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Ciência para todos  

Cléia Kattwinkel 


Quem nunca participou, ou pelo menos visitou, uma feira de ciências? Muita gente. Considerando o analfabetismo e a evasão escolar presentes no quadro educacional brasileiro - mesmo camuflados por números que sugerem o desenvolvimento educacional - não é tão difícil conceber a idéia de que muitas pessoas nunca tiveram contato, nem mesmo com a mais simples demonstração científica. Porém, é antagônica e interessante a forma como estas mesmas pessoas estão sob a influência direta das mais variadas ciências, mesmo não tendo plena consciência delas. Neste ponto é que entra em cena o jornalismo científico, que tem como principal objetivo a democratização e popularização da informação científica.

Ao contrário do ideal, o que muitas vezes acontece com o texto de caráter científico é que ele se torna enfadonho e carregado de uma linguagem totalmente técnica. Então, o leitor acaba deixando de buscar conhecimento nessa área e se interessando mais pela área de humanas, com a qual se identifica melhor por fazer mais sentido em seu cotidiano. 

O que a maioria das pessoas não percebe é que a ciência também faz parte de nossas vidas e nos afeta de uma maneira extraordinária e, acredite, direta. Isto fica claro ao considerar os alimentos transgênicos ou o desenvolvimento tecnológico e científico na área da saúde, entre muitas outras coisas. É papel do jornalismo científico mostrar para a população a importância de estar sintonizado no desenvolvimento científico, também no nosso dia-a-dia.

Desenvolver o jornalismo científico é algo desafiador. O jornalista deve estar consciente de que seu dever é funcionar como um mediador entre o cientista que tem o conhecimento e o receptor da informação que pode ser uma pessoa culta ou um semi-analfabeto. Ele funciona quase como um tradutor dos termos técnicos e científicos para um linguajar simples, de forma que todos possam entender, mas que não comprometa a precisão da informação.

Porém, a falta de popularização da prática das ciências nos afeta de forma muito mais ampla. De acordo com Wilson da Costa Bueno, jornalista e professor da USP e da Umesp, os vestibulares têm mostrado o vigoroso declínio na procura pelas áreas tradicionais de ciências como Matemática, Química, Física e Biologia. É claro que este quadro é o reflexo de uma ampla situação educacional que, na maioria dos casos, não proporciona condições favoráveis para que se desenvolva uma educação atraente nestas áreas. Sem motivação para o estudo destas ciências, e não encontrando vantagens na carreira acadêmica, a maioria dos jovens em processo de escolha vocacional "foge" dessas faculdades. Assim, quanto menos alunos nestas faculdades, menos docentes no futuro. Para Bueno, o jornalismo científico é uma boa estratégia para reverter esta situação.

Mas como uma bola de neve, o problema da popularização científica toma maiores proporções ao analisarmos seus efeitos nas relações políticas, econômicas e democráticas do País. Para que o sujeito possa participar de forma ativa na sociedade, é fundamental que esteja bem informado. A partir do momento que o cidadão comum tem consciência dos recursos que estão sendo (ou não) colocados à sua disposição, ele tem condições de participar ativamente das políticas exercidas na sociedade onde vive.

Ciência e democracia

De acordo com o jornalista e professor Manuel Calvo Hernando, hoje é reconhecido, tanto em ciência política quanto em comunicação, que existe uma mútua dependência entre ciência e democracia. Para desenvolver-se, a ciência depende do apoio financeiro e ideológico obtidos por meio da prática democrática na sociedade, e esta depende do desenvolvimento científico para que seja cada vez mais autônoma e, assim, possa dar continuidade a democracia por ela proposta.

Assim como o cidadão consegue maior visibilidade das práticas políticas por meio do conhecimento, quanto maior o desenvolvimento tecnológico e científico de um país, maior será sua independência no cenário político e econômico mundial. Ao importar ciência e tecnologia, o país perde capital que poderia estar sendo usado para o seu próprio desenvolvimento nesta área, o que significaria maior desenvoltura nas relações exteriores. 

O papel do jornalismo científico em todo este processo é trabalhar junto à sociedade como um estímulo, atraindo a população para o conhecimento científico e tecnológico por meio de uma comunicação criativa, fácil e prazerosa. O principal objetivo do jornalista deve ser atingir os diversos níveis da sociedade exercendo o papel de mediador entre o conhecimento e o cidadão.