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Milésimo
artigo
E
viva o escândalo!
Marisa
Ferreira
As denúncias de Roberto Jefferson realmente tiraram a mídia brasileira do tédio. Se não havia algo "quente" o suficiente, pelo menos agora há pauta para todo mundo. O que começou com um "furo" da revista
Veja, transformou-se numa corrida ao ouro em que todos querem suas
pepitas.
Colocar a cobertura midiática desta forma pode parecer um exagero, já que, perante fatos tão chocantes de corrupção, é
seu dever não ficar inerte. No entanto, mais do que o dever de trazer à
tona os fatos, a imprensa tem a obrigação de
apurá-los. Tem acontecido o contrário. Primeiro se publicam os
indícios, depois se corre atrás. Resultado: na maioria das vezes, a
própria mídia percebe que "não era bem assim".
Foi o que aconteceu na sexta-feira (12/8), quando as manchetes declaravam como bombástico o que o ex-deputado do Partido
Liberal (PL), Valdemar Costa Neto, disse em entrevista à revista
Época. A notícia dizia que o presidente Luís Inácio Lula da Silva
estivera presente numa reunião em que fora acertado o pagamento de propinas
aos deputados - o famoso "Mensalão" - em troca do apoio ao governo. Mas até agora,
com referência à Lula, tudo não passa de especulação.
Costa Neto afirmou que Lula havia participado da reunião que tratou da distribuição de verbas para a campanha do PL.
Mas daí ao presidente ser explicitamente um dos planejadores do Mensalão
vai uma grande distância. É preciso deixar bem claro que a intenção não é
eliminar nenhuma figura política nem julgar ninguém pelas suas ações. Isso não cabe a este veículo, nem ao
Jornalismo. Esse é o papel do Judiciário.
A empolgação
Desde o primeiro estouro – indício de uma crise –, a mídia se engajou na investigação. Houve momentos em
que trabalhou com esmero, apurando tudo devidamente. Mas à medida que o escândalo foi se intensificando, os veículos foram tomados de empolgação. Hoje, tudo o que Roberto Jefferson
e seus aliados dizem, vira manchete.
Esta ânsia jornalística pode, na melhor das hipóteses, representar uma
indignação jornalística pelo constante desenterrar de escândalos.
Todavia, isso foge, mais uma vez, da utilidade do Jornalismo. A mídia que se preocupe com informação útil e deixe a indignação para o povo. Mas quando se olha para os aumento de vendas e do
Ibope como dividendos da crise, talvez se identifique outro combustível de empolgação.
Joga pedra na Geni!
Mais uma presunção midiática explodiu em 21/8. A capa da Veja
chafurdava Antônio Palocci no mar de lama e, pior, pretendia arrastar
também o presidente Lula. Acontece que "fatos" foram jogados no ar sem explicações plausíveis nem comprovadas.
Palocci rebateu todas as denúncias no dia seguinte. A idéia, talvez, seja transformar a notícia em verdade e não a verdade em notícia.
Na edição online do jornal O Globo lia-se a sugestiva
cartola (quase cinematográfica!) que titulava as matérias sobre a crise política nacional: "Escândalos em Série". O que
isso dava a entender é que, para a mídia, não importa muito o tamanho dos escândalos - ou até mesmo se eles existem - nem o que significa cada um deles para a sociedade
brasileira. Importa que eles não parem de surgir e sustentar as manchetes. Quem sabe se o amanhã
não trará muitos outros. A verdade é que um bom escândalo vende. Contudo, "escândalos em série" vendem muito mais. O parâmetro
não deveria ser a amplitude do escândalo, mas a relevância da informação para o exercício da democracia.
A interpretação
Há meses que nada mais acontece (leia-se: "nada mais é noticiado") na mídia brasileira,
exceto escândalos políticos. Na economia não é diferente. Foi só o dólar subir e as ações da Bolsa de Valores (Bovespa) caírem
para as manchetes culparem a crise. No entanto, parece que os repórteres esqueceram de dar uma olhada nos jornais e cadernos de economia especializados.
Todos eles destacavam a volta do Banco Central ao mercado de câmbio como maior razão para a subida da moeda
norte-americana. Eles ainda esqueceram o fato de que o dólar não está somente ligado ao Brasil, mas sob influência do preço internacional do petróleo,
o que determina muita coisa.
Esta "vontade" de desenterrar os podres do governo não é algo muito freqüente
e com tamanha intensidade. Em 2004, a fumaça que se ergueu no
Tribuna da Imprensa e depois no Jornal do Brasil pareceu não ter sido suficiente para chamar a atenção dos grandes veículos naquele período. Talvez
porque ainda não houvesse briga de gigantes. Ou, talvez, pela
mão-de-obra que isso daria. Investigar? Nossa! Muito trabalho! Mas foi só esperar alguém pisar na mina e todos correram para pegar um pedaço. E, por um acaso, havia pedaços para todos.
Comentando a abordagem jornalística desses escândalos políticos durante
o lançamento do livro
Jornalismo Político, o jornalista Franklin Martins esclareceu que "assim, aos poucos, passa-se da caça ao furo para a caça às
bruxas". E completou: "No afã de ser o primeiro a dar a notícia, vai-se baixando a guarda. Já não se checa a informação como antes. E, à medida que a bola de neve vai ganhando velocidade, sai de
baixo! Suposição vira informação; indício converte-se em prova; suspeito passa a ser bandido; e a dica, que em condições normais seria o ponto de partida da matéria, pode acabar como manchete do jornal". Numa investigação jornalística séria não
deveria estar implícita a ânsia pelo furo, mas sim, pela verdade.
Apesar de tudo, a vida do brasileiro parece estar normal. As cidades, por enquanto, não pararam. A queda da economia se
mantém só na "previsão". Ao que tudo indica, as nuvens negras se manifestam mais pelos lados de Brasília.
Mas, apesar do peso dos escândalos, eles parecem ser recebidos pela população com certa
normalidade. Os cidadãos podem até esquecer de que, enquanto há vestígios de democracia, existe esperança. Mas a mídia não pode.
Isso se ela, de fato, ainda quiser ser democraticamente "útil". Enquanto os veículos brasileiros viverem em busca de uma novela para prender os telespectadores ou das reportagens com fôlego de meses, isso não vai acontecer. Mas se a mídia brasileira lembrar que ela deve ser a cola que une o radical
"demo" com o "cracia", então, ela poderá começar a perseguir o cumprimento do seu papel, buscando o entendimento entre as partes e o crescimento da nação. Caso contrário, deixarão de
existir papéis para cumprir e a democracia voltará a ser só um sonho... novamente.
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