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O poder da
edição
Victor Drummond
A imprensa possui um poder inegável. Poder que informa, manipula e dita as regras do comportamento social. Os veículos de comunicação podem se deleitar no fato de que é o conteúdo transmitido por eles que
formará a opinião dos
mass media. Acontece que tudo o que essas mídias produzem, quer sejam revistas, jornais, internet ou telejornais, passa por um crivo daquilo que se deseja ou não ser transmitido: o olhar atento e crítico da edição.
Fazer diversas ligações telefônicas, estabelecer contatos, sair da redação, entrevistar dezenas de fontes que comporão as citações e personagens de uma matéria, fotografar, colher dados, transcrever fitas de áudio, analisar os fatos e produzir um texto, não são atividades suficientes para
um trabalho jornalístico. A maratona não pára por aí. Uma matéria finalizada implica muito mais do que belas diagramações.
Depois de todo esse ritual, o bom editor - para alguns repórteres, tirano - entra em ação. Corta daqui, acrescenta dali, altera acolá. Isso envolve uma delicada relação com os repórteres. Onde fica a ética dos editores? Qual é o limite
do poder que eles têm em mãos? O que devem e o que não devem cortar?
Segundo Rosane Queiroz, editora da revista Marie Claire, da Editora Globo, a edição tem um poder muito grande na matéria. Em contrapartida, ela sozinha não é nada, porque é necessário ter um bom material (obtido na correria descrita nas linhas anteriores). "Existem matérias que você edita, edita, edita e não saem, porque você precisa ter conteúdo", explica a jornalista.
A edição é uma tarefa perigosa e que exige responsabilidade, já que nela pode-se mudar completamente o sentido das coisas. Para que se faça um bom uso desse cargo,
que parece poder "quase tudo", Rosane aconselha que o editor tenha discernimento e que tente preservar o máximo possível o conteúdo do que foi dito ou escrito. Uma frase cortada pode alterar todo o conteúdo do que foi declarado por alguém. É algo muito comum de se acontecer na publicação de entrevistas.
Alguns repórteres ou editores costumam fazer usos de certas frases que foram ditas em um contexto totalmente diferente do enfoque
pretendido por elas. De acordo com um ex-diretor da Abril, muitas entrevistas veiculadas nas páginas de uma das principais revistas desta editora são cheias de cortes abruptos e que favorecem aquilo que a revista quer, e não necessariamente valorizando ou respeitando o ponto de vista do entrevistado. Um editor ético geralmente deve ligar para o repórter, tirar as dúvidas sobre o que foi escrito e o que ele quis abordar em determinado assunto. "Você não deve nunca julgar um conteúdo. Se o editor se deparou com uma frase de duplo sentido, você deve se perguntar: 'O que ele quis dizer?'. É necessário enxergar o real sentido do que foi dito", observa Rosane.
Outro aspecto interessante levantado pela editora é o ato de se analisar de maneira atenta o que um entrevistado declarou. "Muitas vezes a pessoa fala alguma coisa, mas ela não tem nem noção do que
disse, da força que aquilo tem. Quando uma pessoa fala alguma coisa -
falo da imprensa escrita - ela dá uma entonação. A partir do momento que isso vai escrito, é o preto no branco. E tem coisa que ganha uma força fora do
comum se você tira a entonação (o que geralmente ocorre na edição). Tudo isso tem que ser levado em conta. A pessoa pode falar uma coisa brincando, mas se você põe no papel, pode parecer que ela não falou
brincando", opina.
Percebe-se, portanto, quão importante é o papel da edição no sentido de se preocupar em expressar como determinadas situações se desenvolveram para que sejam retratadas da forma mais fiel possível. É uma tarefa um pouco mais complicada no jornalismo impresso e que demonstra o poder que a edição possui, de transformar sentidos e distorcer fatos.
Existem muitos casos em que a edição foi usada em prejuízo de alguma pessoa (como o famoso "jargão de edição" do debate político de 1989 entre Collor e Lula).
Em determinado caso, a revista Marie Claire preferiu cortar da matéria a história de uma mulher que declarou ter
trabalhado clandestinamente em uma empresa de mineração quando era criança. Ela ia com seu pai vestida de homem para que pudesse ser aceita na empresa. A revista preferiu não publicar este caso para que não prejudicasse essa pessoa (que continua morando na mesma cidade em que fez esse trabalho clandestino) e seu pai, que ainda trabalha na mesma empresa.
Mas a edição não usa seu poder apenas em detrimento de algo. Ela pode ser usada para fazer com que certos assuntos ou a própria matéria fique mais atraente. "Você pode pegar uma matéria que ficou mais fraca e deixá-la bem atrativa, destacando alguma frase ou algum fato que chame a atenção do leitor", salientou Rosane.
Assim, a edição é uma atividade que requer tato, atenção, noção e conhecimento das situações para que seu poder de transformação seja bem aplicado.
O poder da edição, portanto, deve ser aliado à ética, acima de tudo. Este poder não dá direito ao editor de alterar uma matéria sem antes consultar o repórter e de induzir o leitor para aquilo que o editor quer. Se isso acontece, a edição perde o seu poder para se transformar em um cargo sem o menor teor jornalístico.
criação: lisandro staut |
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