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Os transgênicos no trato da imprensa

Márcio Tonetti 

Quem poderia dizer que um dia a ciência fosse capaz de criar novas formas de vida a partir de combinações genéticas? Mas há alguns anos que isso deixou de ser ficção e virou realidade. Já em 1990 o ficção-científica "O Parque dos Dinossauros", de Michael Crichton, criticava os perigos da engenharia genética.

Ao mesmo tempo em que surpreende, a questão dos OGMs (Organismos Geneticamente Modificados) provoca medo, muito embora esteja nos carrinhos de supermercado e em boa parte das refeições. Para alguns, os transgênicos são motivos de histeria.

Já faz algum tempo que os transgênicos deixaram de ser pauta apenas no jornalismo rural. No Brasil, o tema agora está em alta, face à aprovação da nova Lei de Biossegurança deferida pelo governo Lula - lei que regulamenta o plantio e a comercialização de produtos geneticamente modificados. Mas, o receio social em torno das transformações genéticas ainda existe. São brasas nas mãos da imprensa que, aliás, acaba se condenando em certas situações, devido ao que veicula - que o diga o Jornal do Brasil

Cabe aqui citar um episódio, por sinal debatido no Observatório da Imprensa na edição de (05/10/98). Diante de uma decisão tomada na época pelo governo Lula em que, aceitava-se a discussão das mudanças na Lei de Biossegurança para dar a CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança) o poder de licenciar a comercialização de produtos alterados geneticamente, o jornalista Ricardo Boechat, em sua coluna no Jornal do Brasil (3/6/04), afirmou que os ambientalistas do PT iriam "urrar de tristeza" diante de tal decisão. Uma declaração deplorável, levando-se em conta o lado ético da classe que exige a não-tendenciosidade e a ausência de proselitismo na profissão. 

Na realidade, o pronunciamento da mídia tem girado em torno de duas posições básicas: dos supostos danos que os alimentos alterados geneticamente podem trazer às pessoas e ao meio ambiente; ou de possíveis contribuições que, acreditam os cientistas, a engenharia genética trará à saúde do ser humano. 

Faltam cobranças 

O que estaria faltando na cobertura da imprensa? Durante debate no programa Observatório da Imprensa na TVEBrasil (23/09/03), o jornalista científico, Cláudio Cordovil, argumentou que a classe jornalística está cobrando pouco da ciência no que diz respeito aos transgênicos. "É necessário que os jornalistas interpelem os cientistas sobre quais são os limites do conhecimento científico com relação aos transgênicos nesse momento. Há uma série de questões de saúde e ambientais que não foram equacionadas ainda. Os estudos são inconclusivos, o que é sinal de que eles são escassos, e a sociedade deve cobrar isso".

A imprensa não pode tornar a ciência um espetáculo e se render diante de cada fato novo revelado nos laboratórios. Uma das premissas básicas do jornalismo, um dever profissional e também ético - por que não?- é "duvidar de tudo". Afinal, o que faz com que os certos tipos de "Frankenfoods", termo pejorativo utilizado pelos japoneses para definir os alimentos transgênicos, não façam parte da dieta nem de animais na Europa?

Entretanto, a apuração de informações não é o ponto forte de alguns veículos de comunicação. Conjunções adversativas como "mas e embora", estão sempre em evidência quando tratam de defender supostas comprovações da sanidade dos transgênicos, muitas vezes emitidas pelas próprias empresas detentoras da patente dessas pesquisas - a exemplo da Monsanto, proprietária da patente da soja Roundup Ready e precursora em pesquisas com sementes modificadas geneticamente-, e nunca por órgãos ligados a proteção ambiental. 

Para começar, o assunto já foi mal tratado pela imprensa desde os anos de neoliberalismo do governo FHC. Uma dissertação apresentada no Seminário Ameaça dos transgênicos: propostas da sociedade civil, realizado em Brasília entre os dias 18 e 20 de março de 2003, deixa claro essa questão. De acordo com a publicação, a lei de Biossegurança foi regulamentada por FHC em 1996 de forma duvidosa. 

No texto é dito que "a CTNBio foi criada a partir de um decreto que não estava ancorado em lei." E ainda que, "esta comissão foi alojada no Ministério de Ciência e Tecnologia (em vez do Ministério do Meio Ambiente, como costuma acontecer nos outros países) foi composta por representantes do governo e cientistas, quase todos declaradamente favoráveis à rápida liberação dos transgênicos no Brasil" (www.aspta.org.br ). Pouco foi divulgado a respeito nos veículos de comunicação. 

Já, em compensação, a população não está engolindo a promoção dos OGMs colocada pela mídia. Cabe lembrar dos lobbies promovidos por agricultores do norte do Paraná em protesto aos comerciais da multinacional Monsanto veiculados nas principais redes de TV do País. 

