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A máxima jornalística

Marina Teles*

"Se amanhã desaparecesse a girafa, a zebra, o hipopótamo ou a baleia, isto seria manchete em todos os jornais do mundo. No entanto, cada vez que se derruba uma grande área da floresta Amazônica, desaparecem dezenas, talvez centenas de espécies de animais e plantas menores. São insetos, aranhas, pequenos invertebrados, pássaros, répteis e mesmo pequenos mamíferos que desaparecem para sempre".

Este texto do jornalista Ney Gastal foi escrito logo após a morte de Chico Mendes, mas reflete com precisão o comportamento da mídia, ainda hoje, no que diz respeito às questões ambientais.

Tragédia vende jornal e polêmica também. Que os Estados Unidos têm interesse na Amazônia, não é mentira ou teoria da conspiração. É um fato simples de ser justificável: para evoluir, os chamados países de Primeiro Mundo destruíram aproximadamente 90% de suas reservas florestais. Isso não é mais segredo e são números que a mídia adora divulgar. De toda a água que cobre a Terra, apenas 2% é água doce, ou seja, água potável. Desse número, 60% está na Amazônia (Época, 02/04/01).

Somando todos os rios do mundo, 20% se encontram na região amazônica (Fonte: www.comciencia.br ). Fora isso, estima-se que no subsolo da floresta exista um trilhão de dólares em minérios como ouro, platina, diamante, ferro e chumbo (Veja, 20/10/99). Motivos para interesse em nosso território não faltam. O que falta é uma imprensa que não divulgue apenas o exótico, o verde, os bichos, que não se preocupe apenas com a tiragem, o dinheiro no final do mês, as férias no litoral. Mas que se comprometa, que busque.

Na época em que Chico Mendes militava em favor dos seringueiros defendendo a floresta era de se entender porque a mídia não abordava o assunto, pois o País ainda estava sob a ditadura militar. Mas, dezesseis anos depois, a missionária Dorothy Stang é assassinada por motivos semelhantes. Isso só prova que violência, assassinatos, grilagem de terras, trabalho escravo e destruição continuam assolando a região amazônica.

Reportagem veiculada no site do Greenpeace diz que "a comoção mundial e a mobilização popular em torno do caso foram fundamentais para que as autoridades finalmente adotassem atitudes mais efetivas para proteger a Amazônia e garantir a segurança de seus habitantes". E a imprensa, onde estava nisso tudo? Depois das mortes ela aparece com imagens, fotos, estatísticas, números do desmatamento.

De acordo a mesma matéria, a irmã Dorothy vivia há mais de 30 anos na região da Transamazônica. Dedicou quase metade de sua vida para dar voz às comunidades rurais, defendendo o direito a terra e lutando por um modelo de desenvolvimento sem destruição da floresta. Tentava, de maneira incansável, que o Estado se fizesse presente em regiões remotas da Amazônia. Dorothy geraria muito mais matérias, se continuasse viva, do que gerou após seu assassinato.

Se envolver em matérias desse tipo coloca em risco a vida de jornalistas. Mas hoje é possível conseguir apoio por meio de ONGs e até mesmo - por incrível que pareça - do próprio governo. Não estamos mais num regime militar, não estamos mais sob censura. No entanto, criamos um limite, uma autocensura quando o assunto é denúncia. 

Na verdade, a questão é mais complexa do que isso. O tempo urge e, hoje, tempo é dinheiro mais do que em qualquer outra época da nossa história. Ainda mais com a internet e os jornais online. Qualquer informação de assessoria, desde que não descaradamente tendenciosa, é veiculada e, de preferência, fragmentada. De minuto em minuto.

Uma cobertura que exija tempo, e que ofereça riscos, não é interessante para o jornal, para uma empresa ou qualquer outro veículo de informação que seja. Se pelo menos a floresta amazônica e a irmã Dorothy tivessem uma assessoria de imprensa, muitas coisas seriam diferentes.

Uma idéia absurda, talvez. Mas vamos analisar a cobertura feita pela imprensa sobre a ALCA (Área de Livre Comércio das Américas). Desde o começo, a população olhou com maus olhos esta iniciativa. E com razão. Os movimentos contra a ALCA divulgam muito mais a sua opinião do que esclarece os diários. A mídia faz a sua parte divulgando a negociação, mas não há uma discussão constante. Isso seria difícil de se manter nos jornais impressos. Mas na internet seria mais fácil, bastava criar na página do jornal as matérias e artigos publicados sobre o tema, separadas em um link sobre o assunto. Não só sobre a ALCA, mas sobre os assuntos atuais. É algo para pensar.

O importante é não deixar que a discussão termine na manhã seguinte e se perca em uma página com fotos lindas de pássaros, ursos, índios e mata virgem. Que as reais intenções sejam divulgadas, que se especule, fomente e que apure. Que se perca tempo em matérias mais elaboradas, em edições especiais. Que os olhos dos jornalistas enxerguem mais do que o que está determinado na pauta. Enfim, que se faça um jornalismo ambiental.

*Marina Teles é estudante do 4.º ano de Jornalismo, na Universidade Santa Cecília, Santos-SP.