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"Mensalão". E daí?

Wendel Lima 

O jornalismo político brasileiro, em geral, ainda engatinha. A cobertura da crise do governo, nos últimos três meses, confirma o diagnóstico. Tal panorama também tem raízes históricas e culturais que conspiram para que a imprensa, principal formadora de opinião na sociedade atual, não cumpra com o seu papel na consolidação da democracia brasileira. 

Como legado de uma colonização de exploração, herdamos uma república tardia e uma democracia ainda mais recente. A cultura pós-moderna também não colabora. Uma sociedade que anseia o prático, o individual, o prazer e o hoje, não é atraída por discussões políticas de cunho filosófico e histórico - discussões essas que podem mudar estruturas. Não temos uma juventude engajada em ideais "revolucionários" como os nazistas, fascistas e comunistas. Não que concorde com as ideologias citadas, mas o fato é que são raros os grupos ou indivíduos desprendidos de uma rotina alienada e consumista, dispostos a lutar por uma "causa" - seja ela qual for. A consciência política está ligada ao pragmatismo do benefício individual em detrimento do coletivo.

Além do mais, esse quadro de descrédito nas ideologias e na transformação do status quo, acentua-se em um país onde a fé nos políticos nunca foi fervorosa. Por conta da impunidade dos corruptos, boa parcela da população olha com indiferença os bastidores dos três poderes que governam o país. Essa mesma massa se vê tentada a generalizar a índole dos parlamentares e a olhar com aversão para tudo que esteja relacionado ao vocábulo política. 

Tal síndrome de baixa auto-estima nacional e de vergonha pelos seus representantes, reflete-se no futuro das redações. Não são poucos os estudantes de Jornalismo que fogem da editoria de Política e Economia nos projetos práticos da faculdade. Promover uma enquete para apurar os que teriam interesse em trabalhar nesses segmentos, decepcionaria. Afinal, atuar nessa área requer do profissional muita bagagem cultural, faro investigativo acurado e um caráter a toda prova para não dialogar com a corrupção.

Vale ressaltar também que a imprensa sempre cumpriu – e cumprirá – um papel estratégico na mediação das informações. O que sabemos ou deixamos de saber sobre esse governo - ou qualquer outro - foi pautado pela mídia. Logo, como exercer a cidadania se o poder da informação não está na mão do povo? Por outro lado, como um indivíduo poderia acompanhar e cobrar a administração pública se não fosse por meio da imprensa? O problema, no entanto, é que esse poder de mediação da informação está cada vez mais concentrado, monopolizado. Logo, a subserviência desses grupos ao poder dominante fica cada vez mais evidente.

Deslizes

Diante de todo esse quadro social complicado, a grande imprensa brasileira tem deslizado em alguns aspectos na cobertura do "Mensalão". O lado mais fácil para se escorregar é o da espetacularização. A polêmica, a denúncia e a corrupção, por si mesmas são chamativas, ainda mais se embaladas em manchetes bombásticas ou cifras de dar calafrios em qualquer contribuinte honesto. A regra áurea é: não basta impactar, é preciso escandalizar! Para a cobertura política, algo mais do que adequado.

Outro pecado jornalístico é o da apuração. Sair da mesmice dos depoimentos da CPI é o desafio de todos os veículos. Na corrida pelo furo, muitas vezes, a checagem da informação deixa a desejar - haja vista a edição dessa semana da Veja (24/8/05), sobre as acusações contra o "poderoso chefão" da economia, Antônio Palocci. A entrevista coletiva do ministro no domingo deixou o maior semanário do Brasil em maus lençóis. (?????)

Contudo, a maior dívida das redações continua sendo a investigação. Toda a cobertura até agora esteve muito mais baseada em denúncias do que em investigações jornalísticas. Foram as notícias que correram atrás dos jornalistas. Essa falta de aprofundamento na pauta gera uma superexposição do tema, esgotando a paciência do leitor e banalizando as implicações desse esquema de corrupção. Depois que baixar a poeira, esse caso será arquivado nos anais da recente, mas turbulenta, história da democracia brasileira. E a população? Esta vai esquecer sem ao menos ter compreendido. 

Cabe a imprensa contextualizar a crise. Explicar os antecedentes históricos, quais suas implicações para o cotidiano do brasileiro. Não depender somente das investigações da CPI - pois o relatório final não será a voz da verdade. Outras verdades podem ficar abafadas. 

Talvez esse seja um bom momento para se discutir uma educação para a cidadania; repensar a atuação do movimento estudantil ou até mesmo cavoucar escândalos de corrupção que dormiram no esquecimento ou que permanecem impunes. Quem sabe não se descobre que os receptores mais informados são os menos conscientizados.