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Covardia
e medo
Andréia Moura
Para onde caminha a humanidade, ninguém sabe. Mas o Brasil, sem sombra de dúvidas, caminha em direção ao suicídio. "Tudo para o Estado, nada contra o Estado, ninguém fora do
Estado." Lemas fascistas como este permeiam as últimas discussões em pauta pelo governo. Nos ouvidos do povo a filosofia de
Benito Mussolini reverbera doloridamente. A proposta da criação do Conselho Federal de Jornalismo é simplesmente o ápice dessas medidas características de totalitarismos absurdos.
A indignação que tal medida desperta é grande e justificada. Onde fica o direito, garantido por
Constituição, de se expressar livremente a opinião? O maior de todos os medos parece ter
se tornado realidade. A natureza esquerdista e dominadora do atual governo insurge terrivelmente diante dos olhos da nação. O poder se apóia na pretensa bonança que o Conselho Federal de Jornalismo
realizará na imprensa. Assim como em diversas profissões, tal órgão serve para "orientar, disciplinar e fiscalizar" as atividades jornalísticas.
Observemos cuidadosamente essas palavras. Orientar, disciplinar, fiscalizar. Quem o governo pensa que somos? Idiotas analfabetos incapazes de qualquer tipo de interpretação? É até um insulto apresentar esse "conceito" a jornalistas. Nós que, presumivelmente, temos a autoridade na questão das palavras. A única coisa que se pode concluir de tal classificação é
ele que pretende implantar uma censura prévia.
O CFJ nunca poderia se igualar à OAB ou ao Conselho Regional de Medicina.
Estes órgãos se ligam a profissionais liberais e o jornalista não é, e dificilmente será, um profissional liberal. Prova de que, mesmo com "boas intenções", essa medida se direciona para o foco errado. E certamente orientar, disciplinar e fiscalizar não faz parte do vernáculo próprio de uma democracia.
A imprensa é a mão que governa o mundo. Se foi por meio dela que o atual partido chegou ao poder,
será por meio dela que ele pode sair a qualquer momento. Não somos marinheiros de primeira viagem nesse tipo de empreitada. Já elegemos quatro presidentes e comandamos um
impeachment. Por que nos submeteríamos a um Conselho controlado por cinco pessoas?
Confusões e contradições
O governo se mostra contraditório e confuso no que concerne a questão do CFJ. Os que tentam cercear nossa voz agora, antes se valeram muito dela para atingir o poder. Quem
se acostumou a ser estilingue não gosta nem um pouco de exercer o papel de vidraça. A verdade é que estão com medo. Medo de que a imprensa abale as já apodrecidas estruturas do partido. O medo sempre é fator impulsionante de medidas drásticas e perigosas. Desde a
ditadura a imprensa não sofria ameaça tão descarada em sua liberdade, que, por sinal, foi alcançada por meio de duras lutas.
O jornalismo é um acervo de utilidades. Não se resume meramente à informação. Isso, certamente, é a base de toda imprensa, mas não a totalidade de sua função. Ela abrange reivindicação, denuncismo,
investigação e, acima de tudo, detém a opinião. Ora, opinião é coisa que não se pode tutelar. Doce ilusão essa que o governo acalenta. No mundo de hoje, no Brasil de hoje, é ironia pensar que aceitaríamos ser dominados novamente.
A lei vigente tem sido satisfatória na fiscalização do exercício da profissão. Com ou sem problemas, o jornalismo já tem inúmeras obrigações com a lei e a ética. Diga-se de passagem, que a legislação existente serve muito bem para tal papel. Não será a criação de um órgão específico que irá purificar e aprimorar a atuação da lei na imprensa. Os incomodados com o jornalismo atual podem recorrer a ela sem restrições. Não há nada que os impeça de reclamar sobre nossa atividade. Se julgarem estar sendo injustiçados, nos processem!
O excelentíssimo "companheiro" presidente chamou aos jornalistas de covardes. Devo discordar de tal afirmação. Nossa covardia não parece muito convincente, já que
argumentamos civilizadamente sobre a inutilidade do Conselho. Quem parece assustado e sem respostas esclarecedoras é o governo. Quem usa de vulgaridade, ao nos chamar de covardes, é o poder. A covardia se escancara na posição assumida pelo Estado. Os que têm o que esconder, os que se sentem ameaçados com a atuação da mídia, os que querem usar de métodos ilícitos de dominação não são os jornalistas. O único covarde nessa história é o partido que atualmente detém o poder.
criação: lisandro staut |
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