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O "Estado do Espetáculo"

Rômulo Gomes 

Autoridade e poder. Influência e persuasão. Enfim, política e comunicação. Desde os primitivos módulos de organização social até os complexos sistemas de relacionamento entre nações têm como centros de articulação e ação, a política. Com características arcaicas ou mesmo com atuação tímida, ela sempre existiu. Entrevada em centenas de anos e reconstituída com melhoramentos crescentes, a precondição para a política obter sustentabilidade atualmente, têm sido a utilização frenética da mídia. Que parece ter ou ser uma ferramenta política.

A história do surgimento do poder político reunia aspectos parecidos com a dos padrões atuais, mas o advento dos meios de comunicação de massa produziu um desvanecimento destas propriedades. Ou melhor, a absorção dessas. Elas ainda subsistem, mas de forma quase que arbitrária e sem importância. A mídia consegue abarcar os conceitos de ideologia política e manuseá-la perfeitamente. A política moderna, de fato, distanciou-se muito das propostas gregas e romanas tidas como os embriões da política. Mas a velocidade e amplitude da comunicação de massa substituíram as lacunas.

Acredita-se que a política existia antes da emergência dos povos gregos e romanos no mundo conhecido. Mas somente após o surgimento desses é que se obteve a idéia de poder e autoridade. Cita o historiador helenista, Moses Finley, que a apreensão que a maioria das pessoas tem atualmente sobre política é atribuída aos gregos. Ta politika, política no idioma grego, significa os negócios públicos dirigidos pelos cidadãos comuns. E faz sentido, pois etimologicamente a palavra sugere a relação entre cidade e cidadãos. Só não há menção da preocupação desses "cidadãos" com o resto do povo, como surgiria no termo democracia tempos depois.

Teorias...

Com o desenrolar de teorias e estudos de âmbitos sociais, a política adquiriu propriedades que a deixaram com a função centralizadora e coerciva dos Estados e seus povos. Nos períodos em que isso ocorre, a chamada Alta Idade Média e a Idade Moderna, o entretenimento e espetáculo têm seus tentáculos presos à Igreja e à política. No primeiro período, a cultura teocentrista ascetista reina como espetáculo vigente, mas tem muitas restrições. No segundo, os movimentos sociais desvelam a política e a arte como princípio de mercantilização. Esse é o início da libertinagem, por assim dizer, da mídia como conhecemos hoje. 

A preocupação de hoje com a mídia aliada à política é muito mais séria do que acreditam as pessoas. A partir do momento em que a mídia conquistou liberdade, passou a ditar as regras de várias instituições modernas e transcendentais, como família e escola. Por independência, entenda-se quebra de vínculos com a política e Igreja, que faziam a manutenção da mídia desde os períodos obscuros da Idade Média e os precursores da Idade Moderna.

Desde a prática do mecenato em que a nobreza patrocinava os artistas da época, até hoje, com poderosas empresas gastando milhões em publicidade e marketing, parece que muita coisa mudou na comunicação. Em tese, são só dados quantitativos. A exposição artística financiada pelos mecenas visava praticamente a divulgação exclusiva da imagem. Uma premissa de manutenção do poder nobre na corte. O que aconteceu na sociedade setecentista foi somente a gestação do marketing pessoal como se conhece hoje. O advento do capitalismo serviu para efetivar e consagrar a mídia como instituição que constrói imagens. Até que sua afirmação se deu como se percebe hoje.

Mais do que isso, a capacidade de separação entre o real e o que é representação, marcam o que se transforma na mídia atualmente. Tais conceitos já foram formulados em 1967, por Guy Debord, em sua obra-prima A Sociedade do Espetáculo. No livro, Debord trata da midiatização do mundo moderno e da relação deste, já modificado, com a consciência moral da sociedade. Nesse âmbito, tal é a importância da mídia que todas as instituições fazem uso dela, potencialmente a política. Principalmente numa sociedade em que o capitalismo exacerbado predomina com agressividade. 

O espetáculo torna-se chave para as várias representações sociais. A participação da política não fica minimizada nesta conceituação, mas se torna integrante de uma proposição ainda maior, em que a mídia absorve a política quando o espetáculo se torna o ensejo crescente da sociedade. E as aplicações dos anseios, na esfera política, definem a efetivação e sucesso de um e outro político. A manutenção cíclica do espetáculo.

...e efeitos...

"O objetivo era ser conhecido pelos brasileiros". Assim começa a obra de Mário Sérgio Conti, Notícias do Planalto (1999), uma grande narrativa que demonstra como a participação e uso calculado da mídia puderam eleger, por assim dizer, o ex-presidente Fernando Collor de Mello. Segundo a pesquisa de Conti, Collor construiu uma mensagem de apelo para a caçada aos marajás e atribuiu a espetacularização o envio deste conteúdo ao público.

Não foi difícil. Detentor de um poder inquestionável a família de Collor tinha posse de grande aparato de comunicação no Estado de Alagoas. Obteve sucesso "porque soube propagandeá-la na campanha eleitoral e, antes dela, no jornal nas rádios e na televisão de sua família, dona do mais poderoso grupo de comunicação de Alagoas". Segundo Conti, este foi o princípio catalisador da campanha. 

Mais do que isso, o autor afirma que Collor deveria ganhar expressão nacional em revistas, televisão e outros meios de grande prestígio. Sem demérito obteve tal façanha. "Collor tinha o que os jornalistas caçavam: notícias".

Collor tinha uma presença cativante que impressionava o público. Adorava um palanque, e também sabia a hora certa de deixá-lo. Causava anseio. Em definição de Conti, "Collor tinha o senso do espetáculo da política" teoriza em sua obra. Assim, como em dramas memoráveis, o então candidato a governador se projetou para o Brasil.

Assim como quando percebeu o poder, exatidão e feito das palavras ao escutar a palavra "marajá" num comício e inseriu-a em seu discurso causava impactos estrondosos. O autor de Notícias do Planalto menciona que "Collor se saía melhor disputando votos do que governando". Era um comunicólogo atuante.

...que se comprovam

Apesar de ser um debate de caráter teórico e filosófico, a espetacularização e a política se encontram passíveis de serem comprovadas na prática. A percepção gerada com estes fatores possibilita a execução ou explicação desse fenômeno.

O teórico Roger-Gérard Schwartzenberg, escritor da obra L'État Spectacle (O Estado do Espetáculo), define como o jogo político se transforma. Segundo ele "hoje em dia, o espetáculo está no poder. Não mais apenas na sociedade". O que acontece é o uso indiscriminado e possessivo da mídia como agente regulador de emoções humanas.

Como demonstrado anteriormente, a relação entre política e a mídia tem um laço tão intrínseco que mesmo tendo as raízes tecnicamente desligadas da política, isso não ocorre. Não se pode descrever a atuação da política de forma descentralizada, sem a mídia presente. Não por opção arbitrária, mas sim, por quesitos indispensáveis para a promoção de uma figura política. 

Portanto, para compreender o fenômeno da globalização e a transformação cultural e sociológica dos últimos séculos é crucial a interpretação da midiatização da cultura moderna. Sem enaltecer ou gerar conclusões pessimistas, a proposta plausível para essa situação é procurar entender e aplicar a conceituação de mídia, política e espetáculo dentro das esferas do poder e consigná-las numa perspectiva mais otimista. 

                    

criação: lisandro staut