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Conluios em prol da imprensa

Márcio Tonetti 

A noite havia sido mal dormida. Ficar ou partir? Este ainda era um dilema. Um futuro promissor impelia-o a permanecer onde estava. Por outro lado, era seduzido pelo afeto familiar para que voltasse. Mas na dúvida, partiu.  

Em Notícias do Planalto (1999), Mário Sérgio Conti descreve com detalhes um período crítico na vida de um dos colaboradores da imprensa nacional: Roberto Civita. Indivíduo independente, o filho do ítalo-americano Victor Civita, aos 17 anos já morava sozinho em Houston, Estados Unidos. Frustrado com os estudos em física no Instituto de Tecnologia de Rice, decidiu abandonar tudo e mudar de rumo na vida. Nem mesmo os conselhos de colegas de classe e de professores impediram o decidido rapaz de transferir-se para a Universidade da Pensilvânia, onde cursou Jornalismo e Finanças e Comércio.

Depois de terminar os cursos, foi selecionado para um estágio na Time Inc., e por lá permaneceu por cerca de um ano e meio. "Em dezoito meses de Time Inc., aprendeu mais do que em quatro anos em duas faculdades". ( Notícias do Planalto, p. 152). No final desse tempo, recebeu uma proposta para ser o vice-diretor da empresa no Pacífico. Esse era o motivo da sua depressão. Abandonar um futuro promissor e encarar a realidade de um país onde mal sabia o bê-á-bá? Os resultados da decisão puderam ser vistos ao longo do tempo. "Três décadas depois de responder ao pai, num navio em Santos, o que queria fazer, Roberto Civita tinha a sua Time, Veja, a sua Fortune, Exame, e sua Playboy, Playboy." (Idem, pg. 153)  

Proprietário do Grupo Abril, um dos grandes impérios editoriais do Brasil, Roberto Civita se tornou o responsável pelo prosseguimento das ambições paternas. Mas, o que o torna cidadão emérito no jornalismo brasileiro é o fato de ter sido um dos responsáveis pelas transformações promovidas pela Abril na indústria editorial do País. E, para isso, a experiência americana que adquiriu na juventude, mostra-se contundente. Aliás, apesar de judeus italianizados, foram mínimas as influências européias que os Civita exerceram sobre a imprensa nacional. A razão pode residir no fato de que foram freqüentes as passagens que ambos, pai e filho, fizeram pela América e pelo contato que tiveram com a economia capitalista.  

Mas, falar das mudanças promovidas na base da indústria editorial brasileira sem evidenciar a questão da americanização da imprensa aqui instalada não é prudente. Nesse aspecto, a Editora Abril cumpriu bem o seu papel.  

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, o mundo ficou dividido entre capitalismo e socialismo - URSS e EUA. A imprensa brasileira, aliada aos norte-americanos, ficou responsável em propagar a ideologia capitalista. Porém, grande parte dessa divulgação foi feita pela Abril.

Pato promissor


Na realidade tudo começou com a história de um pato. Em 1942, a Abril obteve os direitos autorais exclusivos sobre as produções Walt Disney. E, oito anos depois chegava às bancas a revista Pato Donald. Devido a um acordo de Victor Civita com a Disney, os títulos em português eram cópias dos originais. Embora infantil, a publicação incutia muito dos valores norte-americanos. 

Contudo, réplica mesmo a Abril viria a reproduzir mais tarde. Desde que decidiu recusar a proposta para se efetivar em Time, Roberto Civita viu nas terras tupiniquins um mercado promissor para implantar o que havia visto durante os cinco anos em que passou nos Estados Unidos. Assim, Veja nasceu como a Time brasileir e Exame, como cópia da Fortune.

Embora para alguns céticos do jornalismo essa americanização objetivou estimular o consumo e ampliar o capital da superpotência, houve profundas transformações no jornalismo brasileiro. 

