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Luzes, câmera, mensalão!

Giancarlo Sorvillo 

O grande Napoleão Bonaparte, destemido general de guerra, declarou certa vez: "Tenho mais medo de quatro jornais do que cem baionetas". De fato, a mídia tem poder para destruir e restaurar, mais do que isso, mudar o rumo da opinião pública. A pessoa que sabe usar bem a mídia pode tornar realidade o velho ditado popular: "em terra de cego, quem tem um olho é rei". 

Tanto que nosso País é conhecido por causa de Pelé, o rei do futebol; o Carnaval brasileiro é reconhecido mundialmente como o melhor que existe, e até mesmo diante de uma crise ética do mensalão, surge mais um rei para compor o quadro imperial: Roberto Jefferson. Deputado federal desde 1992, eleito seis vezes consecutivas pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e atual presidente do partido, Jefferson aparece na lente da imprensa como atração principal de toda confusão política. 

Desde o começo ele estava envolvido no escândalo. No dia 14 de maio, uma gravação mostra Mauricio Marinho, chefe do departamento administrativo, recebendo três mil reais de propina para facilitar esquemas de corrupção. Ele dizia que atuava em nome de Roberto Jefferson e do PTB. O escândalo vem à tona e a oposição imediatamente pede uma CPI dos Correios. Jefferson pressiona o Instituto de Resseguros do Brasil para obter "mesada" de quatrocentos mil reais para o seu partido. Não conseguindo, e vendo que a CPI iria pressioná-lo, adiantou-se e usou a mídia de modo magistral. 

No dia 6 de junho, Roberto Jefferson dá uma entrevista bombástica na Folha de S. Paulo, onde denuncia a existência do mensalão, ou seja, um suborno mensal de 30 mil reais feito a deputados da base aliada, em especial ao PP (Partido Progressista) e ao PL (Partido Liberal), para aprovarem projetos do governo. De acusado, Jefferson se torna o principal acusador, tendo como álibi todas as câmeras e jornais voltados para ele. 

O espetáculo está montado para o presidente do PTB atuar no papel principal. Em entrevista a Folha, ele amplia seus ataques dizendo que o dinheiro vinha de estatais e empresas privadas e iam até Brasília em malas. Denúncias aumentam cada dia como bola de neve e, em cada depoimento fica comprovado o brilhantismo de Roberto Jefferson. Advogado, professor universitário, vinte três anos no exercício parlamentar e sua participação em mais de duzentos júris como criminalista fizeram com que sua oratória fosse persuasiva e sedutora. Sua boa aparência, coragem, expressões audaciosas e o seu olhar para as câmeras procurando se dirigir ao povo brasileiro de modo simples e contundente, fizeram dele um "herói nacional". Tanto que as pessoas vêm cumprimentá-lo nas ruas e o aplaudem em seus discursos. 

Mas a imprensa também contribuiu para tal reação. A revista Veja (10/08/05) trouxe uma matéria com uma cronologia da crise em "100 fatos" principais. Várias figuras de envolvidos estavam estampadas no "numero 100", curiosamente, a figura de Jefferson aparece duas vezes. Seu rosto está estampado em diversas capas de revistas. O "duelo" entre José Dirceu e Jefferson na Comissão de Ética foi uma das coberturas mais badaladas feita pela imprensa.

Os casos continuam sendo apurados pela CPI. Se o "herói" tiver seu cargo cassado, uma coisa ficará incontestável: a mídia permitiu que ele usasse sua cativante oratória e brilhantismo pessoal e transformando-o no novo "rei" popular.