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Jornalismo shakespeariano

Rômulo Gomes 

No teatro, o século 16 é lembrado pela aparição de um gênio, que de várias formas perdura até hoje. Desde 1590, as pessoas vão ao teatro para assistir as peças de William Shakespeare. Apesar de ter escrito romances e até comédias, o principal enredo de suas peças é a tragédia. Romeu e Julieta, Hamlet e MacBeth, são alguns exemplos das obras mais conhecidas deste autor. Entretanto, este gênero parece ter migrado para outros veículos de comunicação de massa. Neste caso, tome-se como exemplo, o jornalismo ambiental.

O gênero teatral da tragédia shakespeariana era marcado pela ficção, apesar de ter escrito peças com histórias e personagens reais, como MacBeth. Esta, conta a história da ascensão ao poder de um monarca, homônimo à obra, na Escócia. Personagens, lugares e datas eram verdadeiros, mas o resto ficava por conta das lendas e da imaginação do autor. A tragédia da informação, contudo, é um pouco mais complexa e surgiu de forma diferente do modelo teatral.

Já o modelo conhecido como jornalismo ambiental tem suas origens no jornalismo científico. É tido como referência no campo da ciência para transmitir e explicar novos métodos e soluções para o desenvolvimento sustentável do meio ambiente juntamente com negócios, lazer e afins. Entretanto, o que foi dito como migração do gênero teatral para o jornalismo parece estar acontecendo neste estilo jornalístico.

As notícias referentes aos ecossistemas e seus fenômenos têm ganhado relevância nos últimos anos, já que está em voga a preocupação com a natureza. Neste ínterim, além da divulgação científica, estão abarcados os fenômenos naturais como parte do enredo do gênero jornalístico. O suspense trágico se esconde aí.

A cobertura de acidentes naturais causados ou não pelo homem tem ganhado uma força quase literária na forma como é divulgada. E, neste caso, uma forma sensacionalista, como se tudo fosse um caos natural. É o que se presenciou durante a divulgação do tsunami na Ásia. O fato foi noticiado desde 19 de dezembro do ano passado, até meados de janeiro. A ênfase dada ao número de mortos e a preocupação com os desabrigados foi preponderante. Apesar de correta, a preocupação, aparentemente humanista, preocupava-se basicamente com atualização dos dados de mortos e feridos e, vez ou outra, fazia marketing pessoal de alguma celebridade disposta a se promover junto com a tragédia. Um desastre duplo.

Manchetes internacionais como a da BBC, "Total de mortos por tsunami salta para 220 mil", ou mesmo tupiniquins como da Folha de S.Paulo: "Número de mortos em tsunami atinge 156 mil e socorro mundial prossegue", foram freqüentes naquele período.

O que se vê nesses veículos é que, ao noticiar o meio ambiente, a preponderância é por aquilo que vende e não pelo útil. De acordo com a assessora de imprensa Eliana de Souza Lima, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, a Embrapa, a cobertura ambiental não é muito ampla. Para ela, "os jornais noticiam que falta água, existe ausência de chuvas há meses, mas não mostram o desperdício da lavagem diária de calçadas e de carros nos lava-rápidos e postos de gasolina". É possível perceber uma ponta desse sensacionalismo em aspectos simples do jornalismo.

Razão versus emoção

A última enchente que houve em São Paulo foi, por exemplo, a pior em 22 anos. Um desastre que tem o dedo do homem em sua totalidade. Mas a divulgação priorizava dados e não causas. O que se vê, conforme a citação anterior de Eliana, é que as causas são "esquecidas" pelos jornalistas. Enquanto no site do Fantástico (28/5), lê-se como título de uma reportagem "O dia em que São Paulo parou", e outras histórias de tristeza a apelo emocional, no Estado de S.Paulo, (24/5), as manchetes foram: "Pelo menos 20 bairros de Osasco estão inundados"; "Chuva em São Paulo é a maior em 22 anos, diz governo"; "Chuva causa cinco mortes no Estado de SP"; "Chuva provoca desabamentos e atrasos de ônibus e metrô"; "Trânsito em São Paulo está parado"; "Cabeceira de ponte afunda na BR-116"; "Expectativa de manhã caótica no tráfego da capital"; "São Paulo vive madrugada de caos por causa da chuva". É estranho notar que nenhuma delas trouxe o parecer de origem da enchente que foi a maior em duas décadas.

A emoção parece estar mais ligada com a informação do que a razão. De acordo com a jornalista Liana John, especializada em ciência e meio ambiente há 20 anos, a preocupação principal deveria ser com a ciência. Daí a ligação com o jornalismo científico. Ela menciona que o Brasil teve dois momentos no jornalismo ambiental. No primeiro, os jornalistas eram "mais militantes e lidavam com as denúncias, refletindo a necessária agressividade de um movimento ambientalista emergente". Isso prevaleceu nos anos 70 até início de 80. Depois, "sem deixar de fazer as denúncias, optou mais claramente por uma aproximação com a ciência", confirma Liana. 

Neste caso, a semelhança com o jornalismo científico se justifica porque "termos e conceitos novos aparecem e desaparecem e o jornalista tem a obrigação de traduzir o linguajar técnico dos especialistas para um português mais acessível", explica Liana. "Se ele não trabalha com as ferramentas do jornalismo científico, se nem entende o linguajar técnico dos especialistas, como vai fazer essa tradução?", interroga. 

O que parece acontecer de fato é uma ligação perigosa com o jornalismo que vende sensacionalismo. E nesse contexto, não é só o jornalismo que anda na berlinda, mas outras produções como a cinematográfica. 

Quem não percebeu o aumento de filmes que tratam da temática ambiental com fortes apelos imagéticos? Pode parecer exagero generalizar essa percepção, mas de fato aconteceu. Quer o público entenda ou não. Com a sofisticação da cinematografia e o poder e imagens nunca antes produzidas, foi possível criar um universo mágico e caótico ao mesmo tempo. Por um lado fica-se ludibriado com as cenas nunca vistas como uma enchente destruindo os Estados Unidos, presente no filme Impacto Profundo, e depois preocupado com a possibilidade de um meteoro cair realmente na Terra.

Noutro, vê-se a fúria de um vulcão destruindo uma ilha, com todos os seus detalhes onde quem assiste, quase sente o rosto transpirar com o calor, tamanha é a veracidade das cenas do filme Volcano. São muitos os exemplos em que isso ocorre.

Um dos poucos que ainda tratam da consciência e das causas desses eventos é o filme O Dia Depois de Amanhã (leia a resenha) que tem um enredo inicialmente político e faz menção ao Tratado de Kyoto, inclusive mencionando a oposição do vice-presidente dos Estados Unidos, conforme aconteceu.

Mas a preocupação está contida na espetacularização do tema. Mostrar o assunto como entretenimento não gera uma reflexão profunda. A menos que aqueles que assistem ou lêem, tenham uma mente tão associativa quanto a de uma criança de 5 anos. Infelizmente, os adultos têm que ser mais racionais e menos fantasiosos para entender um problema e tentar resolvê-lo.

Mostrar tudo isso de uma forma trágica não parece ser a melhor maneira. A vida pode ser um teatro para muitos, mas representar um papel inverossímil da natureza não é o caminho mais correto. Uma categoria jornalística ou mesmo de entretenimento, como o cinema, não deveria tornar tudo tão trágico só por que atrai mais (leia-se vende mais). Não é porque as pessoas gostam do gênero shakespeariano que elas vão comprar um jornal. Cada um tem suas peculiaridades.