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Adolescência americanizada   

Lêda Maria  

Na música, Backstreet Boys. Na moda, jeans. No passatempo, shopping centers. Na hora do lanche, fast food. No cinema, Hollywood. E no vocabulário, o "portinglês". Assim, o adolescente busca o glamour e a "superioridade" da cultura americana. O interessante é ler a turma do Mickey, conhecer a Disney e comemorar o Dia das Bruxas, mas no nome original: Halloween.

A globalização tem se mostrado um tanto contraditória. Ao olhar superficialmente, a expansão do consumo e a invasão dos mesmos produtos em lugares diferentes e distantes podem dar a impressão que o mundo será algum dia uma aldeia global e as pessoas vão se comportar da mesma forma. Mas, analisando bem, vê-se que a enxurrada de informações vindas de todos os lados faz apenas com que as diferenças entre as culturas fiquem mais evidentes. Daí pergunta-se: como pode o adolescente brasileiro receber o mesmo conteúdo que o jovem americano, se vivem em cultura, economia e educação totalmente diferentes? 

Os jovens no Brasil e nos Estados Unidos, apesar de compartilharem muitas preocupações e desejos, são diferentes por motivos que vão além do refrigerante ou da música que consomem. A raiz de suas culturas e de seus valores é diferente. No Brasil, por exemplo, as diferenças regionais e econômicas fazem com que um adolescente que tenha nascido e crescido no interior do Maranhão tenha uma vida completamente diferente de um criado no Rio de Janeiro. 

Fazer uma cópia do que a indústria norte-americana produz para os seus adolescentes e impor esse estilo aos jovens brasileiros chega a ser uma desonra à pátria materna. Essa imposição mortifica o folclore, as lendas, os mitos, a música e até a linguagem característica do País. Infelizmente, a imprensa brasileira abusa de vangloriar os "vizinhos" americanos quando deveria divulgar e incentivar os costumes regionais do Brasil. É comum, e até corriqueiro, ver novelas, seriados e até reportagens que enobrecem os valores estadunidenses acendendo o brilho nos olhos daqueles que são o futuro da nossa nação. 

Download, personagem de Wagner Santisteban em Malhação, é um exemplo do que a televisão tem tentado implantar na mente dos jovens. Ele é um "amante da informática e antenado em tudo o que é moderno". É aquele tipo que fala muito, escreve muito e-mail e está sempre ligado. Típico modelo da juventude americana. Um estilo que é o sonho de qualquer adolescente. Em Malhação, a celebração da filosofia americana não está presente apenas nos personagens, mas na música e nas expressões - nada diferente do restante da televisão brasileira. 

O que esses propagadores da cultura estadunidense parecem ignorar é o fato de que a vida de um adolescente americano é cercada de facilidades proporcionadas por uma sociedade muito industrializada, com tecnologia avançada e maior poder econômico. Uma rotina bem diferente da vivida pela maioria dos jovens brasileiros. E quando a novela acaba, e os jovens se dão conta que ainda moram num País onde apenas 8% da população tem acesso a internet e mais de 20 milhões de pessoas passam fome, aí a decepção é grande. Uma frustração que não leva o jovem a reivindicar um País melhor e trabalhar para que isso aconteça, mas sim a odiar e desprezar a cultura local.

Algo positivo que os brasileiros deveriam aprender nesse processo de americanização é a forma como os adolescentes americanos são educados para serem independentes. Nos Estados Unidos, os adolescentes são incentivados desde cedo a realizar algum trabalho para receber seu próprio dinheiro. É comum encontrar garotos e garotas trabalhando em lanchonetes e escritórios. Para eles, trabalhar não é vergonha, mas sim um sinal de que são suficientemente responsáveis.

Isso gera consciência, pois esses adolescentes sabem que a independência tem um preço e que exige deles atitudes positivas, pois se cometerem erros, mesmo os mais comuns nessa idade, como cometer infrações de trânsito ou se exceder em festas, eles sabem que têm de assumir integralmente as conseqüências desses atos. Fossem os jovens brasileiros contaminados com essa idéia, o resultado seria crescimento e desenvolvimento para o nosso País. Não que os nossos jovens não sejam responsáveis, grande parte deles trabalham desde cedo, mas se fosse transmitido que nem tudo vem de "graça", ajudaria muito na formação profissional e pessoal deles. 

Mas de forma geral, a americanização resulta apenas numa maior desvalorização de nossa cultura. E quando se trata dos adolescentes é mais preocupante, pois são eles que mais tarde vão empunhar a liderança do País e preservar a identidade nacional. A mídia como um todo precisa lutar pela valorização dos nossos costumes, divulgá-los e promover a pátria. Só assim teremos uma juventude mais "brasileira", com meninos e meninas verdadeiramente apaixonados pelo nosso Brasil.