Teias na imprensa

A imprensa precisava retirar suas teias. Absolutamente rebuscadas boa parte das publicações, em meados do século 20, ainda se espelhavam na literatura francesa do século 19. Além disso, os meios de comunicação sobreviviam de digladeios e ataques pessoais - como os de Samuel Wainer e Carlos Lacerda. Cabe ressaltar, ainda, que essas mudanças se estendem mais a fundo no que diz respeito a maneira como se faz o jornalismo. 

Conforme publicado na edição de abril de 1999 do site Sala de Prensa, "a maneira como se produzia e disseminava a informação jornalística, conferiam um ar de romantismo à atividade". Muitas das publicações passaram a levar em conta não só os interesses próprios, mas também os do leitor - embora não seja possível excluir os interesses comerciais embutidos na questão. 

Foi o que se viu, por exemplo, no projeto gráfico da revista Veja. Uma preocupação com o número de páginas adaptada ao gosto e as condições dos leitores - o número de páginas da revista era em torno de 68 e 70 páginas. Conforme relata Conti, o padrão era adaptado da americana Time que, em pesquisa, constatara que o leitor tem um tempo limitado para ler as reportagens que o interessam. 

Para tanto, a influência ianque sobre a imprensa nacional trouxe consigo a profissionalização do trabalho jornalístico que, antes feito de forma amadora, começava a ser moldado pelas formas americanas. O contraste pode ser percebido se comparado, por exemplo, um exemplar da revista O Cruzeiro, dos Diários Associados de Assis Chateaubriand, com um de Realidade, do Grupo Abril. O trabalho de investigação da notícia, repassado numa linguagem mais compreensível, foi apreciado pelo público leitor. Evidência disto é que, mesmo abaixo de censura imposta à Realidade pelo regime militar, os exemplares se esgotaram antes que fossem levados pelos órgãos censores da ditadura. 

Em artigo no site Sala de Prensa (4/1999), Ricardo Fontes Mendes, explica as reformas feitas na época no jornalismo brasileiro, tanto no que diz respeito à parte gráfica quanto ao conteúdo jornalístico: "Na segunda metade dos anos 70, surge o jornalismo denúncia. Buscando uma identidade com a imprensa investigativa norte-americana, o jornalismo denúncia caminhou nos anos 1980, e principalmente nos anos 1990, para o que hoje é conhecido como Denuncismo: a notícia surgida de uma indignação moral fundamentada até mesmo em boatos sem comprovação.”

Não se pode negar que a parceria da Abril com a imprensa americana facilitou para que aqui fosse implantado o objetivismo moderno e, não obstante o new journalism. Tal fator se mostrou preponderante na democratização da informação e na acessibilidade da notícia à classe menos favorecida. Essa influência funcionalista pode ser percebida até mesmo no ensino de jornalismo no País, onde se põe a prática profissional como a maior necessidade do mercado. Esse caráter não deixa de ser pregado, sobretudo, nas escolas que os próprios veículos consolidaram - a exemplo do Curso Abril de Jornalismo fundado por Roberto Civita em 1994 em parceria com a Escola de Comunicação e Artes (ECA) da USP. 

Cabe ainda enfatizar que o capital estrangeiro também colaborou muito para a implementação de tecnologias no setor editorial brasileiro já que a aquisição de equipamentos dependia em grande parte do apoio externo. O Brasil era parco desses equipamentos que custavam caro. Ademais, a injeção do capital estrangeiro na imprensa nacional para a aquisição de tecnologia pôde ser percebida no escândalo que envolveu a parceria Globo-Time-Life. 

Some-se aos aspectos positivos da influência americana trazidos pela Abril, as transformações observadas na mídia televisiva. De acordo com artigo publicado na revista PJ:BR - Jornalismo Brasileiro, da Escola de Comunicação e Artes da USP, a franquia da MTV negociada com a Abril também "deu um novo visual estético a TV e a internet" brasileira. 

Se soubesse que o empreendimento tomaria tamanha proporção, é bem provável que Roberto Civita teria vindo antes para o Brasil. Quem ganhou foi o jornalismo brasileiro. O espantoso é pensar que tudo isso começou com uma revistinha infantil.