Prós e contras

Segundo afirma ainda no Observatório da Imprensa (05/10/98), a médica Fátima Oliveira, autora de vários livros sobre engenharia genética, "frases com o teor 'embora nada indique que produtos transgênicos façam mal à saúde' (...), constituem um desserviço à cidadania, pois além de não dizerem a verdade representam típica peça publicitária". No mesmo texto, ela cita uma matéria publicada no Estado de S. Paulo (03/08/03) para embasar sua argumentação: "Os transgênicos foram cercados de tal suspeita que, apesar de não haver nenhuma (grifo nosso) prova de efeitos nocivos, a rotulagem pode ser a única saída para sua aprovação, dizem os especialistas."

Fátima cita ainda o que, segundo ela, seria uma outra tendenciosidade descarada da imprensa. A matéria publicada pela Folha de S.Paulo (17/5/2004) divulga um relatório emitido pela FAO (Food and Agriculture Organization), órgão das Nações Unidas para alimentos e agricultura, no qual se defende que "a biotecnologia só não traz mais benefícios porque ainda não se disseminou suficientemente nos países pobres". O relatório exposto na Folha de S. Paulo continua dizendo que "os OGMs (Organismos Geneticamente Modificados) já ajudaram economicamente pequenos fazendeiros que apresentaram ganhos ambientais com a redução do uso de pesticidas e herbicidas tóxicos, e não demonstraram efeitos nocivos à saúde."
 
No entanto, se o que foi publicado na última reportagem de capa da revista Globo Rural (abril/2005) for verdadeiro, esse relatório propagado pela Folha vai por água abaixo. A matéria de capa "Transgênicos: enfim aprovados" revela que, ao contrário do que muitos pesquisadores pregam, as sementes transgênicas provaram desenvolver plantas mais resistentes aos agrotóxicos e que os agricultores americanos estão aplicando mais herbicidas nas cultivares transgênicas do que nas lavouras convencionais, e não o contrário. Novamente faltou questionar a proveniência da informação e a validade da mesma.
 
Por outro lado, convêm analisar que falar sobre ciência, muitas vezes, é complexo até mesmo para profissionais da área. Para o jornalista, então, é preciso muito mais sensibilidade e atenção.
 
Mas admitir que a mídia está agindo ingenuamente nesse caso é um ledo engano. Evidentemente, ela tem a sua parcela de interesse nisso. E, como toda indústria capitalista, não tem como se desvencilhar do fator economia. A sobrevivência da mídia depende quase que exclusivamente dos anúncios publicitários. Em Dependência ou morte - A questão da independência na imprensa: o caso República, a jornalista Vera Lúcia Rodrigues, deixa claro que a independência da imprensa dentro da sociedade capitalista é condicionada pela disponibilidade de capital financeiro, em grande parte gerado pela publicidade.
 
Boas atitudes

Apesar de tudo, alguns veículos de comunicação provam que sabem usar a ética e a responsabilidade social, conquanto considerem o legado de formadores de opinião conferido a eles. Cabe dar às devidas ressalvas aos debates sobre o tema promovidos pelo Observatório da Imprensa tanto na TV como na internet. Afinal, já é hora de a imprensa quebrar o tabu de vilã nessa história. Para isso, o repórter do Estadão, Herton Escobar, propõe algo sugestivo:

"Este é um tema que envolve muitos aspectos do ponto de vista ambiental, de saúde e de política, além de exigir uma cobertura diária e contínua. Por isso, é importante que se ouça todos os lados. Mas que se tenha em mente que em ambos os lados existem exageros. A maior dificuldade para o jornalista é receber uma enxurrada de informações bastante complexas, filtrar e conseguir ver o que é um fato e o que não é." (Observatório TVEBrasil 23/09/03)

A mídia precisa rever muitos de seus conceitos e agir, sim, com mais profissionalismo. O jornalismo não pode servir de assessoria a engenharia genética e, tampouco, fazer da questão dos transgênicos uma Montanha dos Sete Abutres (filme dirigido por Billy Wilder em 1951).
 
Os paradigmas em relação à transgenia precisam ser quebrados. Mas o que a imprensa não pode fazer é tomar atitudes extremistas contra a biotecnologia. Muito menos ambientalistas fanáticos devem se comportar dessa maneira. Isso dificulta a obtenção de novos conhecimentos na área.

Se os estudos com os transgênicos se tornarem um "Frankenstein" na sociedade, provavelmente a ciência brasileira vai emperrar, e o País corre o risco de desperdiçar uma grande descoberta. Aí, não adianta a mídia alterar o comportamento.