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Jornalismo
de jaleco
Márcio Tonetti
Camisa, gravata. Por cima um jaleco branco. Mas
em vez do copo de Béquer ou de Berzelius, caneta, papel, gravador e câmera em mãos. A prática do jornalismo científico se popularizou no Brasil, em especial no século 21, e com uma nobre função: a de democratizar e sociabilizar o conhecimento. Uma tarefa cheia de
glamour, porém complexa.
Investigação acurada e ausência de proselitismo parecem ser termos conhecidos, contudo, pouco praticados por jornalistas que dizem buscar a popularização das descobertas da ciência. Por razões que vão de simples descuido a interesses, sobretudo, comerciais, a imprensa acaba negligenciando um compromisso que é social e, quase sempre, único para com a parcela menos favorecida da sociedade.
Isso se torna mais notável quando se pensa que a informação científica é de difícil acesso e compreensão à população menos instruída.
Nos seus mais de 70 anos dedicados a ciência, dos quais boa parte ao jornalismo, José Reis (1907-2002), conhecido como "amigo da ciência", preocupou-se em desenvolver uma linguagem coloquial que levasse o conhecimento até as camadas menos favorecidas da sociedade. Ele, inclusive, atribuiu essa tarefa não só aos próprios cientistas, mas também aos jornalistas.
Mas a mídia ultimamente não está com um boa imagem neste quesito. Numa análise mais aprofundada, o que se nota costumeiramente é a primazia dos interesses econômicos e
ideológicos que ofuscam a informação que chega até o leitor e estimulam a ausência de ética.
Esta verdade veio a tona, por exemplo, com a batalha judicial em torno da eutanásia de Terri Schiavo, nos Estados Unidos. Enquanto a mídia poderia mostrar a luta constante da medicina em buscar solução para milhares de outras pessoas que também estão em situação vegetativa há anos, se deteve na discussão se Terri tinha ou não direito de viver. Vale lembrar uma observação bem feita na edição de 29/04/05 do Observatório da Imprensa: "A visão obscurecida da política midiática, negou a Terri o direito de morrer, possivelmente um dos únicos que lhe restavam no estado crônico em que se encontrava."
Emocionalismo barato
O que faz o jornalismo científico apreciar a polêmica e o emocionalismo mesmo defronte de casos que envolvem a razão? Ulisses Capozzoli afirma, em texto publicado no
mesmo Observatório, que as razões podem variar da "carência de tempo à falta de espaço, sem falar de superficialidade, por motivos que se estendem da banalização a carência de formação."
No mesma revista eletrônica, Nilson Lage fez duras críticas a uma reportagem da revista
Superinteressante. A matéria de capa, "Aids: o HIV é inocente?"
(12/2000), põe em dúvida a adequação do tratamento da Aids. Segundo Laje, enquanto muitos dos leitores sofreram ao ver contestado o único tratamento sério de que possuíam para controlar os efeitos da doença, na seção "Carta do Editor"
(2/2003), o diretor de redação, Adriano Silva, rejubilava-se com os vultuosos lucros alcançados com a venda: cerca de 106.000 exemplares, só nas bancas.
Um outro caso típico se vê na cobertura dos estudos sobre transgenia. As incertezas sobre esses estudos foram eliminadas do vocabulário da mídia. Além disso, por diversas vezes se tentou estabelecê-la como prática biotecnológica inofensiva - embora já se comprove a existência de alergias provenientes do pólen de plantas transgênicas, entre outros efeitos
colaterais.
E o que dizer da repercussão do embate com células-tronco embrionárias? Os lobbies da imprensa em prol das pesquisas falam por si só. Para o doutor em Fisiologia Vegetal e Biologia Molecular pela USP, Vagner Augusto Benedito, o debate ético esteve ausente. Na edição de 15/5/05 do
Observatório da Imprensa, ele reclama que "nem mesmo o Jornal da
Cultura, tão sério e investigativo", procurou abordar de forma crítica e isenta o razão de existir tantos embriões congelados nas clínicas de fertilização. E criticou o fato da mídia apoiar com unanimidade a utilização de algo que ainda é apenas um experimento.
Para a presidente da Regional Minas Gerais da Sociedade Brasileira de Bioética, Fátima Oliveira, "essa turma com tal DNA (analfabetismo/ignorância científica + mercantilismo), não fala a verdade, além do que emite atestado de ignorância científica e de irresponsabilidade ética."
(Observatório, 15/6/04).
Conduta exemplar
Mas pelo menos uma conduta exemplar do jornalismo científico brasileiro não poderia deixar de ser citada. A série especial "Drogas: a onda química",
que vêm sendo veiculada no
Fantástico, impressiona. Nela, o psiquiatra Jairo Bouer explica as conseqüências de se usar tanto drogas ilícitas como também as lícitas. A análise abordou não só os efeitos da cocaína ou LSD, mas do álcool e do cigarro. Dizer que o tema não está sendo abordado num plano ético foge da verdade, já que outros veículos poderiam assumir uma outra postura protecionista para com os anunciantes.
Este é o caminho. E mesmo que salte aos olhos o fato de a mídia tomar hipóteses como verdades absolutas e procurar a prepotência em assuntos que ultrapassam a compreensão dos próprios especialistas, é preciso cautela. A busca pela precisão também se faz necessária.
Mas é verdade que o jornalismo científico já vestiu o jaleco branco. Falta agora acrescentar à experiência já adquirida uma dose a mais de ética e de responsabilidade social.
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