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Bola de cristal e nariz vermelho

Daniel Liidtke

Bola de cristal não é coisa só de guru. Brincadeira não é preferência só de palhaços. Alguns jornalistas, consciente ou inconscientemente, também entraram no ramo da adivinhação e do entretenimento barato. E o jornalismo esportivo parece ser o mais afetado.

O jornalismo popular não é pecado. Falar de esportes para um público de classe baixa exige malabarismos para tornar o conteúdo inteligível ao público-alvo. Mas isso não quer dizer brincar com a notícia. Em nome do sensacional, certos profissionais da comunicação trocam seu espírito investigativo e sede de descobertas dentro do esporte para usar um nariz vermelho de palhaço e tentar atrair a atenção de seus leitores/expectadores de maneira vazia, sem conteúdo.

As notícias são inesgotáveis. Principalmente quando se fala em esporte. A bola nunca pára. E, então, por que gastar espaço numa revista esportiva para falar sobre as milhares namoradas de Ronaldinho? - como aconteceu na edição de julho de 2004 da revista Placar. Acabaram-se os temas relevantes? 

Algumas páginas à frente, a mesma revista traz outro tema fascinante: a nova namorada do meia fluminense Roger. A reportagem - se é que dá pra chamar assim - traz fotos de Roger com Adriane Galisteu, sua cara-metade. Obviamente não ficaria de fora uma narrativa sobre a vida amorosa do jogador e um espaço para também falar de suas ex-namoradas famosas. E lógico, um destaque na frase informativa de sua parceira: "Namorar só por namorar não é comigo. Me entrego 100%. Existe uma vontade, sim, de ficarmos juntos." Dá vontade de rir. Nunca teremos um Brasil de indivíduos pensantes enquanto fofocas de esquina forem nossas manchetes. 

Se estudantes, após quatro anos de faculdade, levantam das carteiras da sala de aulas para reproduzir mediocridade, não podemos imaginar aonde nosso País de baixa escolaridade chegará.

Embora o esporte seja um entretenimento, e as pessoas que lêem sobre isso não busquem uma dissertação ou um artigo científico, os jornalistas devem ter a preocupação de levar cultura ao povo; por mais humilde que esse seja. E se nada for mudado, o desespero pelo lucro levará o jornalismo comprometido ao fracasso.

Além do sensacionalismo que chama a atenção do público com notícias desinformativas, o jornalismo esportivo tem sido afetado pelas novas tendências da magia e da adivinhação. Na TV, e principalmente no rádio, muitos jornalistas preferem ficar sentados fazendo especulações que não levam a um objetivo específico, ao invés de correrem atrás de um furo ou tema relevante. Quantas vezes os jornalistas esportivos da Band ou Record, por exemplo, passaram a semana inteira discutindo o possível passe de determinado atleta ou a transferência do técnico de certo time? A matemática humana não consegue chegar a um número preciso. Isso acontece em excesso. O pior é que geralmente as previsões não dão certo. Falsos profetas!

A tática para o verdadeiro jornalismo esportivo é chutar a bola de cristal e expulsar o nariz de palhaço da mídia. Caso contrário, chegará um dia em que tudo será entretenimento.

                   

criação: lisandro staut