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Jornalismo da carochinha

Victor Drummond

"Jornalista tem de ser imparcial." Frase mais sem fundamento. Trata-se de uma grande utopia pregada nos meios acadêmicos que leva os inocentes estudantes de jornalismo a pensar que é possível apurar e escrever com total isenção. É quase impossível um ser humano ser capaz de produzir algo sem deixar as suas marcas, as suas impressões.

O ser humano é composto por um emaranhado de vivências. Sua maneira de pensar, falar e agir são reflexos da bagagem que carrega ao longo de sua vida. Todo o processo de aprendizado pelo qual passou durante a vida determinará de maneira profunda sua maneira de encará-la. É impossível desvencilhar-se dessa "bagagem". Tentar fazer jornalismo sem ela é como embarcar em uma viagem em busca do desconhecido. Para onde ir? Que fonte buscar se não há o direito de pensar qual será a mais adequada para determinada história? Dessa forma, até a escolha de uma pauta ficaria comprometida, visto que elas são escolhidas a partir do momento que o jornalista julga-as mais importantes que outras ou relevantes o suficiente para que sejam transformadas em boas histórias. É impossível fazer jornalismo sem estar exercendo juízos de valores.

Quando Heródoto Barbeiro escreve em sua obra Manual de Telejornalismo: Os Segredos da Notícia na TV, que o jornalista "tem a obrigação de buscar a isenção sempre. A isenção deve ser encarada como uma luta diária", ele tenta ser bem otimista. Ainda há profissionais que se arriscam em dar esse tipo de conselho ao se abordar questões éticas da profissão. Como isso é possível, Heródoto? Apresente-nos a fórmula de transformar essas "malas" riquíssimas de informações em meras máquinas com pensamentos neutros.

Fernando Moreira, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, conta em seu artigo Imparcialidade na linha de tiro, publicado no jornal UERJ em Questão (n.° 81), que o repórter português da Rádio e Televisão Portuguesa (RTP), Carlos Fino, não concorda que jornalismo combine com imparcialidade. Fino defende a idéia de que a neutralidade é uma espécie de amarra para o profissional, que, na verdade, sempre faz parte da história.

Fernando apresenta o ponto de vista de André Lázaro, sub-reitor de Extensão e Cultura e professor do Departamento de Teoria da Comunicação da UERJ: "Todos nós, de algum modo, somos parte do mundo, de um segmento profissional, social e étnico. Não há lugar fora do mundo que nos dê o conforto do julgamento isento. Portanto, o trabalho do jornalismo deve buscar a justiça. Ou melhor, pensar a verdade jornalística por meio da busca da justiça. Esta atitude implica ouvir as diferentes partes envolvidas, ser justo com seus argumentos, mas também admitir que temos interesses; conhecidos ou velados, conscientes ou inconscientes e que, portanto, vamos alcançar como melhor resultado sermos justos, mas nunca neutros."

O jornalista Luciano Dias, da Globo.com, e que já trabalhou em O Globo e O Dia e na revista IstoÉ Dinheiro, declarou na mesma edição do UERJ em Questão que "o texto 100% imparcial é um pesadelo para quem acredita nesta utopia jornalística neanderthal. Longe de defender a proliferação da praga dos adjetivos, penso que ao deixar sua impressão no sujeito, no objeto e na ação, o jornalista estará contribuindo com a liberdade de opinião de quem lê. Pode parecer contraditório, mas o texto friamente objetivo carrega em si uma opinião fechada e, portanto, pouco democrática. Ao abrir espaço às suas impressões, o autor deixa uma brecha para a interpretação do leitor e oxigena o debate em torno da notícia. Um texto jornalístico com opinião é mais real e mais isento que o sonho da matéria 99,99% imparcial". Dias contribui para o preenchimento das novas necessidades do leitor, ouvinte e telespectador. Eles não estão em busca da informação pura e simples; eles querem ouvir a opinião e interpretação dos fatos.

Palmas para os professores e profissionais do mercado que defendem a imparcialidade. Imagina-se que eles são pessoas sublimes, revestidas de uma áurea que transcende a formação natural da mente humana. Não têm nenhuma espécie de preconceito, não possuem nenhuma cosmovisão pessoal e não têm a menor pretensão de possuir uma bagagem cultural. Com isso, descobriram veículos de comunicação sem nenhuma linha editorial, sem nenhum interesse político e onde os jornalistas não participam de nenhuma disputa pessoal. E por aí continuam as utopias acadêmicas. Ou melhor, o jornalismo da carochinha.

                   

criação: lisandro staut