editorial | especial | debate | imprensa em foco| links
mídia eletrônica 
| cultura | perfil |
  olho vivo | canal do leitor | e-mail | expediente

anteriores
| próximas edições |
inicial


Nascida para o futebol

Victor Drummond


É só abrir as páginas dos jornais brasileiros para ver a bola rolando pelos campos da imprensa. Impossível o leitor abrir um caderno de esportes de um veículo de comunicação e não se deparar com uma matéria sobre futebol. Ela está sempre lá, sorrindo para os torcedores inquietos que estão continuamente em busca dos resultados dos jogos, tabelas e um bom comentário sobre seu time. 

O futebol é a principal força que impele as redações e editorias especializadas em esporte no Brasil. Também seria displicência se nos jornais não houvesse pautas sobre essa modalidade tão forte em nossa pátria, e se não se delegasse equipes para cobrir os seus desdobramentos pelos campos deste vasto País. Não temos mais Garrinchas, Pelés, Tostões e Rivelinos. Mas possuímos Robinhos, Ronaldos, Diegos e Kakás. Astros da bola, dos chutes, dos belos gols e que movimentam multidões em direção aos estádios. Fazem os ouvintes e telespectadores torcerem apreensivos, à beira do caos cardíaco, mesmo que depois brilhem no exterior.

Acontece que apesar do forte futebol golear a alma brasileira, ele não é único. Há muitos outros esportes a serem explorados. Mas para grande parte da imprensa brasileira o que importa é o futebol. Só dá ele nos jornais e revistas. Fotos, textos, infográficos, tabelas, entrevistas com jogadores, técnicos, artigos. Todos giram em torno do aclamado futebol. Afinal de contas, a maior parte dos leitores está em busca desta paixão nacional. E o que muitas vezes importa para os veículos é garantir leitores. Bom para quem gosta. Ruim para quem se dedica a outros esportes, que acabam enfraquecendo por não ganharem força por meio da imprensa.

Pólo aquático, handebol, hipismo e atletismo raramente - ou nunca - são capazes de ganhar o mesmo espaço concedido ao futebol. Basta abrir a Editoria de Esportes da Folha Online para comprovar. No dia 16/8, um dia após a rodada do Brasileirão, adivinha o que abordava a foto legenda? O nosso estimado futebol, é claro. "Robinho festeja gol dos Santos na goleada contra o Paraná". Também não podemos ser tão incisivos, visto que a manchete era sobre o imbatível Schumacher. Mas o futebol estava ali, bem do ladinho. E com direito a foto, ferramenta forte para atrair leitores. No caderno de esportes de O Estado de S. Paulo, do dia 1.º/8, a hipótese se confirma. O futebol é o queridinho da imprensa brasileira. "Luís Fabiano, aposta do São Paulo no Sul" era a manchete. Na primeira página, somente assuntos futebolísticos. Na segunda e na terceira, também.

Nos Estados Unidos, a potência esportiva mundial, quase uma fábrica de atletas e medalhas em praticamente todas as modalidades, existe um equilíbrio na imprensa quando o assunto é esporte. Isso porque se trata de um país cujo investimento se dá em todas as formas esportivas. Do hóquei no gelo ao "Time dos Sonhos" com seus belos arremessos no basquete. No caderno de esportes da versão online do The New York Times a manchete do dia 16/8 não poderia deixar de ser a derrota do basquete masculino para Porto Rico nos Jogos Olímpicos. "Uma derrota mundial pega mal: Estados Unidos perde na estréia em Atenas" (A world beater gone amiss: The U.S loses Athens opener). 

Até os torneios universitários viram notícia na grande imprensa americana. Eles recebem tanta atenção quanto os jogos profissionais. Afinal, são os campeonatos organizados pelas universidades que revelam as estrelas para os times do país. No basquete, por exemplo, é obrigatório que todo jogador da NBA esteja vinculado à uma faculdade. No Brasil há um esforço do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) de transformar jovens estudantes em grandes atletas. O COB promove anualmente os Jogos Escolares Brasileiros (JEB's). Os JEB's já serviram de base para a formação de muitos atletas, que mostraram seus talentos quando ainda eram estudantes. 

De acordo com o site oficial do COB (www.cob.org.br), "os JEB´s são fruto de parceria do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) e dos Ministérios do Esporte e da Educação. O objetivo é investir na formação esportiva escolar, estimulando a prática de esporte entre os jovens e identificando novos talentos. Os Jogos Escolares Brasileiros são disputados por alunos de escolas da rede pública e privada de ensino, que representam os Estados em cada modalidade". Mas esse esforço não se reflete nas redações. Onde estava a imprensa para cobrir esses jogos como é feito nos Estados Unidos? Poucas pessoas tomaram conhecimento por meio dos jornais da existência desses jogos. 

As perspectivas de mudança e de evolução da imprensa em direção às pautas que apresentem outros esportes mostram suas facetas em fase olímpica, quando os jornais brasileiros tendem a se alterar um pouco, sem ter o futebol como o "norte" condutor. O Estadão Online dedicou um box exclusivo no início de sua página principal às Olimpíadas. As conhecidas caras do futebol abrem espaço para Daiane dos Santos, Daniele Hypollito, Camila Comin e Robert Scheidt. O fato do Brasil não ter se classificado no futebol masculino, o que é motivo para sentimentos vexatórios, faz com que outros esportes ganhem força durante a cobertura da imprensa. Parece a lei dos humanitas, muito viva na produção literária de Machado de Assis. 

Segundo ela, a felicidade de um depende da tristeza do outro. Para que um viva, o outro tem que morrer. Necessitou que isso acontecesse no mundo dos esportes. O futebol precisou ser eliminado para que outros esportes recebessem a atenção dos jornalistas brasileiros. Mesmo assim, mal-acostumado com a mídia sempre abordando o futebol, um amigo disse que não teria ânimo para assistir às Olimpíadas este ano: "Ah, não vai ter futebol! Não tem nem graça assistir." Coisa de quem nasceu só para o futebol. Assim como a imprensa brasileira. 

                                        

criação: lisandro staut