|
|
|
editorial |
especial | debate
| imprensa
em foco|
links
mídia eletrônica |
cultura | perfil |
nostalgia
olho
vivo | canal do leitor
| e-mail |
expediente
anteriores | próximas edições | inicial
Subserviente
à publicidade
Fernando Silva
Servilismo. Prestação de contas. Subserviência. Seja como for, o jornalismo, que se concentra em registrar o que acontece pelo mundo afora,
serve de bajulação a uma gama de publicitários famintos que "selecionam fatos ou mesmo os inventam a fim de servir a um único propósito, que é a persuasão ou a manipulação". Estes não estão muito preocupados com o fator da ética social.
A infiltração em massa da publicidade na veia jornalística torna difícil assistir a um telejornal sem ser empanturrado com os inúmeros
merchandisings apresentados. Se não é o merchandising televisivo, é o jabá radiofônico. E, para piorar tudo, a propaganda avança com força total para os espaços editoriais. Um exemplo, o colunista Pedro Washington, do Paraná. Ele era pago para divulgar informações em sua coluna que era publicada em sete jornais diários. " Você tem uma coluna valorizada e é como se fosse um
merchandising que hoje se faz na televisão", comenta Washington.
O jornalismo independente - se é que ainda existe essa independência - está sendo jogado num
barranco abaixo. As fronteiras entre o jornalismo livre e a publicidade estão cada vez mais estreitas - "nos lugares em que elas ainda são realidade". Informações cada vez mais sucintas e restritas a fim de "conceder" lugar para espaço publicitário, que já é lei em alguns jornais.
O doutor em Comunicação, e defensor do jornalismo independente, Nilson Lage, explica que "a publicidade avança sobre o jornalismo exatamente porque ele tem o que a ela falta: credibilidade. Cabe aos jornalistas (empresas também; credibilidade é a garantia de faturamento) dar um chega-prá-lá na turma do jabá".
Se não bastasse esse enredo todo entre propaganda e informação, alguns jornalistas contribuem para o caos. Quando fazem matérias pagas denigrem a imagem da ética
jornalística, que já não anda muito boa.
Em reportagem para a Folha de S. Paulo (2/9/04), o jornalista Fernando Rodrigues revelou documentos que comprovavam a obtenção de "matérias pagas" durante o governo de Jaime Lerner
em O Estado do Paraná. "O negócio era feito às claras, com notas fiscais e envolvendo até grandes agências de publicidade", denuncia Rodrigues.
Em reposta à questão levantada pelo jornalista da Folha, se existe alguma diferença entre anúncios e matérias pagas, a proprietária do
Jornal Iguaçu, de Dois Vizinhos (PR), diz que "depende do que se trata, de quem é. Tem casos que as matérias são tão boas que muitas vezes, mesmo que não pague, nós usamos. E tem umas que
têm que cobrar. Muitas vezes a gente cobre tudo, e, depois que saiu como notícia, muitas vezes a gente vai lá e [fala]: 'Olha, a gente está cobrindo sempre as matérias de vocês, tudo, e nós precisamos de uma ajuda do governo. Não tem anúncio, não tem nada, e a gente está cobrindo'(...) Então eles pedem: 'Olha, fatura umas matérias então aí, manda para nós'. Para esses jornais do interior o governo faz muito pouco, quase nada, não gasta conosco. Muitas vezes é até através do prefeito. Aí o prefeito vai lá e reivindica para a gente. Aí tem de sair uma
nota'".
Nilson Lage comenta que o "jornalismo, como negócio é serviço público. Depende de publicidade e, portanto, do andamento da economia - se em recessão, como esteve e está há muito tempo, as receitas caem".
É claro que não se pode generalizar. Muitos releases que a toda hora chegam
às redações são aproveitados pelos editores como matérias ou até mesmo na íntegra.
Mas, drasticamente, é muito pequeno se comparado com o número de bizarrices que circulam diariamente pelo País. Onde vamos parar, quem sabe. Mas se não acontecer uma reviravolta, o jornalismo está condenado
à subserviência da publicidade.
criação: lisandro staut |
|