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A mídia não é um fantoche, Tio!

Katianne Jouguet

O que se sabe no Brasil a respeito das notícias internacionais é comumente padronizado nos veículos nacionais. Se o fato corrente é o novo governo iraquiano ou uma decisão tomada pelo presidente Bush, todos os meios de comunicação irão explorar o ocorrido. No entanto, o brasileiro fica sabendo basicamente a mesma coisa e do mesmo país - os Estados Unidos.

É importante salientar que a exposição das notícias americanas nos principais jornais e revistas do Brasil denota uma ligeira tendenciosidade. Isso se obtém na análise dos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo. E das revistas IstoÉ, Carta Capital, e Veja.

Os impressos Folha e Estadão concordam no espaço utilizado para redigir as notícias internacionais. Ambos, no primeiro caderno, separam dez páginas para assuntos nacionais (governo, ambiente, educação, defesa, investigação, etc.), e para os mundiais somente três. E, como dantes mencionado, há uma padronização das notícias do exterior. 

Fatalmente, a linha editorial de cada jornal se difere. No dia 2 de junho de 2004, os dois veículos noticiaram a reação do presidente Bush, no que diz respeito à ascensão de um novo governo no Iraque, à nomeação do primeiro-ministro xiita Iyad Allawi.

A Folha mencionou rapidamente o fato. "A assessora de Bush para Segurança Nacional, Condoleezza Rice, disse que o novo governo é "totalmente independente" e "não se trata de fantoches americanos". (Folha de S. Paulo, "Bush diz que novo governo terá autonomia", 2/6/04). 

Enquanto a Folha se fixa aos depoimentos O Estado de S. Paulo recheia as declarações. "(...) Condoleezza Rice afirmou que Allawi 'não é um fantoche da América'. E talvez, de fato, não seja, o que mostraria que, ao contrário do que sugerem as teorias conspiratórias sobre a capacidade de Washington de manipular situações complexas, as coisas são exatamente o que parecem: o governo Bush perdeu o controle da nova dinâmica de violência que ajudou a desencadear no Iraque (...) acreditando que as tropas americanas seriam recebidas como libertadoras." (O Estado de S. Paulo, "Apesar de revés, Bush saúda novos líderes", 2/6/04).

Fica evidente o que o veículo incita: a falta de planejamento do governo norte-americano e sua conseqüente e previsível derrota. Tal ponto de vista se apresenta também na revista IstoÉ ao fazer menção às torturas realizadas pelos soldados norte-americanos na prisão de Abu Ghraib e a vingança dos terroristas com o assassinato de Nicolas Berg.

"As fotos de prisioneiros algemados ou encarcerados em jaulas, sujeitos às intempéries do tempo, já haviam chamado a atenção a respeito de como a administração de Bush tratava seus prisioneiros de guerra acusados de terrorismo. (...) O padrão humanitário de maior país democrático do mundo novamente está em jogo. E, se forem levados em conta os constantes alertas de selvageria nas prisões, quem sabe uma nova descida ao mundo de Hades poderá ser evitada." ( IstoÉ, "Descida ao inferno", 19/5/04).

Esta citação, de certa forma, culpa os Estados Unidos pelo aclive de mortes e homicídios no Iraque. E não adianta amenizar as relações internacionais somente mandando um ministro ianque "descer ao inferno", como ele mesmo disse se referindo ao Iraque justificando os atos norte-americanos.

E com respeito às torturas praticadas pelos americanos no Iraque, a revista Carta Capital dá o seu parecer. "O que caracteriza o momento atual é a enxurrada de imagens como se houvesse adequação aos vezos do dia, segundo os quais o fato não existe se não tiver visibilidade iconográfica. Surpresa, por quê? Que esperar do império, disposto a desfechar uma guerra colonial em pleno século XXI?". (Carta Capital, "O governo erra o alvo", 19/5/04) 

Esta declaração da Carta Capital deixa explícito que as atrocidades feitas pelos Estados Unidos com relação aos outros "países-colônias" são pouco conhecidas. Sempre existiu tortura. Mas o que não é divulgado e visto, é inexistente.

A revista Veja também não se intimida em seus comentários. Na edição de 2/6, o impresso utilizou a declaração do vice-presidente de Bill Clinton, Al Gore, para massacrar o atual governo norte-americano.

Primeiramente relembra um fato: "Como se sabe, Gore venceu as eleições presidenciais de 2000 com 300 mil votos a mais que George W. Bush, mas acabou derrotado pela peculiar aritmética do Colégio Eleitoral." E depois noticia: "Na semana passada, ele [Gore] voltou aos holofotes para expressar de forma extraordinária e sem meias palavras a angústia de seus concidadãos - aquela que nasce da impressão de que a invasão do Iraque é a guerra errada."

O artigo da revista é embutido de opiniões, como também mostra em seu prosseguimento. "(...) Gore avalia o conflito no Oriente Médio como 'o pior fiasco estratégico na história' e afirma que Bush humilhou o país aos olhos do mundo. (...) No discurso, (...) Gore qualificou Bush como o mais desonesto presidente desde Richard Nixon, e disse que sua política colocou a nação em perigo."

Concordando com o que foi dito no início do artigo, Veja complementa: "Só se pode especular sobre como seria o mundo se Gore estivesse sentado hoje na cadeira de presidente. É razoável imaginar que o democrata seria, no mínimo, imune aos pensadores neoconservadores que fazem a cabeça de Bush." ( Veja, "Bush nos humilhou diante do mundo", 2/6/04).

Nota-se, na maioria dos veículos brasileiros, que existe uma opinião antiamericana visível. O que se deve noticiar, realmente é noticiado. O tio Sam não causa mais medo e restrições à mídia. Aos poucos, os Estados Unidos perdem o seu prestígio. E isso é apenas um reflexo do que acontece na própria sede imperial.

                   

criação: lisandro staut