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Americanização
em pauta
Cléia Kattwinkel
As bancas estão lotadas de jornais e revistas. O cliente é servido de todo tipo de literatura, para todos os gostos, idades e níveis
culturais: tem jornal, revista especializada, de fofoca e em quadrinhos. Muitas vezes, a variedade é
tanta que até confunde. Junto com toda esta diversidade de informações, também circula uma corrente ideológica que aos poucos vai moldando o inconsciente social dos leitores. A editora Abril, presente no mercado há mais de cinqüenta anos, tem deixado suas marcas positivas e também negativas na história do desenvolvimento cultural brasileiro.
Italiano de espírito empreendedor, Victor Civita chegou ao Brasil como curioso; gostou tanto, que não voltou nem para buscar a família. Só mandou uma carta para sua esposa Silvana, que estava com os filhos em Nova York, pedindo para que arrumassem as malas e viessem para o Brasil. Começava, em 1950, o que hoje é um dos maiores grupos editoriais do Brasil. Inicialmente, a editora publicava somente as revistas da
Disney e Capricho, que foram o alicerce econômico da Abril. Aos poucos, foram surgindo idéias de novas revistas como
Noturno, Ilusão, Manequim e Quatro Rodas, lançada em 1960.
O surgimento da Abril coincidiu com uma forte mudança nas bases do jornalismo brasileiro. Mas, de acordo com Mauro Litrenta, da
National Geographic no Brasil, "seria afoito dizer que ela iniciou o processo de importação do
amway of life. Antes disso, algumas revistas e jornais já se estruturavam nos formatos internacionais (europeus e americanos), até mesmo nossas radionovelas eram feitas baseando-se em formatos importados".
De acordo com Fernando Lattman-Weltman, "a década de 50 constitui um verdadeiro marco na história da nossa imprensa", pois foi palco da transição da fase do jornalismo literário para o jornalismo empresarial. A jornalista e professora universitária Rosemary Mendez afirma em sua tese de doutorado
que "nesse período, os jornais brasileiros passaram por verdadeiras transformações, primeiro na estrutura administrativa para a organização da empresa comercial, momento crucial para a consolidação da indústria cultural. Em segundo lugar, foram introduzidas inovações técnicas, gráficas e editoriais para uma nova formatação do jornal, em sua aparência gráfica e em seu conteúdo editorial".
Abril decide "fazer" time
A editora Abril, que estava lentamente ganhando espaço jornalístico, investiu justamente neste formato editorial. Com o retorno do filho mais velho do casal Civita, Roberto, depois de ter estudado Jornalismo e Economia na Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, e trabalhado na revista
Time, a editora começou a passar por mudanças estruturais; deixou de ser apenas uma indústria do
entretenimento e passou a investir em material jornalístico. Foi nesta época que surgiu a
Revista Veja, precedida pela Quatro Rodas, com Mino Carta.
A Veja teve como modelo, essencialmente, as revistas americanas Time
e
Newsweek, que a influenciaram especialmente no formato - número de páginas - e estrutura editorial, seguindo as tendências do mercado. Roberto Civita voltou ao Brasil justamente com este projeto em
mente e assim que desembarcou no porto de Santos em 1958, o expôs ao pai. Finalmente, em 1968, consolidou seus planos, embora de uma forma um pouco atrapalhada, pois ninguém sabia exatamente que linha a revista deveria seguir. A
Veja nunca escondeu a influência americana em formato.
A editora Abril estava tão voltada para o crescente jornalismo
empresarial que a postura jornalística do próprio diretor de redação da
Veja passou a ser mal vista pelos donos da empresa. Mario Sergio Conti, em
Notícias do Planalto, conta que "Victor Civita era mais empresário do que jornalista. Gostava de estar bem com todo mundo, inclusive com o governo". Foi isto que levou Mino Carta a sair da Abril, porque sua linha editorial já não condizia com as expectativas de Victor Civita. Este, segundo Conti, "não encarava a necessidade de independência editorial como um princípio jornalístico". Estava mais preocupado com o crescimento do seu patrimônio, com a construção dos Hotéis Quatro Rodas.
Pompeu traz novas tendências
Pompeu de Sousa, um dos principais responsáveis pela introdução da cultura jornalística americana no País, também esteve ligado à editora
Abril de 1968 até 1979, como um dos diretores da empresa. Ele foi um dos responsáveis pela introdução do lead, equipe de
copydesk e texto jornalístico mais dinâmico e objetivo na imprensa brasileira, tendência que deixou pouco espaço para os artigos e jornalismo opinativo. Segundo Rosemary Mendez, "a imprensa brasileira foi aos
poucos deixando de lado sua herança européia, principalmente francesa, do jornalismo de combate, de crítica, de doutrina e de opinião. Passou a priorizar a linguagem objetiva, dinâmica e informativa, tentando separá-la da opinião do autor da notícia".
Esta influência americana empobreceu o jornalismo brasileiro. Esta estrutura limitou a discussão em torno das políticas praticadas no nosso País. Unicamente com o objetivo de informar, a imprensa brasileira hoje pouco contribui para a formação crítica de seus leitores. Ao implantar o formato americano no jornalismo brasileiro, tendo como objetivo único a obtenção de maiores lucros, os empresários - neste caso,
lê-se especialmente editora Abril - ignoraram a realidade do País, que tem passado por profundas crises econômicas, políticas e, principalmente, sociais.
"Se é americano, é bom"
Na prática, a americanização da nossa cultura se deu por meio de impressos, da divulgação de músicas e filmes americanos, entre outros. As revistas em quadrinhos, como
Pato Donald e X-Men, por exemplo, trazem heróis que sempre apresentam uma boa solução para tudo. Outro exemplo da predominância americana é
National Geographic, que apesar de oferecer uma edição brasileira, tem pelo menos 80% das suas páginas preenchidas por artigos que nada têm em comum com a nossa cultura, sendo que temos um País rico em recursos naturais e culturais, mas totalmente desconhecido pelo seu próprio dono, o brasileiro.
Ciente dos perigos desta tendência, Genival Rabelo, já em 1966, escreveu em
Brasil Semanal que este era um processo de alienação da consciência brasileira que conduzia o povo a admitir que a "solução está nos Estados Unidos". Hoje, senão acreditamos que a solução está lá, pelo menos acreditamos que tudo que vem do continente norte-americano é melhor. A desvalorização da nossa cultura e a perda de nossa identidade é a herança que recebemos de impérios culturais, como a editora Abril, construídos a custa de nossa desinformação e descaracterização como povo brasileiro.
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