jornalista científico Marcos Leite, em entrevista ao site ComCiência, a razão de tanta atenção à pesquisa estrangeira na mídia nacional é que os pesquisadores fazem com que as notícias cheguem à mídia. "Eu tenho acesso aos artigos da
Nature e da Science antes de qualquer pesquisador do mundo, porque uma semana antes de sair à revista, elas são mandadas para nós, com telefone e endereço eletrônico de todos os autores, e quando ligamos, esses pesquisadores atendem na hora em 80% das vezes. Com os pesquisadores brasileiros não é assim", lamenta o jornalista.
Fabíola Oliveira, em seu livro Jornalismo Científico (2002), conta que em 1990 as editorias dos grandes jornais se estruturaram e abriram espaço para a produção jornalística nas áreas científica e tecnológica, mesmo que na maioria das vezes privilegiassem material de conteúdo internacional e, sobretudo, de fontes americanas. Na visão da jornalista, esse problema se resolveria com a organização de assessorias de imprensa nas universidades, instituições de pesquisa e agências de fomento à pesquisa para, então, produzirem informativos, jornais e revistas que alimentassem os grandes veículos de comunicação do País.
Outro fator que influencia a valorização do material estrangeiro é a quantidade de pesquisa disponível. Marcos Leite também ressalta que a pesquisa nacional representa menos de 2% da pesquisa mundial, por isso, ele considera que há um enorme destaque para essa pesquisa. "Se eu tiver duas opções na mão, uma nacional e uma internacional, eu vou preferir a nacional, a não ser que a internacional seja muito mais relevante", prioriza Leite.
No passado, uma nação para conquistar e dominar outra dependia da força de seu exército. Hoje, o domínio é cultural. Com o passar do tempo, o poder se concentrou cada vez mais nas mãos dos países que detiveram maior grau de conhecimento, e dos grandes grupos econômicos capazes de produção tecnológica em larga escala. Para mudar um pouco este quadro, a valorização da pesquisa nacional deve contribuir para formar no público - incluindo os empresários - uma visão mais abrangente e completa sobre quais são as instituições e grupos de pesquisa brasileiros capazes de criar soluções de produtividade e qualidade para a economia nacional.
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