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Obrigado,
Al-Jazeera
Diogo
Cavalcanti
No ano passado, um norte-americano visitou minha casa. Era de Utah, cerca de 20 anos de idade, atleta olímpico, e estava há alguns meses no Brasil. Por curiosidade, saí do assunto religioso e entrei em política: "O que você acha da ocupação do Iraque?" Numa certa inocência, Bryan respondeu: "O presidente Bush só fez o que era certo e ninguém tinha coragem de fazer."
O que, para mim, era obviamente invasão, para ele era um gesto de ajuda, um eco perfeito do discurso da Casa Branca na época. Aquela resposta me deixou perplexo. Entretanto, não é a sinceridade do norte-americano que preocupa. Até o 11 de setembro, pouco se questionava a idoneidade da mídia americana, apesar das trapaças do Pentágono na Guerra do Golfo.
Festa dos fantoches
Repórteres chegaram a infernizar o coitado do Bill Clinton, vasculhando sua ficha. A mídia respirava prepotência alfinetando o presidente e, de quebra, ganhando preciosos pontinhos de audiência. O tempo passou e, pela primeira vez na História, uma superpotência declara guerra a países miseráveis a partir de alegações que mais soavam como fofocas da CIA.
A mídia decepcionou. Até o Times caiu na folia. Saddam virou Satã e Bush parecia "Deus". O Congresso norte-americano virou ONU. A ONU virou escritório de aconselhamento e guerra, programa de TV, sem necessidade de analgésicos. A tortura deixou de ser crime internacional. Repórter ganhou farda e as coberturas receberam o pronome "nós" em referência ao exército ianque.
"O governo está contente com a cobertura, mas provavelmente não tenha precisado exercer pressão direta sobre as tevês ou os jornais", sentenciou Paul Waldman, diretor do Centro Annenberg de Políticas Públicas da Universidade da Pensilvânia, em entrevista à
Folha de S. Paulo de 5/4/2003.
Tal comportamento revela uma opinião fraca. Representa uma falsa democracia que apregoa a "liberdade" dentro de suas fronteiras, por um lado, e não hesita em invadir a liberdade dos mais fracos.
Risco global
A atitude do jornalismo americano dá asas à cobra e impede que o povo norte-americano possua uma visão crítica do assunto. Como afirmou o jornalista Ryszard Kapuscinski, "em uma ditadura se aplica a censura; em uma democracia, a manipulação".
O mundo está ameaçado por essa miopia ideológica, quando a mídia é o oftalmologista. Carl Boggs lembra o absurdo de que 45% da população norte-americana estaria preparada para usar armas nucleares contra o Iraque na Guerra do Golfo.
Boggs ainda afirma: "Ações militares no Iraque foram transformadas em um espetáculo nacional grotesco, uma grande celebração da prática da guerra." Portanto, dizer que bombas são menos prejudiciais que a tendenciosidade da mídia norte-americana não se trata de exagero, pois o governo só precisa fazer o povo comprar a idéia.
Dessa mesma fonte vêm matérias preconceituosas, desinformação, antipropaganda a respeito de outros países, como a que sofreu o presidente Lula recentemente. Na segunda edição da Guerra do Golfo existia uma
Al-Jazeera para contrabalançar a informação. Foi a única emissora no mundo que proporcionou uma visão do "outro lado", apresentando o que a guerra significa para um hospital civil, para uma criança de colo.
A opinião pública não pode se tornar refém da fome econômica das nações ricas. O mundo, inclusive os Estados Unidos, precisa de mais
"Al-Jazeeras". Sem a visão do outro lado e a proteção dos mais fracos não existe democracia, nem liberdade.
criação: lisandro staut |
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