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Caras pintadas sim, mas contra a corrupção

Paulo Henrique Mondego 

O Brasil passa por um momento singular de sua trajetória política e social. Nunca se falou tanto em dinheiro sujo. De repente, milhões tornaram-se bagatelas como troco dado em feiras. O Mensalão - neologismo criado pelo cinematográfico deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) e que quer dizer pagamento de mensalidades ou mesadas a parlamentares - atinge todas as esferas da política. Mas, sobretudo, a existência do próprio PT, partido nascido e criado sob a bandeira da ética e da honestidade.

Não bastasse todo o rebuliço provocado no Congresso, as denúncias de roubalheira e desonestidade atingem diretamente a vida do cidadão brasileiro: vítima nesta tragédia grega. No entanto, mesmo como vítima, o povo não se cala. Foi assim com Collor, em 1992. E, agora, guardadas as devidas proporções, assistimos o retorno da voz ativa popular com o Mensalão. A diferença básica é que, naquela época, a mídia criou os caras-pintadas, símbolo até hoje lembrado com saudosismo. Ah, aquela juventude! Eles foram o emblema da luta contra a corrupção no Brasil.

Quem não se lembra daqueles jovens gritando pelas ruas: Impeachment! Fora Collor! Como era bonito ver o povo clamando por justiça e honestidade na política. Mas o que ninguém sabe, ou esqueceu, é que muitos dos que lá estavam mal sabiam do que se tratava. Estavam ali apenas por diversão ou para engrossar o coro dos descontentes. Na época, um repórter entrevistou uma estudante perguntando-lhe o motivo da manifestação. A garota disse que estava comemorando a conquista da Copa do Mundo. Está certo que não foi a maioria, porém, não foi também o que a mídia mostrou.

Talvez, por se tratar de um momento histórico no Brasil, a imprensa tenha transformado os caras-pintadas num símbolo de luta e resistência contra a corrupção e a roubalheira na política brasileira. Tanto que atribuiu ao seu protesto público a principal causa do impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello. Agindo assim, deixou de lado a votação no Congresso. Ela sim, de fato, tirou da presidência e da cena pública mais um político corrupto.

Imprensa partidária

Hoje, no gozo de sua liberdade de expressão, a imprensa busca fazer o mesmo de maneira escancarada. Muitos querem o impeachment do presidente "surdo, mudo e cego". No entanto, seus interesses são escusos. Estão vinculados a desejos de políticos oportunistas e despreocupados com o avanço da nação. A imprensa partidária tem sido, ela mesma, o móvel de tal tentativa.

Para constatar isso, basta analisar alguns veículos de comunicação. Será fácil constatar o objetivo de ressuscitar os caras-pintadas e, conseqüentemente, o impeachment. A revista Veja, edição de 10/08/05, publicou na capa a foto de um Lula cabisbaixo, com o nome em letras garrafais associado ao do ex-presidente Collor. Seu nome, assim como o de Collor, tinha os conhecidos "LLs" coloridos. Abaixo, a seguinte frase: "Sem ação diante do escândalo que devorou seu governo, Lula está em uma situação que já lembra a agonia da era Collor".

Mas isso não foi o bastante. Nesta mesma edição, reportagem com o título "A história em verde-e-amarelo", estampa a foto da jovem gaúcha Hannah Beineke com a seguinte legenda: "Os estudantes se rebelam contra a corrupção no governo, promovem manifestações e pedem a saída do presidente. Na semana passada, neo caras-pintadas de verde-e-amarelo começaram a se manifestar contra o governo Lula."

Porém, a informação não correspondia à verdade. "Hannah estava na manifestação para protestar contra a corrupção, mas não contra Lula". Ela enviou carta de protesto à revista. Veja jogou a responsabilidade do equívoco sobre os ombros do repórter-fotográfico Jefferson Bernardes e da agência Preview, para qual trabalha. Isso mostra que a revista foi leviana e desonesta na cobertura da crise que abala as estruturas políticas do País. 

Como já foi dito, o Brasil passa por um momento único em sua história política e social. Uma verdadeira rede de corrupção em que ninguém ainda foi punido. Isso é revoltante. Contudo, não autoriza uma revista tida como "formadora de opinião" a induzir o leitor, obrigando-o a se posicionar inadvertidamente a favor de um impeachment. Impedir o presidente Lula, nessa altura do campeonato, seria uma tragédia para o país. Se Lula deixar a presidência por impeachment, quem assume as rédeas da carroça desgovernada chamada Brasil é o presidente da Câmara, Severino Cavalcanti. Pelo menos é o que determina a Constituição Brasileira.

O momento é de luta contra a corrupção, mas não de suposições sem argumentos plausíveis. Isso se não quisermos confundir o público nesse dramalhão mexicano cheio de detalhes sórdidos. A possibilidade de impeachment é remota. Não é de um dia para o outro que se tira o governo das mãos de um para colocá-lo nas mãos de outro. Tudo bem que o "Lulinha paz e amor" andou revivendo os velhos tempos de "sapo barbudo", mas não existem provas cabais que justificassem tirá-lo do governo por impeachment.

A população, indignada, quer uma solução para o problema. Afinal, mais de 53 milhões de brasileiros acreditaram na esperança de que, finalmente, poderiam ter uma vida mais digna. Todavia, a desonestidade superou a esperança. Cabe à mesma imprensa que ajudou a tirar Collor do governo, a tarefa de desvendar todos os meandros desta roubalheira.

Se a imprensa quiser "satisfazer os aflitos e afligir os satisfeitos", não deve sucumbir diante desta corja de políticos que debocham e roubam de seus eleitores. Cara-pintada sim, mas contra a corrupção!