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Porta-voz
do consumismo
Wendel Lima
Pensar na relação entre mídia e adolescência é deduzir palavras como alienação, hipnotismo, exploração e consumismo. É verdade que muitos costumam ser extremistas, demonizando a comunicação. A mídia tem sua parcela de culpa, é verdade, mas não pode ser condenada sozinha. Se ela tem tanta influência é porque se vale de lacunas sociais.
Inúmeras pesquisas apontam que os adolescentes se expõem em demasia aos meios de comunicação.
Só diante da TV são de três a cinco horas diárias. Tempo muito superior ao passado no convívio
familiar e, em alguns casos, maior do que os jovens passam na escola. Logo, percebe-se o impacto da mídia na formação
da opinião adolescente.
Formadora de opinião
Esse papel formativo da mídia e da própria imprensa segmentada para os
jovens é mais forte na adolescência, por ser esse o período da busca da identidade.
Essa é a fase da vida em que todos os valores até ali transmitidos, sobretudo pela família, são
questionados para depois serem ou não aceitos novamente.
Na adolescência, os sistemas hierárquicos tendem a ser rejeitados. Os grupos de
amigos ganham força. A mídia também se torna mais atrativa. Existe uma pretensa liberdade na relação entre receptor e emissor. Nessa busca de referenciais, de paradigmas, os adolescentes tornam-se suscetíveis às impressões midiáticas.
Pior, os pais reforçam indiretamente o apelo consumista da mídia. Primeiro, sob a bonita pretensão de trazerem mais conforto para casa, esgotam saúde, paciência e tempo na corrida atrás de um salário maior, para um consumo maior. É a
incoerência: pais pós-graduados deixando os filhos serem educados e guiados por uma mídia, na maioria, analfabeta de valores. Quando envolvidos nessa rotina enlouquecedora do cotidiano, percebem a própria ausência e procuram compensar novamente com o consumismo dando presentes aos filhos. Desde cedo, os adolescentes aprendem, dentro e fora de casa, que o sucesso na vida está, intrinsecamente, ligado ao consumo.
Caminho sem volta
Essa questão do consumismo precisa ser vista de um prisma maior. Existem não só razões econômicas, mas ideológicas para vivermos numa era do consumo. A evidência econômica mais lógica dessa tendência é o estágio que o capitalismo atingiu. Com a globalização, os mercados se tornaram universais a ponto de abrangerem boa parte da população global, ou segmentado, chegando a representar apenas um grupo etário, étnico ou religioso.
Já no campo da ideologia, temos aí o complexo pensamento pós-moderno, que não por coincidência, nasce e cresce junto com a mídia de massa. Dentre as muitas implicações desse paradigma filosófico estão a falência das instituições e dos absolutos, o imediatismo, o individualismo e a busca pelo prazer.
Servido dessas características mais que marcantes do homem contemporâneo, o capitalismo tem na mídia o grande potencializador do consumo, fazendo com que a aquisição de bens e serviços venham preencher os anseios da sociedade pós-moderna.
Imaginar um consumismo em escala mundial seria impossível sem o uso da comunicação de massa. É por meio do imediatismo do apelo visual midiático que receptores, sobretudo adolescentes, idealizam como num espelho uma vida que gostariam de ter.
Mudar tal situação é improvável. Esse é um processo irreversível. Pois a comunicação, agora, garante a estabilidade do sistema. O que se pode fazer é ensinar a atual
geração ( e, conseqüentemente, as futuras) a lidarem com isso, posicionando-se criticamente diante de tantos apelos. Na medida do possível, educar os
adolescentes minimizaria os efeitos nefastos do capitalismo selvagem.
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