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Poder capital

Jairo Souza

Tudo no mundo pós-moderno gira em torno do capital. Seja para uma criança que pede sorvete a sua mãe, seja para um presidente que recorre ao FMI; o que está em jogo é dinheiro. Aliás, este é o fetiche da modernidade. Por ele, indivíduos vivem ou deixam de viver. Pais excluem-se da educação dos filhos. Traficantes vendem drogas e veículos de comunicação jogam lixo nas telas. Em alguns casos, chega a ser questão de sobrevivência lutar por cada cifra, cada centavo.

Mediante a explosão dos meios de comunicação, os "dragões capitalistas" enxergaram a grande oportunidade de alavancar o ganho de capital. Agências publicitárias e poderosos anunciantes empenharam-se em explorar todos os recursos. Em utilizar todas as ferramentas possíveis a fim de oferecer produtos e serviços.

No meio da "sociedade da imagem", ser conhecido tornou-se sonho das pequenas e necessidade das grandes marcas. Segmentar e ampliar mercados, a palavra de ordem e, para tanto, grande capital passou a ser investido em campanhas publicitárias e em novas tecnologias para os diversos meios de comunicação. Atualmente, tão importante quanto produzir, é anunciar. 

Na elaboração do seu novo barbeador para mulheres, "Venus", a Gillette gastou trezentos milhões de dólares em pesquisa-desenvolvimento e fabricação, mas também a metade da quantia em publicidade veiculada em 26 países. Investimentos como este se tornaram alicerce para as grandes redes, que, por sua vez, passaram a disputar maiores fatias do capital dos anunciantes. 

O poder dos anunciantes sob os media ficou tão evidente que o professor da Universidade da Califórnia, Dan Schiller, autor de Digital Capitalism, chegou a citar que "entre a década de 20 nos EUA e a de 80, no âmbito do planeta, os anunciantes e seus emissários conseguiram substituir o monopólio do Estado sobre os programas audiovisuais, por sistemas privados financiados pela publicidade".

As novas mídias, entre elas a internet, ganharam espaço e obrigaram as mídias clássicas, impressa e eletrônica, a dividir o bolo publicitário. Segundo Wilson Dizard Jr., em seu livro A Nova Mídia, em 1998, o mercado de consumo online norte-americano estava estimado em oito bilhões de dólares. Atualmente, o índice gira em torno dos 15 bilhões. Os varejistas da web oferecem mais variedades de bens e serviços e os consumidores, rapidamente aderem ao comércio eletrônico, o que tem tirado o sono patronal dos outros media.

Diante de tal realidade, a mídia clássica viu-se obrigada a criar alternativas para se tornar competitiva. A internet e a TV a cabo arrastaram parte do público da TV aberta. Tanto que, em 1977, nos Estados Unidos, o índice de audiência proporcional das principais redes de TV em horário nobre era de 92%. Atualmente chega aos 48%. No Brasil a realidade não é diferente.

A disputa por pontos de audiência, muitas vezes em detrimento da ética, prioriza os ditos "conteúdos de mau gosto". Estes se alastram como epidemia, banalizando a cultura. Mediante a exclusão de temas relevantes, as grandes redes nacionais impedem que a sociedade observe a realidade sob um prisma crítico.

Um lastimável exemplo deste procedimento foi a abertura do Jornal Nacional, da Rede Globo, para exibir clara publicidade do Big Brother Brasil em sua pauta. O fato representou um literal desrespeito ao público que credita audiência à emissora.

Procedimentos similares denotam a tentativa deliberada de conseguir audiência, o que resulta em maiores cifras obtidas com espaço publicitário. É uma realidade expansiva a todos os veículos e redes de comunicação. Não é preciso ir longe para saber quem possui o poder capital.


                                        

criação: lisandro staut