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Como tudo começou

Lêda Maria 

"Dentre os mais dignos predicados de um homem está o de saber dizer a verdade", frase de Renato Kehl, que poderia ser melhor analisada pela cúpula em Brasília. Secretárias, motoristas, ex-mulheres e dinheiro disponível em todo tipo de embalagens: malas, envelopes, cueca. Parece que finalmente se tornou visível no País, o império da lei de Gérson "o importante é levar vantagem em tudo", esta que rege inúmeros comportamentos, principalmente, quando se trata dos "palácios" e das Câmaras.

Enquanto na capital o ar é contaminado de denúncias, acusações e respectivas negações e amnésias, no restante do País a população acompanha atônita, as notícias - tudo muito bem enfocado pela mídia. Jornais, revistas, sites e todo tipo de veículos de comunicação em massa ficam no encalço das investigações e depoimentos. Uma novidade e, logo a sociedade inteira está ciente. Espetáculo para alguns, informação para outros. Não importa como julguem a cobertura que a imprensa vem dando ao caso "mensalão", o fato é que desde o princípio ela tem estado presente. E se essas denúncias ganharam fôlego e atenção foi graças aos veículos que as tornaram públicas. 

Muitos pensam que o caso só veio à tona com a reportagem da revista Veja revelando o vídeo em que o funcionário dos Correios recebia propina. No entanto, o primeiro veículo a publicar denúncias sobre um suposto esquema de compra de consciência e apoios parlamentares - mais tarde mensalão -, foi a Tribuna da Imprensa num artigo de Carlos Chagas publicado no dia 24/2/2004, "Para administrar uma fortuna". 

Chagas diz que "ruim de grana o PT nunca esteve. Foi a partir da recente campanha presidencial, porém, que o dinheiro começou a sobrar. Com a posse do presidente Lula e a nomeação de milhares de petistas para a administração federal, mais recursos apareceram. A preocupação do presidente anterior, José Dirceu, e do atual, José Genoíno, passou a ser como administrar a bolada, cujo montante, para dizer a verdade, só uns poucos conhecem. Mas é muito grande". 

Foi nesse artigo que nomes, hoje familiares, foram citados. Entre eles Marcos Valério e as benditas malas tão bem recheadas. Chagas é irônico ao dizer que "quem passou a sofrer foi o diretor-financeiro do PT. Delúbio Soares jamais pensou em tornar-se banqueiro ou investidor no mercado. Assim, para ajudá-lo, foi buscar um operador profissional, encontrado na pessoa do publicitário mineiro Marcos Valério, da SMPB, de Belo Horizonte".

A insinuação da compra de votos fica evidente quando ele alega que "há algum tempo, a capital mineira funciona como uma espécie de caixa central do PT, de onde flui numerário bastante para as despesas partidárias, agora com ênfase para as campanhas de outubro. No caso, até servindo a outros partidos, como o PP, PL e PTB, cujos emissários não raro deixam o aeroporto da Pampulha com malas recheadas, em espécie. É claro que tudo ocorre sob a férrea fiscalização dos dirigentes do PT".

Mas o furo do repórter não obteve merecida repercussão e somente sete meses depois em 24/9/2004 o assunto foi retomado pelo Jornal do Brasil em reportagem dos repórteres Paulo de Tarso Lyra, Hugo Marques e Sérgio Pardellas. Com o título, "Miro denuncia propina no Congresso", a reportagem colocou pela primeira vez em cena o termo "mensalão", que ela mesma tratou de conceituar como "uma mesada fixa em troca de votos favoráveis no painel eletrônico". 

Segundo os repórteres, a denúncia foi feita por vários parlamentares ao ex-ministro das Comunicações, Miro Teixeira, quando ainda era líder do governo na Câmara. Miro teria pressionado esses deputados para que fossem com ele pessoalmente ao encontro do presidente Lula para confirmar o que denunciavam, mas nenhum deles teve coragem. Inconformado, Miro resolveu comunicar ao Ministério Público Federal. O JB afirmou ainda que a essa altura "boatos sobre o 'mensalão' correm soltos nos corredores do Congresso. Há até quem se incomode por não ter sido incluído na lista dos amigos do Planalto".

No dia 18/5 chegava às bancas o estopim. A revista Veja publicou uma gravação sobre uma suposta corrupção nos correios. No vídeo o funcionário dos Correios Maurício Marinho recebia uma propina de três mil reais e afirmava que trabalhava com o aval do presidente do PTB e outro ex-diretor da empresa, Antônio Osório Batista. O dinheiro arrecadado com o esquema de corrupção seria usado pelo dirigente do PTB para engordar o caixa do partido, de acordo com as denúncias. 

Em pouco tempo a crise que atingia os Correios e o Instituto de Resseguros do Brasil, tomou proporções nacionais. Tudo devido a uma entrevista exclusiva do deputado Roberto Jefferson à Folha de S.Paulo no início de junho. Nela o deputado afirmou que os parlamentares recebiam 30 mil reais do tesoureiro do PT, Delúbio Soares. 

Segundo Jefferson, o dinheiro do "mensalão" vinha de estatais de empresas privadas e chegava a Brasília "em malas" para ser distribuído em ação comandada pelo tesoureiro, com a ajuda de "operadores" como o publicitário Marcos Valério Fernandes de Souza e o líder do PP na Câmara, José Janene (PR). 

Jefferson afirmou que a cúpula do PTB rejeitou a mesada, e que a prática durou até o começo do ano quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tomou conhecimento do caso. O petebista poupou o presidente Lula, mas envolveu o ex-ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, e outros integrantes do que ele chama de "cabeça" do PT.

"Eu vi que o governo agiu para isolar o PTB. Vai ter que sangrar a cabeça de alguém na guilhotina. Tem que haver carne e sangue aos chacais. A Veja falou que sou o homem-bomba. E o que você faz com a bomba? Ou desativa ou faz explodir. Estou percebendo que estão evacuando o quarteirão, e o PTB está ficando isolado para ser explodido", disse Jefferson em entrevista à Folha. Pelo visto ele resolveu não explodir sozinho.

A partir daí, o "mensalão" se tornou pauta obrigatória e priorizada em todo veículo. O esquema de distribuição de verbas e cargos para premiar partidos da bancada governista deu fôlego a investigações, debates e matérias infindáveis. E a classe jornalística, chamada de covarde pelo presidente, não mede esforços para conseguir um novo dado sobre o tema. 

E o que não faltam são novidades. Cada dia, uma nova denúncia, um novo suspeito, uma nova quantia. A dinheirama envolvida na corrupção é tanta os brasileiros jamais ouviram sobre tão grande fortuna. O que o Brasil realmente precisa é de "homens que não se comprem e não se vendam". Afinal, como constata Aparício Toledo "todo homem que se vende recebe muito mais do que vale". Nesse caso bem mais.